Os municípios de Corumbá e Ladário, no estado de Mato Grosso do Sul (MS), foram reclassificados na categoria de clima subúmido seco pelo Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil, 2025-2045), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), lançado este ano. As cidades ficam localizadas na região noroeste do estado, em uma área dominada pelo bioma Pantanal. Anteriormente, as cidades eram classificadas como de clima úmido.

O PAB é o principal instrumento de planejamento, gestão e monitoramento da Política Nacional de Combate à Desertificação (PNCD) para os próximos 20 anos. Elaborado por meio de processo participativo, o plano integrou saberes acadêmicos e populares. Seu objetivo é promover a recuperação socioambiental e econômica de áreas afetadas, reduzir vulnerabilidades e fortalecer a resiliência das populações mais vulneráveis.

Segundo descrito no PAB, até então, essa classificação de clima subúmido seco só havia sido registrada no interior da região Nordeste, ao norte de Minas Gerais e no noroeste do Espírito Santo. Os dados são uma atualização do último PAB, publicado em 2004. Apesar do plano ter sido lançado em junho 2026, uma nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em conjunto com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), divulgada em 2023, também já havia revelado o aumento da aridez nesta região de Mato Grosso do Sul.

Para compreender por que uma região é classificada como subúmida seca, é necessário considerar o Índice de Aridez (IA). Ele é calculado pela razão entre a chuva acumulada em uma região e a evapotranspiração potencial do mesmo período, isto é, quanta água a atmosfera demandaria das plantas e do solo se houvesse disponibilidade suficiente. Quanto menor esse número, mais seco é o clima, porque a demanda de água supera o volume de chuva.

A partir dele, os pesquisadores classificam o clima em três faixas: árido (abaixo de 0,2), semiárido (entre 0,2 e 0,5) e subúmido seco (entre 0,5 e 0,65). Foi nessa última faixa que passaram a se enquadrar Corumbá e Ladário, de acordo com os dados analisados para o período entre 1990 e 2020, na bacia do Rio Paraguai.

Sobre Corumbá e Ladário

Corumbá tem cerca de 96.334 habitantes, segundo dados do IBGE, e é o quinto município mais populoso de Mato Grosso do Sul. A economia local tem forte presença do agronegócio e, de acordo com a Embrapa, a pecuária de corte é a base da economia rural do município. Corumbá abriga um rebanho bovino com mais de 2,1 milhões de cabeças de gado.

Em Ladário, por sua vez, a agricultura familiar e de subsistência tem destaque na produção agrícola, diferentemente do modelo de agronegócio exportador de grãos, como soja e milho, predominante em outras regiões do estado.

Segundo a prefeitura, a produção agrícola se concentra em pequenas propriedades e assentamentos rurais, como o Assentamento 72, que abriga uma comunidade tradicional pantaneira.

Os dois municípios fazem divisa, e Ladário é um enclave territorial, ou seja, está completamente cercado por Corumbá. As cidades também são próximas geograficamente, com cerca de 6 quilômetros entre seus centros urbanos, e mantêm uma forte integração econômica e urbana.

O que o Cerrado tem a ver com isso?

Apesar de o PAB mencionar que a região afetada é do bioma Pantanal, a Mongabay conversou com Gabriel Hofmann, geógrafo e pesquisador da Plataforma Internacional para Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (Pictis), sobre fenômenos observados no Cerrado que ajudam a explicar as mudanças na disponibilidade de água que também afetam o Pantanal.

Hofmann é autor, junto com outros pesquisadores, de um estudo publicado em 2023 na revista Scientific Reports, intitulado, em tradução livre, Alterações na circulação atmosférica e na evapotranspiração estão reduzindo a precipitação no Cerrado brasileiro.

Segundo o especialista, a seca no Cerrado está diretamente ligada ao fortalecimento e à expansão do anticiclone do Atlântico Sul, sistema de alta pressão responsável pela estiagem natural do Centro-Oeste, que vem se intensificando com as mudanças climáticas e empurrando o fim do período seco para outubro e até novembro.

A mudança climática está levando a uma intensificação desse sistema, ou seja, ele está ficando cada vez mais fortalecido, mais forte, e está se expandindo mais para o sul, ampliando a área de atuação no hemisfério sul, afirma.

O estudo registrou a queda das chuvas no bioma. Com dados de 70 estações pluviométricas do portal HidroWeb, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), os pesquisadores mostraram que a precipitação média anual entre 1991 e 2021 ficou 64,8 milímetros abaixo da registrada entre 1960 e 1990, com cerca de cinco dias de chuva a menos por ano.

Segundo Hofmann, a chuva do Cerrado sofre um golpe duplo. Além do anticiclone, há a supressão da vegetação nativa, que é a remoção, parcial ou total, da cobertura vegetal original para dar outro uso ao solo, neste caso, a expansão da agricultura e da pecuária.

As árvores do Cerrado mantêm alta evapotranspiração mesmo durante a seca, graças a raízes profundas que buscam água em grandes profundidades. Esse efeito desaparece quando a vegetação dá lugar à lavoura e à pastagem, justamente no período mais crítico do ano. Ele cita o pasto como exemplo: na seca, a braquiária amarela e praticamente deixa de evapotranspirar.

Entre 1990 e 2020, o Cerrado perdeu cerca de 36,7 milhões de hectares de vegetação nativa, segundo o módulo Desmatamento do MapBiomas (Coleção 11), iniciativa que mapeia o uso da terra no Brasil por satélite. Esse módulo acompanha, ano a ano, onde a vegetação foi retirada e considera também os anos anteriores e posteriores para confirmar a mudança.

Já o módulo Transições, que compara o mapa de 1990 com o de 2020, indica que cerca de 34,7 milhões de hectares foram convertidos em agropecuária. Em 2020, segundo o MapBiomas, a pastagem ocupava 54,3 milhões de hectares do bioma, o equivalente a 59,5% das terras ocupadas pela agropecuária, e a soja, 18,6 milhões de hectares. A pastagem, portanto, é o principal uso agropecuário do bioma, o mesmo tipo de cobertura que o pesquisador cita como exemplo de baixa evapotranspiração na seca.

O impacto chega ao Pantanal porque parte das nascentes que alimentam a bacia do Alto Paraguai nasce no Cerrado. A diminuição da chuva no Cerrado está levando à diminuição da água no Pantanal e causando esse aumento da aridez na região, explica.

Dados do MapBiomas, segundo ele, mostram que a área historicamente alagada no bioma vem encolhendo de forma acelerada, com o período de cheia, que costumava se estender de dezembro a maio ou junho, cada vez mais curto, sobretudo na porção norte do Pantanal. Ele destaca ainda que a irrigação intensiva por pivôs centrais no Cerrado amplifica significativamente essa perda de vazão dos rios.

A irrigação por pivôs é um método automatizado de aspersão de água em grande escala, muito utilizado na agricultura para fazer chover de forma controlada sobre lavouras. O sistema é composto por uma grande estrutura metálica suspensa por torres com rodas motorizadas.

Essa estrutura gira de forma circular em torno de uma base fixa central (o pivô), que é alimentada por uma fonte de água (como rios, represas ou poços artesianos). Segundo a Embrapa, essa técnica é utilizada principalmente por grandes e médios produtores rurais e empresas do agronegócio.

Redução do volume das águas do Pantanal

Para o biólogo Ernandes Sobreira Oliveira Junior, que desenvolve pesquisas nas regiões do Pantanal, Cerrado e Amazônia, a redução de chuvas no Cerrado está inteiramente relacionada com as águas do Pantanal. Segundo ele, sem chuva nas cabeceiras, a água não escorre para formar o Pantanal.

Ele relata que as águas do bioma têm duas fontes principais, uma delas são as chuvas que vêm dos rios voadores originados no oceano Atlântico e abastecidos pela umidade amazônica. A outra são nascentes que estão principalmente no Cerrado.

Segundo Oliveira Junior, o desmatamento na Amazônia também pode provocar menor evapotranspiração e, consequentemente, pode reduzir o volume de água que passa pelo Pantanal. O biólogo avalia que a reclassificação de Corumbá e Ladário como áreas de clima subúmido seco pode refletir os efeitos do desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

O pesquisador também explica que as nascentes no Cerrado precisam ser preservadas para que o fluxo de água possa escorrer para o Pantanal. Associado a isso temos o processo interno de aumento de temperatura regional, o que também favorece a evaporação da água, aponta o biólogo sobre a redução das áreas alagadas do Pantanal nos últimos anos.

Sobre a relação entre a redução das áreas alagadas do Pantanal e o aumento da aridez em Mato Grosso do Sul, ele explica que a diminuição das águas afeta todo o bioma, embora algumas regiões sejam mais impactadas do que outras. Os primeiros sinais aparecem nas baías que deixam de alagar e nos rios que não transbordam para formar as várzeas, especialmente nas áreas ao norte do Pantanal.

Como as águas escoam lentamente em direção ao sul, a redução do volume na porção norte também compromete o abastecimento de água nas regiões mais ao sul, onde estão Corumbá e Ladário. A diminuição da vazão dos rios e das áreas alagadas, por sua vez, torna o ambiente mais vulnerável ao aumento das temperaturas.

Apesar dos estudos que apontam o aumento da seca no Pantanal, ele esclarece que o clima mais seco é uma característica da região em determinada época do ano. No entanto, o problema é que essa condição tem ocorrido com maior frequência e por períodos mais longos.

Isso significa que secas mais intensas podem ocorrer, e isso favorece outras situações, como aumento de queimadas, prejuízo na qualidade do ar, aumento de doenças cardiorrespiratórias, destaca.

Climas subúmidos secos são suscetíveis ao processo de desertificação

Segundo o PAB, as áreas classificadas como áridas, semiáridas e subúmidas secas são consideradas suscetíveis à desertificação. O fenômeno envolve a degradação da terra em regiões secas e resulta da combinação de fatores climáticos e atividades humanas.

Os fatores climáticos são exemplificados por variações e mudanças climáticas, alterações nos padrões de chuvas e de temperatura do ar, ventos, baixa pluviosidade, altas temperaturas e secas prolongadas que provocam desequilíbrios hidrológicos.

Já as atividades humanas (ações antrópicas) incluem o desmatamento e a supressão da vegetação nativa, queimadas, práticas agropecuárias predatórias e o uso inadequado dos recursos hídricos, ações que deixam o solo exposto e vulnerável à erosão, comprometendo sua qualidade, biodiversidade e capacidade produtiva.

Segundo o documento, que reproduz a definição da Convenção da ONU de Combate à Desertificação, as áreas com clima que varia de árido a subúmido seco são classificadas como Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD). Nesse contexto, o termo não se refere à transformação do território em um deserto, mas ao processo de degradação da terra que pode ocorrer nessas condições climáticas.

De acordo com Gabriel Hofmann, a Organização das Nações Unidas (ONU) classifica uma área como deserto quando o índice de chuvas é inferior a 500 milímetros (mm) por ano. Ele acrescenta que o Cerrado e o Pantanal registram precipitações anuais na faixa de 1.100 a 1.500 milímetros, dependendo da região.

Por mais que a chuva esteja baixando, ela não está baixando a níveis de se reduzir a 500 mm, esclarece. Ele ainda destaca que o que está ocorrendo nessas regiões é uma tendência de aumento da aridez, intensificação e prolongamento do período seco, mas não necessariamente um processo de desertificação.

Posição do governo estadual

Procurada pela Mongabay, a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) de Mato Grosso do Sul afirmou que já acompanhava a suscetibilidade à desertificação na região de Corumbá e Ladário. A pasta reconheceu a classificação das áreas como subúmidas secas, mas ressaltou que isso não significa que os municípios estejam desertificados.

Segundo a secretaria, a avaliação da degradação das terras também precisa considerar fatores como vegetação, solo, água, uso da terra e o regime de cheias e secas do Pantanal. A secretaria informou ainda que Mato Grosso do Sul não participou institucionalmente da elaboração do PAB-Brasil nem da reavaliação dos dados que fundamentaram a classificação.

Entre as medidas adotadas pelo estado estão a conservação da vegetação nativa, a prevenção e o primeiro combate aos incêndios no Pantanal e o Programa de Pagamento por Serviços Ambientais no Bioma Pantanal (PSA Pantanal) que oferece incentivos à conservação e apoio a brigadas.

O PSA Pantanal é uma política pública do governo de Mato Grosso do Sul que remunera financeiramente produtores rurais e proprietários de terras que preservam a vegetação nativa do bioma além do exigido por lei. A Semadesc também citou a Lei Estadual nº 6.160/2023, conhecida como Lei do Pantanal, que estabelece regras para o uso da planície pantaneira.

A legislação protege ambientes naturais como veredas, áreas úmidas características da região, e salinas, corpos dágua cercados por faixas de vegetação protegida. Também restringe a implantação de cultivos agrícolas como soja, cana-de-açúcar e eucalipto. A lei abre exceções para determinadas situações, como a agricultura de subsistência familiar e os cultivos comerciais já existentes, cuja área não pode ser ampliada.

O estado também mantém o monitoramento das condições meteorológicas e das áreas queimadas por meio do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima (Cemtec) e da Unidade de Geoprocessamento do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Unigeo/Imasul).

Segundo a Semadesc, a classificação apresentada pelo PAB-Brasil será considerada no aprimoramento das análises territoriais e das estratégias estaduais de conservação e adaptação climática.

Como reduzir os impactos

Enquanto isso, pesquisadores discutem alternativas para reduzir os impactos desse processo. Para Hofmann, reverter esse quadro exigiria atacar as duas causas, reduzir a pegada de carbono, já que a mudança climática intensifica o anticiclone, e mudar a forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária.

Ele defende uma profunda alteração na demanda global por recursos naturais. Além disso, considera importante a conservação e a expansão das áreas naturais sobre as regiões que hoje são ocupadas pela agricultura e pela pecuária, com foco especial na conservação das zonas de nascentes.

Para o geógrafo, seria necessário que o país realizasse uma mudança drástica na forma como produz alimentos e maneja a pecuária, com a migração de um sistema baseado em commodities agrícolas para modelos que priorizem agroflorestas, sistemas de integração entre pecuária, lavoura e floresta e práticas mais sustentáveis de agricultura.

Eu acredito plenamente nisso, porque há um efeito duplo, tanto na conservação da água e da umidade do solo quanto no aumento da biodiversidade, defende.

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Agência Pública - Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo