Criado em 2000, em meio à euforia da virada do milênio, o Panelafro é uma festa que mistura diversos ingredientes da cultura popular afro-brasileira num só caldeirão, a uma nova pintura cultural na região de M’Boi Mirim, que hoje tem reconhecimento em toda a cidade, revela Jonas Barbosa, o  mestre de capoeira, Arákùnrin, 63, apelido que em Ioruba significa irmão, criador do Panelafro e do Instituto Espírito de Zumbi, coletivo que organiza o evento.

Mestre Arákùnrin tocando o berimbau, instrumento musical usado na capoeira @Leonardo Almeida/Agência Mural

No início do Panelafro, era o Axé Music o estilo de música mais popular nas quebradas da capital paulista. Os moradores do bairro viveram um certo estranhamento ao ver que na festa tocava ritmos mais tradicionais da cultura afro-brasileira, como a ciranda, o coco e o samba.

E para convencer o público a frequentar o evento, o mestre Arákùnrin realizou um trabalho de base no M’Boi Mirim e aproximou os moradores do projeto.

Nos primeiros Panelafros não tinha público. Se a gente fizesse um show de axé, lotava, mas para dançar a ciranda, o samba de coco, não tinha ninguém. Então comecei a ir nas escolas e a trazê-las para o Panelafro, diz Arákùnrin.

Assim, o encontro cumpriu mais um dos objetivos, alimentar as pessoas com novas culturas e expressões artísticas, enquanto preserva ritmos da cultura popular afro-brasileira e combate preconceitos.

‘Hoje me sinto muito contemplado em olhar para uma roda de ciranda e ver as crianças, jovens, terceira idade, todos juntos de mão dadas dançando a ciranda’

Arákùnrin, mestre e criador do Panelafro

Uma festa para todos

Para realizar a festa, os 20 organizadores do Panelafro realizam vaquinhas e contam com investimentos direitos de integrantes da organização.

É um rolê espiritual, aqui a gente se encontra, se conecta e conversa. É algo comunitário, não é uma balada, é cultural Acho bonito isso, afirma Humanidade, 36, integrante do Instituto Espírito de Zumbi, que participa do Panelafro há 23 anos.

Humanidade, diretor no Instituto Espirito de Zumbi e organizador do evento @Leonardo Almeida/Agência Mural

A região de M’Boi Mirim une dois distritos, Jardim São Luís e Jardim Ângela, território com a maior concentração de pessoas negras da cidade de São Paulo. Entre os 560 mil habitantes, 60% são pretos ou pardos, segundo o Censo de 2022, realizado pelo IBGE.

Realizar o evento justamente aí carrega um significado especial, valorizar a comunidade negra da cidade de São Paulo, por meio do encontro de amigos, da dança, da comida feita com carinho, celebração da fé e do fortalecimento do espírito comunitário.

Durante a cerimônia de abertura, que marca o início da festa, os integrantes do Instituto Espírito de Zumbi fazem uma homenagem para a divindade do candomblé Exú. Eles cantam e tocam para o orixá, para pedir licença e abrir os caminhos do Panelafro.

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Além de ser uma festa, é um momento de oração. A gente canta para Exú e faz a ciranda, isso remete muito à nossa ancestralidade, conta France Gaia, 65, frequentadora do Panelafro há 20 anos e moradora do bairro Jardim Figueira Grande, no Jardim Ângela, na zona sul.

Mais que alimento para a mente, a iniciativa também oferece o alimento para a barriga. Um dos momentos mais aguardados pelo público é o Ajeum, palavra que vem do Iorubá e significa comer juntos. Nessa hora, são servidas as refeições do dia, com um cardápio recheado de comidas típicas da cultura afro-brasileira. A merenda é distribuída gratuitamente ao público.

É uma manifestação cultural onde as pessoas se respeitam, e um lugar de conforto, uma espécie de quilombo, afirma a cabalereira Luana Sereia, 29, moradora do Jardim Ibirapuera e frequentadora da festa há mais de 10 anos.

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As portas do Panelafro estão abertas também para que pequenos empreendedores possam expor seus produtos. A maioria são mulheres negras, como a artesã Ana Paula Souza, 49, que produz e comercializa bijuterias na festa.

Aqui a gente se une para mostrar a nossa arte e trabalhar a economia criativa, que é muito importante para a nossa quebrada, conta a empreendedora, que mora em Taboão da Serra, município vizinho da zona sul da cidade de São Paulo.

Assim, há mais de duas décadas, a festa se tornou ponto de resistência da cultura negra na quebrada, ao unir roda de capoeira, afoxé e samba de coco. Quem quiser participar, basta ir à Casa de Cultura de M’Boi Mirim (Avenida Inácio Dias da Silva, s/nº, Piraporinha) na última sexta-feira de cada mês. O evento é gratuito e as portas estão abertas.

Agência Mural

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