Há uma velha alegoria atribuída aos antigos gregos de que gosto muito: se o navio de Teseu tivesse todas as suas peças trocadas ao longo dos anos, tábua por tábua, corda por corda, ele continuaria sendo o mesmo navio? Não sei a resposta. Mas pensei nela quando soube que o Mundo Livre, bar conhecido como um reduto progressista na região central de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, encerrou suas atividades.
Com as portas fechadas desde o último 19 de setembro, as paredes do estabelecimento exibiam fotos de artistas como Frida Kahlo, bandeiras LGBTs, de Cuba e da Catalunha, além de outras expressões artísticas ligadas ao pensamento progressista.
E o que me fez pensar nessa alegoria grega foi que aquele lugar já tinha sido outro bar antes de ser o Mundo Livre. Mudaram-se nomes, pessoas, histórias, talvez até algumas das coisas que existiam ali dentro. Ainda assim, por um tempo, continuamos chamando aquele lugar de Mundo Livre. Agora ele acabou.
Paredes do Mundo Livre decoradas com vinis e manifestação artísticas @Giovanna Gabrich
Será que aquele espaço continuará sendo, de alguma maneira, o mesmo bar onde passei tantas noites me divertindo? Bares nunca são apenas bares. Alguns são lugares onde você vai beber. Outros são lugares onde você vai encontrar alguém. Há aqueles em que você acaba entrando porque está passando pela rua e há aqueles para os quais você vai porque sabe que, em algum momento da noite, vai encontrar alguém conhecido. O Mundo Livre era um desses lugares.
Não me lembro da data exata da primeira vez que fui ao bar, mas sei que era um sábado. Fazia calor e eu estava em outro lugar pelo centro de São Bernardo quando uma pessoa com quem eu conversava mais virtualmente do que qualquer outra coisa me convidou para lá.
Quando cheguei, lá estavam seus amigos, com quem eu até tinha certa afinidade. Foi nessa mesma noite que beijei essa pessoa pela primeira vez, quando ficamos sozinhos na mesa.
Coincidentemente, também foi na minha primeira vez no bar a última vez do antigo dono (como dono). Era sua festa de despedida e, com sua voz aveludada, e digo isso sem a menor ironia, cantou clássicos da MPB, como A Loba, de Alcione, e Obsessed, da Mariah Carey, uma das divas pop que dispensam apresentações.
Depois daquele dia, perdi as contas de quantas vezes colei no Mundo Livre. Em noites quentes, quando tomar uma cerveja era como adocicar a alma, e em dias chuvosos, quando eu buscava mais abrigo do que embriaguez.
Entre brindes e petiscos nas noites no Mundo Livre @Reprodução redes sociais
Cantei, vi, ouvi e vivi muitas coisas no Mundo Livre. Algumas histórias nem podem ser escritas, pois faltariam palavras exatas para descrevê-las. Algumas eu prefiro tratar até como aventuras (ou desventuras, se preferir).
Conheci e desconheci pessoas ali. Comemorei datas, como o dia em que vim ao mundo, popularmente conhecido como aniversário, e até momentos de luto, como a eliminação do Brasil na última Copa do Mundo.
Talvez seja por isso que seja tão estranho escrever sobre um lugar que já não existe mais. O Mundo Livre não desapareceu exatamente como desaparecem os prédios. O endereço continua lá. As paredes continuam lá. Talvez amanhã outra placa seja colocada na fachada, outro balcão seja montado, outras pessoas ocupem aquelas mesas.
Espaço abria durante os jogos da Copa do Mundo @Reprodução redes sociais
Mas, por enquanto, ele ainda está lá, com a porta fechada, após um período de baixo movimento que, segundo apurei, comprometeu financeiramente o negócio. Eu mesmo passei por lá esses dias e o sentimento foi parecido com o de passar por ruínas de um antigo forte ou de uma coluna romana.
Um novo bar pode nascer naquele mesmo lugar, com outro nome, outros donos e outro público. E então voltamos ao navio de Teseu. Se o nome mudar, se o dono mudar, se as mesas mudarem, se a decoração mudar, se as pessoas mudarem, será que ainda será o mesmo lugar? Talvez não.
Ou talvez lugares, ao contrário de navios, não sejam feitos apenas de madeira, tijolos e cimento, bebidas bem feitas, músicas de gosto duvidoso e boa companhia. Talvez sejam feitos de memória.
Bar fechou em setembro deste ano @Gabriel Negri/Agência Mural
E, nesse caso, o Mundo Livre ainda vai existir por algum tempo. Vai existir na lembrança de quem tomou uma cerveja ali, de quem conheceu alguém naquela mesa, de quem passou uma noite discutindo política, religião ou quanto o seu time vai de mal a pior, e de quem encontrou naquele endereço um lugar onde podia simplesmente estar. Até que, aos poucos, essas lembranças também mudem.
É assim que as cidades desaparecem. Não de uma vez, mas aos poucos. Um bar fecha. Uma banca desaparece. Um cinema vira loja. Uma praça muda. Uma pessoa deixa de frequentar determinado lugar. E, quando percebemos, aquela cidade que conhecíamos já não existe exatamente como antes.
Talvez outro lugar apareça ali. Talvez até seja melhor e mais lotado do que o velho bar era. Mas não será o Mundo Livre. E talvez essa seja a resposta para o navio de Teseu: algumas coisas continuam sendo as mesmas enquanto ainda carregamos seus nomes, suas histórias e as pessoas que fizeram parte delas.
Depois, em algum momento, deixam de ser. O fim do mundo chegou ao Mundo Livre. Mas, por enquanto, ele ainda existe nas pessoas que tiveram a sorte de passar por ele.
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