O assistente administrativo Hugo Luiz Vieira do Carmo, 33, é usuário frequente do Centro Educacional Unificado (CEU) de São Mateus, localizado a apenas 10 minutos de caminhada de sua casa, no Parque Esperança, zona leste de São Paulo. Como uma pessoa com deficiência visual, ele usa sua bengala e se guia pelo trilho, nome popular para o piso tátil instalado como guia na rua.

Os equipamentos garantem que o jovem tenha autonomia de ir sozinho ao local para participar de atividades de esporte, lazer e socialização. Ainda assim, ele reclama que faltam adaptações nas periferias de São Paulo para permitir a mobilidade de pessoas com deficiência visual. Hugo perdeu a visão devido a retinopatia da prematuridade, condição em que falta oxigênio para o bebê e as células da retina morrem.

Um dos maiores desafios é sair do bairro onde mora para ir às consultas médicas em Santo André, ou para visitar parentes no Jardim Colonial, bairro próximo. Atravessar avenidas é uma das suas grandes preocupações.

Aqui não temos sinais sonoros para dizer se o semáforo está ou não aberto para pedestres. Muitas vezes não tem gente para ajudar e como é que a pessoa [com deficiência visual] vai saber quando pode atravessar? Fica o pedido para a prefeitura para implementar, porque é importante para nós usarmos a cidade. Impacta e muito na nossa vida, reivindica.

Botoeiras ficam conectadas aos semáforos que emitem sinal quando o pedestre pode atravessar a rua.

Os semáforos sonoros, chamados de botoeiras sonoras, são instituídos pela Resolução do Conselho Nacional de Trânsito. Trata-se de um dispositivo equipado que emite sinais sonoros, visuais e vibratórios para auxiliar a travessia de pedestres com deficiência visual As botoeiras são acionadas pelo pedestre, por meio de um botão.

Um levantamento exclusivo da Agência Mural revela que dos 1.382 sinais sonoros em semáforos de São Paulo, nenhum está nas periferias da cidade. Os dispositivos estão concentrados em 17 dos 96 distritos da capital paulista, todos em regiões centrais e ricas.

Para se ter ideia da concentração, de cada 10 equipamentos, sete estão nos distritos de Vila Clementino, Vila Mariana, Santa Cecília, Bela Vista, Itaim Bibi, Ipiranga, Sé, República e Bom Retiro.

Os dados são da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte de São Paulo, solicitados via Lei de Acesso à Informação (LAI), em agosto de 2026.

Distribuição desigual

A primeira vez que Hugo ouviu falar das botoeiras, ele ainda estudava ensino fundamental, nos anos 2000, no Colégio Vicentino de Cegos Padre Chico, localizado no Ipiranga, zona sul de São Paulo. Trata-se de uma instituição filantrópica e gratuita de educação escolar para pessoas com deficiência visual, adaptada para os alunos.

O jovem conta que a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) foi até a escola para explicar aos estudantes como funciona o dispositivo. Desde então, ele não encontrou outras botoeiras nos locais por onde costuma circular, nas periferias de São Paulo.

Eduardo Silva Ferreira, 16, mora no Jardim das Nações, em Diadema, na Grande São Paulo, e também estuda no Colégio Vicentino. Ele possuí 10% da visão preservada, resultado de condição de nascença, acompanhada do albinismo, e confirma que o entorno da escola é acessível, com semáforos sonoros. Fora de lá, a realidade muda.

Na periferia não tem tanta adaptação, mas perto dos bairros nobres, da elite, têm mais

Eduardo, 16, estudante.

O Ipiranga, região nobre da cidade, onde está o colégio, é um dos distritos com mais botões nos semáforos para acionar o sinal sonoro, totalizando 106 dispositivos, segundo o levantamento da Mural. Ao menos 44 deles estão nas proximidades da escola.

A Vila Clementino, onde fica um dos maiores centros de tratamento para pessoas com deficiência visual, o Dorina Nowill, concentra a maior quantidade de botoeiras (167). O bairro fica no distrito da Vila Mariana, primeiro no ranking, com 341 botões de acionamento.

O jovem estudante do ensino médio não critica a presença dos dispositivos nessas localidades, que ajudam no acesso dos PCDs aos centros de reabilitação. Mas reforça que a falta em outros locais impede pessoas com baixa visão de se locomoverem pela cidade sozinhos e com segurança.

Eduardo vai e volta da escola com transporte escolar do Programa Ligado, fornecido pelo governo do estado. Porém, em dias de atividades extracurriculares, como passeios e festas, ele tem dificuldade de ir até a escola. O mesmo ocorre quando vai para terapias, todas as quartas, em um centro de reabilitação em Santo André, na Grande São Paulo.

Eduardo se desloca ao menos uma vez por semana para as terapias e sente falta de acessibilidade para pessoas com baixa visão.

Tudo é feito em companhia dos pais, inclusive ir à igreja aos domingos, no mesmo bairro onde mora, em Diadema. Eu acho perigoso, tipo eu não estou enxergando e está vindo o carro de algum lugar, isso dá um pouco de medo, mas é porque não tem adaptação, acrescenta.

Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte de São Paulo não respondeu quais critérios para escolha dos locais para implementação dos botões e porque eles estão presentes apenas em regiões centrais e nobres da cidade.

Acessibilidade nas periferias

A falta de dispositivos nos semáforos é parte de um problema maior sobre falta de acessibilidade nas periferias de São Paulo. Eduardo chegou a cair na rua devido ao desnível da calçada e avalia a possibilidade de aderir a uma bengala verde, usada para pessoas com baixa visão ou visão parcial. Me machuquei todo, lamenta.

Ele e Hugo vivenciam constantemente situações de capacitismo. Além disso, encontram barreiras estruturais na cidade, inclusive obstáculos perigosos pelo caminho, como buracos, desníveis em calçadas e até lixo descartado em local inadequado.

Tem lugares que o piso tátil começa, a pessoa anda desavisada e dá de cara com uma parede

Hugo Luiz Vieira do Carmo, auxiliar administrativo, 33.

Calçadas retas, corrimão em escadões; piso tátil; pontos de ônibus com paradas audíveis; elevadores nas estações de metrô e portas de segurança nas plataformas de trens e metrôs são algumas das reivindicações dos entrevistados. Seria importante que o Expresso Tiradentes tivesse o mesmo sistema tecnológico dos trólebus modernos, de falar o nome das paradas, reivindica Hugo.

A principal delas, no entanto, é que as pessoas com deficiência visual sejam ouvidas pelo poder público na hora de implantar recursos de acessibilidade – e que eles cheguem a todos os bairros e distritos da cidade.

Barreiras de acessibilidade nas quebradas

1

Arquitetônicas: Espaços que dificultam ou impedem acesso e a circulação de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

2

Comunicação: Quando uma informação é disponibilizada em apenas um formato, na qual parte da população pode encontrar dificuldades ou ficar impedida de acessá-la. Por exemplo, ausência de interpretação em Braile.

3

Atitudinais: comportamentos que prejudiquem a participação das pessoas com deficiência em igualdade de condições e oportunidades, como discriminação, infantilização, incapacitação e desconsideração da pessoa na tomada de decisões, por exemplo.

 

Fonte: Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência nº 13.146/2015

Agência Mural

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