As eleições de 2026 representaram um avanço na presença de mulheres em espaços como a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) e a Câmara dos Deputados. O crescimento, embora modesto, também alcançou as mulheres negras, historicamente sub-representadas na política brasileira.
No entanto, ao mesmo tempo em que novas vozes chegam aos parlamentos, a composição das casas legislativas impõe desafios para que as propostas sejam aprovadas e representem os anseios das periferias.
Na Alesp, das 94 cadeiras disponíveis, 28 serão ocupadas por mulheres a partir de 2027, duas a mais do que nas eleições de 2022, segundo o TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo). Apesar do crescimento, elas representarão menos de 30% dos parlamentares estaduais, percentual distante da participação feminina na população.
Entre as mulheres pretas e pardas, a presença é ainda menor. Foram sete eleitas neste ano, contra cinco em 2022. Isso significa que apenas 7,4% das cadeiras da Assembleia serão ocupadas por mulheres negras. O resultado representa um avanço, mas também revela a distância entre a diversidade da população paulista e a representação política.
Entre as eleitas estão Mônica das Pretas (PSOL), que recebeu 159.100 votos, Ediane Maria (PSOL), com 170.844, e Thainara Faria (PT), com 81.485, que conquistaram a reeleição. Também chegam à Assembleia Débora Camilo (PSOL), com 94.895 votos, Ely Santos (Republicanos), com 82.559, e Keit Lima (PSOL), com 58.984.
A presença dessas mulheres é especialmente significativa para as periferias de São Paulo e da Grande São Paulo. São territórios onde questões como acesso à educação, moradia, transporte, combate à violência e desigualdade racial fazem parte do cotidiano dos moradores, mas nem sempre encontram espaço nas prioridades dos parlamentos.
Um dos exemplos é Keit Lima, moradora da Brasilândia, na zona norte da capital. Eleita vereadora de São Paulo em 2024, com 27.769 votos, ela chegará à Alesp defendendo pautas feministas, antirracistas, de justiça social, dos direitos da população LGBTQIAPN+ e da representação das favelas.
Keit defende política públicas dos direitos humanos e das periferias @Arquivo pessoal/Divulgação
A eleição dela demonstra como trajetórias políticas construídas nesses territórios podem alcançar novos espaços de decisão. Entretanto, conquistar uma cadeira não significa, necessariamente, ter força política suficiente para transformar reivindicações em leis e políticas públicas.
Além disso, o crescimento de candidaturas femininas e negras está relacionado a uma trajetória de organização política, participação em movimentos sociais e iniciativas de incentivo à diversidade dentro dos partidos.
Entretanto, persistem barreiras partidárias, desigualdades no financiamento de campanhas e dificuldades de acesso às estruturas políticas. Para mulheres negras, esses obstáculos podem ser ainda maiores, tanto na disputa eleitoral quanto no exercício dos mandatos.
Crescimento e contradições
Apesar do avanço da presença feminina, não há uma agenda política comum entre todas as mulheres eleitas. Entre os cinco candidatos mais votados para a Alesp, três são mulheres, mas com posições políticas bastante distintas.
Eduarda Campopiano (PL) foi a candidata mais votada do estado e ganhou projeção nas redes sociais com um discurso contrário ao feminismo, enquanto candidaturas como as de Sofia Favero (PSOL) e Paula da Bancada Feminista (PSOL) defendem pautas ligadas aos direitos das mulheres,e educação.
A partir de 2027, as deputadas eleitas encontrarão um cenário político marcado pelo fortalecimento de partidos conservadores. Na Assembleia Legislativa, o PL conquistou a maior bancada, com 27 dos 94 deputados estaduais. Além disso, a base de apoio ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) terá maioria na Casa.
Essa composição poderá dificultar o avanço de propostas defendidas por parlamentares de oposição, especialmente em temas nos quais existem divergências ideológicas, como direitos reprodutivos, combate ao racismo, políticas para a população LGBTQIAPN+ e enfrentamento à violência de gênero.
Isso não significa que essas deputadas estarão impossibilitadas de atuar. A apresentação de projetos, a participação em comissões, a fiscalização do Executivo, a articulação com movimentos sociais e a construção de alianças políticas também fazem parte do trabalho parlamentar.
Para as periferias, a eleição de mulheres negras pode significar uma ampliação das vozes que levam suas experiências ao debate público. São trajetórias que ajudam a aproximar os espaços de poder de uma parcela da população historicamente distante das decisões políticas.
O resultado de 2026, portanto, deve ser observado para além do número de cadeiras conquistadas. O crescimento da representação feminina e negra é importante, mas ainda insuficiente diante das desigualdades existentes. O desafio dos próximos quatro anos será verificar se essa presença conseguirá influenciar decisões, garantir recursos e produzir políticas públicas capazes de responder às demandas das periferias.
Avanço limitado na Câmara
O cenário nacional apresenta contradições semelhantes. Na Câmara dos Deputados, o número de mulheres negras eleitas passou de 31, em 2022, para 34 em 2026. Embora represente um crescimento, elas ocuparão apenas 6,6% das 513 cadeiras da Casa.
O destaque positivo é a recordista de votos, a deputada federal reeleita Erika Hilton (PSOL). Ela conquistou mais de 1,5 milhão de votos em São Paulo. Ela é considerada a segunda parlamentar no país a receber 1 milhão de votos para o cargo.
Ainda assim, a representação negra como um todo, por outro lado, diminuiu. Foram eleitos 135 deputados federais autodeclarados pretos ou pardos, contra 139 no pleito anterior. Isso significa que a bancada negra corresponderá a 26,3% do total de parlamentares, percentual distante da participação dessa população na sociedade brasileira.
No caso de São Paulo, das 70 vagas destinadas ao estado na Câmara dos Deputados, apenas 16 serão ocupadas por mulheres, o equivalente a aproximadamente 23%. Em 2022, haviam sido eleitas 14 deputadas federais paulistas.
Agência Mural
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