por Beatriz Santana*
Há quase 50 anos, o Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco Eu Acho É Pouco arrasta pelas ladeiras de Olinda um dragão vermelho e amarelo que carrega mais do que confete e serpentina: carrega um ideal político e coletivo.
Desde o primeiro desfile, em 1977, o bloco se destacou por unir descontração e seriedade, transformando alegria em posicionamento. Organizar a raiva em defesa da alegria, lema criado em plena pandemia, sintetiza a essência do grupo. A jornalista Luciana Veras, voluntária do Eu Acho É Pouco, explica que o bloco sempre foi um espaço político por excelência, onde a liberdade de ser e pensar se manifesta em plena rua.
Durante a Ditadura Militar, amigos perseguidos e torturados pelo regime criaram o bloco como forma de protesto. A orquestra e a folia tornaram-se armas simbólicas na defesa da redemocratização. Passado meio século, estamos onde a gente sempre esteve: numa defesa ferrenha da democracia e também da liberdade de pensar o Carnaval como espaço em que as pessoas podem ser quem elas querem ser. De militância aberta, de esquerda, afirma Luciana.
Para ela, o bloco continua em militância aberta e cotidiana: Chegamos até aqui cada vez mais próximos desse ideal que não é utópico. Utopia é algo distante; o nosso ideal é concreto: a política se faz todo dia.
Sem receber subvenção pública por escolha própria, o Eu Acho É Pouco mantém-se com a força da coletividade. A autonomia é sustentada pela venda de camisetas, eventos e o tradicional Baile Vermelho e Amarelo, realizado desde 1982.
É a coletividade que leva o Dragão às ruas
A agremiação não tem hierarquia nem diretoria: é movida por voluntários que trabalham durante todo o ano. O Carnaval em Pernambuco vai muito além da sazonalidade. Estamos sempre pensando, planejando e renovando a agremiação, diz Luciana.
Essa autogestão garante liberdade política e criativa. O bloco já desfilou em apoio à eleição de Dilma Rousseff, em protesto contra o golpe de 2016 e, mais recentemente, participou do Cortejo do Futuro, durante a posse de Lula em 2023, quando o dragão cruzou a Esplanada dos Ministérios junto ao bloco do Minhocão.
A renovação também passa pelas novas gerações e pela música. O Eu Acho É Pouquinho introduz as crianças à tradição carnavalesca, mostrando que o frevo é liberdade, política e brincadeira. Já a orquestra, regida por Rizonaldo Souza, mantém viva a essência do frevo de rua enquanto renova arranjos e incorpora canções como Arrea a Lenha, Maracatu Atômico e sucessos de Reginaldo Rossi.
Artistas como Ed Carlos e Flaira Ferro, conhecidos por reinventar o frevo, também já subiram aos palcos dos bailes da agremiação. Entre as ladeiras de Olinda e as festas de arrecadação, o Eu Acho É Pouco segue reafirmando o Carnaval como espaço de alegria, memória e resistência.
E, como lembra Luciana Veras, Carnaval é política, sempre foi e sempre será.
* Beatriz Santana é estudante de Jornalismo da UFPE.
As reportagens publicadas aqui fazem parte da parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o projeto de extensão Cartografias do Frevo, desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.
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