O professor, doutorando e mestre em Educação, Marcio Luiz Dias, atua há 13 anos na formação continuada em tecnologias educacionais do corpo docente da rede pública de ensino do Distrito Federal. Seu foco é a inteligência artificial na educação.
Ele compreende que a formação continuada é indispensável tanto para professores com formação analógica quanto para os recém-formados em licenciaturas.
No campo digital, as mudanças ocorrem em velocidade tão rápida que torna praticamente impossível que o currículo das faculdades esteja sempre atualizado.
Marcio acha legítimo o receio de alguns colegas professores em utilizar a inteligência artificial na educação, no entanto, avalia que este é um caminho sem volta. É algo que se popularizou há relativo pouco tempo, mas que tem ampliado sua presença de forma rápida e abrangente.
Nas capacitações oferecidas pela Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF), a orientação aos docentes é mediar para que a classe supere o uso mecânico das ferramentas digitais.
O Currículo em Movimento das Escolas Públicas do DF preconiza que a formação continuada extrapole o uso instrumental das tecnologias e passe para o uso crítico, colaborativo e focado na intencionalidade pedagógica, relaciona o professor Marcio Luiz.
Já a gestora educacional Kassula Correa defende a importância de valorizar a experiência analógica prévia dos docentes e aproximá-la das novas tecnologias de forma prática, contínua e acolhedora.
Muitos deles desenvolveram estratégias incríveis de ensino usando quadro, livros, papel e muita criatividade. O que precisamos é aproximar esses profissionais das novas possibilidades, respeitando suas trajetórias.
Tarefas
A IA também pode contribuir diretamente para automatizar e otimizar rotinas burocráticas e repetitivas, como tarefas administrativas e operacionais, e também para desenvolver atividades que promovam mais a colaboração e o significativo engajamento estudantil, lista o professor do DF.
Como consequência direta, o professor Marcio Luiz aponta para a liberação de tempo de qualidade para que o professor estude mais, planeje as aulas e se dedique ao acompanhamento individualizado das necessidades dos estudantes.
Nós professores nos vemos com uma série de rotinas burocráticas, repetitivas, cansativas que, embora essenciais para o andamento da escola, tomam nosso tempo para estudar, planejar aulas, testar formatos e adequações, bem como acompanhar de maneira mais próxima nossos estudantes.
Apesar de a tecnologia trazer agilidade na hora de diversificar exercícios, adaptar níveis de dificuldade, elaborar planos de aula e agilizar correções objetivas, a diretora Kassula ressalta que a escolha da melhor estratégia para a turma depende exclusivamente do julgamento humano do educador.
A qualidade do ensino continua dependendo da capacidade de transformar os recursos tecnológicos em experiências que ajudem o aluno a aprender. Avaliar o desenvolvimento de uma criança exige compreender seu percurso, suas dificuldades e seus avanços.
Sala de aula
O professor do Centro de Ensino Médio Integrado à Educação Profissional (CEMI) de Taguatinga, cidade do Distrito Federal, Jaime Guilherme de Oliveira, ensina computação gráfica para estudantes de 14 a 18 anos do ensino médio. Muitos deles sequer têm computador em suas residências.
Vindo do mercado corporativo, na rede pública, o docente passou por capacitações via Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE) da secretaria de educação do DF.
São eles: Cursos de Linguagens Digitais e IA na Prática Docente, além de pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora e cursos online permanentes.
Como resultado do aprendizado incorporado, Jaime Guilherme coloca a inteligência artificial para trabalhar a seu favor na rotina docente, como na criação de conteúdo para as aulas expositivas que facilitem sua compreensão; no planejamento das atividades de cada turma; na elaboração de avaliações adaptadas às necessidades de alunos com neurodivergências ou necessidades específicas; e no desenvolvimento de jogos educativos para fixação e revisão dos conteúdos.
É de autoria do tutor Jaime, via ChatGPT, o jogo interativo Arena ABNT, com as regras, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) ensinadas de forma lúdica para a escrita de trabalhos acadêmicos.
Nas dinâmicas pedagógicas, Jaime vê a IA como uma oportunidade para aproximar os alunos das transformações do mundo do trabalho.
O docente, no entanto, reflete que mais importante do que saber gerar conteúdo é saber por que este está sendo criado, para quem será destinado e quais consequências poderá produzir.
A ferramenta pode fazer muito por nós, mas a intenção, a sensibilidade, o pensamento crítico e a responsabilidade continuam sendo essencialmente humanas.
Desafios: da cópia ao aprendizado
Em sua atuação como formador de outros professores, Marcio Luiz Dias enxerga que o acesso a dispositivos móveis e à internet no Distrito Federal é amplo, mas o principal desafio consiste em transformar a conectividade em uso crítico, cidadão e produtivo. E o educador estimula a conectividade para ir além:
O letramento digital deva atuar fortemente contra riscos, como aplicação de golpes e fakenews propagadas pelas redes sociais, bem como de se tornar uma fonte de novos aprendizados dos quais a pessoa necessite no campo pessoal ou da cidadania.
Tratando especificamente dos estudantes, o professor Marcio estimula que os profissionais da educação tenham autoridade para estabelecer que a IA seja utilizada pelos estudantes como ferramenta de apoio para assimilar, raciocinar, pesquisar, questionar, debater.
Reconheço que isso não é fácil, mas o caminho do letramento digital, da formação docente, de estipular e cobrar a análise, a síntese e a argumentação do aluno já foram testados com sucesso, conclui Marcio.
O combate ao "atalho" exige dos alunos capacidade de análise, síntese e argumentação própria, desenvolvidas via letramento digital.
Dentro do ambiente escolar, o professor Jaime Guilherme de Oliveira ensina aos jovens que a IA deve ser usada com intencionalidade clara; caso contrário, os atalhos da ferramenta geram entregas vazias. "Quando existe uma intenção clara, a ferramenta amplia o alcance de quem já tem algo a dizer."
Futuro da IA na Educação
O professor de Taguatinga, Jaime Guilherme, projeta a presença crescente da IA no planejamento docente e na personalização da aprendizagem. Ele defende que a tecnologia não substitui o professor, que tem papel insubstituível na mediação pedagógica, orientação ética, checagem de dados e formação crítica dos alunos.
IA e rede pública
O Ministério da Educação (MEC) informou à Agência Brasil que uma nova resolução sobre o uso de inteligência artificial deverá ser publicada em breve, sem precisar uma data.
O documento terá o objetivo de ampliar o uso pedagógico da tecnologia, preservar a autonomia dos professores e garantir a proteção dos estudantes.
Com a futura publicação, a pasta busca estabelecer diretrizes claras e segurança jurídica para que gestores e redes de ensino façam uso das novas tecnologias de forma segura, inclusiva e responsável.
A partir da resolução, o país passa a contar, de forma inédita, com um parâmetro nacional unificado para orientar a adoção consciente e ética da inteligência artificial em todas as etapas de ensino, diz a nota do MEC.
Sobre conectividade nas escolas públicas de educação básica em todo o país, o MEC tem a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec).
Em julho deste ano, 108.658 escolas estavam conectadas dentro dos parâmetros de qualidade adequados, classificadas nos níveis 4 e 5 do Indicador Escolas Conectadas (Inec), o que corresponde a 78,7% das 138.086 escolas monitoradas.
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