Nos últimos dias, as periferias de São Paulo foram às ruas em apoio à candidatura do presidente Lula (PT) à reeleição. A mensagem é clara: a escolha deste domingo (25) não deve ser pautada por interesses individuais, mas sim pelo impacto coletivo. Neste editorial, a Agência Mural explica por que entende que a defesa dos nossos territórios, hoje, passa pela reeleição de Lula.
A Mural cobre as periferias a partir de quem vive nelas. Ao longo dos últimos meses, mostramos os projetos políticos em disputa, o que eles propõem para as periferias e por que precisamos de representantes que defendam os nossos.
Estou na expectativa de um futuro melhor, diz a indígena e auxiliar de limpeza Ceci Augusta Venâncio, 45, após votar na Escola municipal Aldo Ribeiro Luz, no Jaraguá, zona oeste de São Paulo. @Jucinara Lima/ Agência Mural
As quebradas não são homogêneas, e a polarização também está nos nossos territórios. No primeiro turno, Lula teve 5,3 milhões de votos na Grande São Paulo, e Flávio Bolsonaro (PL), 5,1 milhões. Os motivos do voto em Flávio são diversos.
Não é raro que, de forma preconceituosa, essa escolha seja atribuída às igrejas evangélicas, que em parte fizeram circular campanhas em favor do candidato do PL. Mas há outros fatores: o poder local, de prefeituras e vereadores, foi mobilizado majoritariamente em favor do senador – muito antes das eleições, diga-se, com o envio de emendas parlamentares estratégicas e propagandas políticas disfarçadas.
O desejo de mudança mobiliza jovens que estão chegando agora à política, muitos deles influenciados pelo que veem nas redes sociais. O desejo é legítimo, mas vale perguntar: qual projeto em disputa nos permite construir um país melhor?
Ele começa quando as condições de vida e de trabalho melhoram. Os preços no mercado ainda são um problema, mas eles subiram em uma velocidade muito menor do que nos quatro anos do ex-presidente, Jair Bolsonaro (PL). A insegurança é uma realidade nas quebradas, embora essa seja uma cobrança para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), responsável direto pela área e reeleito no primeiro turno.
O que está em jogo é justamente a possibilidade de cobrar o poder público. Reivindicar melhorias para sua quebrada só é possível em uma democracia – e não temos garantia da sua manutenção com Flávio Bolsonaro no poder. Ele já fez diversas declarações contra a ordem constitucional, defendeu pautas autoritárias e, um dia após o primeiro turno, afirmou com todas as letras que pretende mudar a Constituição do país.
Ailton Vieira, 70, aposentado e sambista do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, após votar no primeiro turno. @Léu Britto/ Agência Mural
A liberdade de se manifestar, denunciar, investigar e de existir está entre os riscos que enfrentaremos em um eventual governo Flávio, como alerta o editorial conjunto de dezenas de organizações de jornalismo.
A democracia costuma parecer uma discussão distante dos nossos territórios, porque muitas vezes não sentimos que ela nos atende. Mas para seguirmos um caminho de desenvolvimento, conquistando direitos, precisamos dela e da mobilização dos nossos.
O aumento da nossa presença nas universidades só foi possível porque políticas públicas foram criadas e agentes políticos ouviram a necessidade de ampliar esse acesso. Essa presença tem permitido que uma nova geração de jovens negras e negros ocupe espaços e traga os resultados de volta para seu território. A existência de organizações como a própria Agência Mural é, em grande parte, fruto disso.
O salário mínimo tem tido reajustes acima da inflação nos últimos anos, o que não aconteceu no governo anterior. O mesmo vale para os aposentados. Manter esse ganho real é garantir o poder de compra de quem mais precisa, e isso está em jogo neste domingo.
O fim da escala 6×1, defendido pelo governo Lula e promulgado neste mês, é uma conquista histórica e vai beneficiar milhares de trabalhadores que vivem nas nossas periferias. O SUS (Sistema Único de Saúde) não é perfeito, mas é fundamental para reduzir o impacto das doenças, como vimos na pandemia de Covid-19.
E, sim, é preciso lembrar dela: 82 mil dos nossos, pessoas que viviam na Grande São Paulo, morreram em meio a uma política que desprezava as medidas de proteção. No Brasil, foram mais de 700 mil mortes durante o governo Bolsonaro, enquanto o então presidente zombava das famílias em luto e das pessoas em UTIs.
Jovens se mobilizam no Grajaú, zona sul de São Paulo
O descaso à vida se refletiu também na desvalorização da própria democracia. Apenas um dos candidatos ameaçou o resultado de uma delas: o grupo de Bolsonaro, com apoiadores que seguem em prisão devido à tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2022 – incluindo o próprio ex-presidente, Jair Bolsonaro.
Uma das frases que ecoaram nas manifestações foi: O povo das periferias não quer ser lembrado apenas em ano de eleição. Ela resume o que está em disputa. Ser lembrado o ano inteiro exige que as nossas vozes possam continuar se organizando, reivindicando e cobrando quem elegemos.
Nossas mobilizações seguirão depois do dia 25 e a Mural continuará acompanhando cada uma delas. Mas só se pode reivindicar direitos, melhorias e mudanças onde há democracia.
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