Receber só dois meses depois do fim do São João já era ruim. Quando a Prefeitura de Caruaru publicou os editais para os artistas que querem se apresentar na festa de 2027, o que era ruim piorou: o prazo máximo de pagamento passou para 90 dias após o encerramento do ciclo junino.

Publicados na quinta-feira (29), os editais deram apenas três dias para impugnações, de quinta a sábado, em pleno feriadão que juntou o ponto facultativo do Dia do Servidor, na sexta, ao Dia de Finados, na segunda. Finados foi justamente a data marcada para a resposta às contestações. Ontem (3), artistas e produtores culturais foram à Câmara de Vereadores de Caruaru protestar contra as regras.

A mobilização nas ruas e nas redes sociais surtiu efeito parcial. Depois do ato, a Prefeitura anunciou que os editais serão refeitos e que o prazo de pagamento volta a ser de até 60 dias após o fim do ciclo junino, como no edital de 2026. A mudança vale para os dois editais, o de Música e o de Demais Linguagens Artístico-Culturais.

Segundo a Prefeitura, o prazo é necessário para que os patrocinadores paguem suas cotas. Com a atualização, as inscrições, que tinham começado na terça, passam a ser feitas de 11 de novembro a 11 de dezembro, pelo aplicativo Minha Caruaru.

Antes do ato, o prefeito Rodrigo Pinheiro (PSD) já tinha publicado um vídeo nas redes. Nele, disse que, embora o edital previsse até 90 dias, trabalharia pessoalmente para que os artistas recebessem em até 60 dias. A Marco Zero enviou perguntas à Fundação de Cultura de Caruaru sobre os editais, os pagamentos de 2026 e a votação no Conselho de Cultura, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

Para os artistas, a volta aos 60 dias não resolve as questões que estão sendo colocadas. Em carta aberta, eles reivindicam cinco pontos: revogação imediata dos editais, audiência pública com a classe artística, reajuste dos cachês, pagamento à vista logo após a apresentação e transparência total sobre as receitas e despesas do São João. Os pedidos também estão em requerimentos protocolados na terça-feira (03) pelos vereadores Edilson do MST (PT) e Gil Bobinho (PSB).

A prefeitura alterou dois pontos que não atendem a totalidade das reivindicações, especialmente porque os editais não foram fruto de discussão com a sociedade. Seguimos firmes na expectativa de revogação e abertura de negociação e ampla discussão sobre o edital e o São João, afirmou o cordelista Evaldo Araújo, um dos articuladores do grupo de pressão. Amanhã (quinta-feira, 5) estaremos novamente na Câmara de Vereadores para lutar pela aprovação dos requerimentos que demandam isso do prefeito.

Evaldo também questiona a falta de informação sobre as contas da festa. Ele cita uma lei municipal que obriga a Prefeitura a divulgar mensalmente as receitas e despesas do São João. A sociedade de Caruaru hoje não conhece as receitas e despesas do São João, especialmente os valores recebidos por meio de patrocínios, diz. O vereador Gil Bobinho apresentou um pedido de informação sobre esses dados.

Questionamentos sobre a votação no Conselho

O aumento para 90 dias passou pelo Conselho Municipal de Política Cultural. Segundo carta aberta divulgada em agosto pelo movimento Levante ProArte, a proposta foi aprovada na reunião de 10 de agosto, com 13 votos a favor de representantes do governo e nove contrários da categoria. Na ocasião, os artistas propuseram prazos escalonados conforme o valor do cachê: pagamento no dia da apresentação ou em até 30 dias para cachês de até R$ 50 mil; até 60 dias para cachês de até R$ 250 mil; e até 90 dias apenas para valores acima disso. A proposta não entrou nos editais divulgados na semana passada.

Segundo o músico e produtor cultural Carlos Cacaio, a sociedade civil está em minoria no Conselho, com cadeiras vagas. Os artistas da sociedade civil votaram contra o pagamento em até 90 dias, mas todos os conselheiros da Prefeitura votaram a favor, e o aumento do prazo foi aprovado. Estão justificando que foi uma aprovação do Conselho de Cultura, mas na verdade foi uma decisão unilateral, diz.

Parlamentares apoiam artistas de Caruaru

O grupo de artistas de Caruaru reúne mais de 300 fazedores de cultura, entre artistas, técnicos e produtores. O movimento recebeu apoio de deputados estaduais e federais eleitos pelo campo progressista. A deputada estadual reeleita Dani Portela (PT) disse, em vídeo nas redes sociais, que a sociedade civil não foi ouvida e que um prazo único de até 90 dias prejudicaria os artistas locais. O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL) classificou a medida como um ataque à cultura popular da gestão Rodrigo Pinheiro e comparou o tratamento dado aos artistas locais ao das atrações de outros estados, que, segundo ele, não sofrem atrasos. A deputada federal eleita Rosa Amorim (PT) afirmou, em nota, que cachê não é esmola e articulou com o vereador Edilson do MST um requerimento de urgência na Câmara pedindo a redução do prazo.

Carlos afirma que a gestão defende que ter um prazo no edital já é uma garantia. Mas alguns mestres da cultura popular contratados fora dos editais ainda não receberam pelo São João 2026. Para as grandes bandas de sertanejo e de forró que rodam o Brasil todo, o pagamento chega à vista. Todo mundo sabe que elas sobem no palco com o cachê já pago. A ordem das coisas está muito errada. A gente quer garantia de prazo e um piso mínimo digno para a cultura popular.

Para o artista Valdemar Neto, a responsabilidade pelo aumento do prazo é da gestão, e não do Conselho. O edital foi apresentado ao Conselho de Cultura em cima da hora e aprovado num dia em que o Conselho não estava com paridade. Se chegou ao Conselho, veio da base da gestão, afirmou, antes do anúncio do recuo da Prefeitura. Ele também teme que a regra de prazos cada vez mais extensos se espalhe para outros municípios. O São João de Caruaru é um modelo que muitas prefeituras copiam. Se Caruaru deixar isso passar, Campina Grande vai fazer igual, Belo Jardim também, e vira uma coisa comum. Que sejamos a primeira cidade a pagar à vista e mostrar que dá certo, reivindica.

Nem toda a programação passa pela seleção. Os editais reservam até 30% das atrações musicais e até 20% das demais linguagens para artistas convidados pela Fundação de Cultura, contratados fora do chamamento público. A Prefeitura não informou qual é o prazo de pagamento dessas atrações.

Se você não mostrar um vídeo, eles não acreditam

Os atrasos não se limitam aos editais. Integrante do Trio Mandacaru, Xanddy do Acordeon dize que há cinco meses esperam o pagamento de uma data de ofício. Nesse tipo de apresentação, o trio é solicitado para tocar e a Fundação de Cultura fica responsável pelo pagamento. Há cinco meses eu espero o pagamento de uma data de ofício que toquei num bairro aqui de Caruaru. Até agora, nada, afirmou, em vídeo publicado nas redes sociais.

Segundo ele, não é a primeira vez. No ano passado, ao cobrar outra data de ofício, a apresentação que faz há três anos na igreja do Convento, precisou provar que tinha tocado. Você chega na Fundação de Cultura, diz a data em que tocou, e eles começam a duvidar, dizem que a data está cruzada, que não foi você. Se você não mostrar um vídeo, eles não acreditam. Eu acho isso uma vergonha. Depois de apresentar o vídeo, Xanddy disse que ainda esperou pelo menos 15 dias para o pagamento ser processado, além dos mais de 90 dias que já tinha aguardado. Qualquer pessoa que presta um serviço quer receber na hora. Então por que o artista vai tocar e dizer que é bom receber com 60, 90 dias? Está errado. A gente quer receber na hora, quer reajuste, quer ter valor, disse, em vídeo nas redes.

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