É importante compreender as abstenções e os votos brancos e nulos dentro de um processo histórico de desgaste da representação política. Primeiro, precisamos olhar para faixa etária, raça, gênero, renda e território. Essas dimensões ajudam a investigar experiências diferentes de relação com o Estado e com a política.

Mas precisamos distinguir os comportamentos: deixar de comparecer pode envolver desconfiança, dificuldades de deslocamento, questões de saúde ou outras circunstâncias. Votar branco ou nulo pode expressar rejeição às alternativas, protesto ou até erro.

Os números, sozinhos, não são capazes de revelar essas motivações. A literatura sobre participação eleitoral mostra justamente a necessidade de considerar fatores sociais, institucionais e a avaliação que as pessoas fazem da política.

Também existe uma questão geracional. Uma parcela do eleitorado construiu sua experiência política atravessando as manifestações de 2013, o impeachment de Dilma, crises econômicas, a ascensão do bolsonarismo e a pandemia.

São experiências que podem produzir cansaço, frustração e uma sensação de que participar não resulta nas mudanças esperadas. A desconfiança nos partidos já existia antes de 2013, mas aquele ciclo tornou muito visível a dificuldade das instituições de representar demandas e expectativas da sociedade.

O PT ocupou a Presidência durante uma parte expressiva das últimas duas décadas, embora esse período também inclua os governos Temer e Bolsonaro. Por isso, Lula pode ser associado tanto às conquistas quanto às insuficiências desse percurso.

Uma pessoa pode reconhecer que sua família teve mais oportunidades e, ao mesmo tempo, considerar que os governos petistas não responderam suficientemente aos problemas que continuam presentes. Reconhecimento de conquistas, avaliação do governo atual e decisão de voto são coisas relacionadas, mas não equivalentes.

Houve mudanças importantes no acesso à educação e nas possibilidades de vida de muitas famílias negras e periféricas. O Censo mostra, por exemplo, que a proporção de pessoas pretas com 25 anos ou mais e ensino superior completo passou de 2,1%, em 2000, para 11,7%, em 2022. É uma transformação expressiva, que convive com uma desigualdade persistente: entre pessoas brancas, o percentual era de 25,8% em 2022.

Essas mudanças têm significados diferentes conforme a trajetória de cada pessoa. Quem viveu uma situação de exclusão e depois acessou oportunidades pode ter uma memória muito concreta dessa transformação. Quem cresceu quando determinadas possibilidades já existiam pode tomá-las como ponto de partida e cobrar outros avanços. Isso também é legítimo.

A ampliação de oportunidades também amplia expectativas: entrar na universidade pode vir acompanhado do desejo de conseguir um trabalho compatível com a formação, ter uma casa, viajar e viver com mais segurança.

Por isso, eu teria cuidado com a ideia de que falta apenas às pessoas reconhecerem o que receberam. Direitos não criam uma dívida eleitoral. Uma conquista pode ser valorizada sem que isso elimine a insatisfação com a renda, o transporte, a violência ou a dificuldade de construir um futuro. Esse humor político nacional, inclusive, foi o berço que possibilitou a ascensão do bolsonarismo no Brasil.

Além disso, a relação entre uma melhora na vida e as decisões políticas que a possibilitaram nem sempre é evidente para a população. Os efeitos de políticas públicas aparecem em tempos diferentes e se misturam ao esforço individual, às redes familiares e às condições econômica mais amplas.

O desgaste da representação também produz respostas distintas. Ao longo da última década, vimos nascer diversas iniciativas de renovação e novas formas de organização tentando aproximar a população da política institucional.

Ao mesmo tempo, a contestação aos partidos foi disputada por projetos de diferentes orientações. O bolsonarismo conseguiu mobilizar parte dessa insatisfação; outras pessoas permaneceram afastadas das alternativas disponíveis. Portanto, descrença política não significa necessariamente desinteresse pelos problemas coletivos, mas pode apontar indisposição em lutar dentro do arranjo institucional atual.

Quanto ao impacto para Lula, o ponto central é que abstenções, brancos e nulos não constituem uma reserva automática de votos para ele.

Na minha avaliação, o desafio de Lula envolve reconstruir confiança na capacidade da política de produzir mudanças no presente. Isso passa por reconhecer problemas reais, demonstrar como as decisões públicas afetam a vida cotidiana e apresentar compromissos concretos para o futuro próximo. A desconfiança se alimenta também de experiências de abandono e escândalos de corrupção. Ela precisa ser levada a sério.

O que está em disputa, portanto, inclui a percepção de que participar ainda pode fazer diferença. Essa confiança depende de comunicação, mas também de vínculos, escuta, capacidade de resposta e resultados.

O segundo turno coloca esse desafio num prazo muito curto; o problema que ele revela é muito mais amplo, complexo e duradouro.

Agência Mural

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