Desde os 14 anos, Roger Bravo, agora com 23, já sabia que queria trabalhar com cinema. Na época, uma professora passou a tarefa de gravar um vídeo na escola. Achei aquela experiência muito legal: filmar, apresentar e ver as pessoas assistindo, rindo e se divertindo, conta o jovem da Vila Silvia, distrito de Cangaíba, na zona leste de São Paulo.
A partir daí, começou a estudar sobre cinema por conta própria. No TCC do seu curso técnico de Informática, finalizado em 2019, criou o Cinédito, canal no Youtube sobre cinema. Mal sabia que, um ano depois, iria começar a dirigir o curta-metragem de animação Eu volto para te buscar, financiado pelo edital do edital do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais).
Com seu trabalho, o cineasta se torna parte de uma nova geração do audiovisual periférico, com foco em animações – mas em um estilo bastante específico: as produções usam recursos tecnológicos para retratar as periferias da Grande São Paulo como elas são e contaram até com participações especiais, como do rapper Emicida.
Roger, estudante de cinema em filmagens de animação do curta ‘Eu volto para te buscar’ que usar arte e atores profissionais @Mutuá/Divulgação
Em agosto de 2026, a animação de Roger venceu recentemente a 10ª Mostra de Cinema de Fama, de Minas Gerais, na categoria de animação. Em outubro, o filme desembarca no 2º Cine Grande Norte, em Mossoró, no Rio Grande do Norte e no 19º Festival Ibero-Americano de Cinema de Animação, o Baixada Animada, no Rio de Janeiro.
Costumo dizer que [o curta] Eu volto pra te buscar também foi a minha graduação, porque o filme levou quatro anos para ser feito, brinca Roger, que em 2026 se forma em Cinema pela USP (Universidade de São Paulo).
Mesclando animação 2D, 3D e live-action, a produção conta a história de Luquinhas, um jovem que vê no grafite uma forma de se encontrar no mundo e ser alguém na quebrada. Completam a turma os personagens Murilo, o melhor amigo; B.O, grafiteiro mais velho; e Hermético da Rima, que personifica o desejo do diretor de valorizar os talentos da quebrada.
A animação estreou em 2025 no Animage – Festival Internacional de Animação de Pernambuco, e também ganhou espaço na Mostra de Cinema de Tiradentes e no Festival de Cinema de Paranapiacaba, além de outros festivais independentes, escolas e Fábricas de Cultura da Grande São Paulo.
Para representar a quebrada
A entrada de Roger no mundo do cinema de animação não foi premeditada. O coletivo audiovisual no qual faz parte, o Mutua, inscreveu o projeto no edital do VAI e o convidou para dirigir e assumir os desenhos dos cenários.
Como eu não sabia mexer no Toon Boom, que é o software padrão da indústria de animação, fiz umas gambiarras meio malucas, animando frame a frame no [software] After Effects”, lembra.
‘Tentei fazer da forma mais viável possível. Por isso, o filme tem dezenas de planos de personagens segurando lata de spray, detalhes das mãos e closes dos cenários’
Roger, estudante de cinema
Assim foi possível brincar com com as linhas e dimensões de objetos e paisagens, para recriá-las em uma animação 2D. Todo trabalho contou com apoio de uma equipe composta por pelo menos 10 profissionais, entre animadores e profissionais da técnica, de São Paulo e Belo Horizonte.
Para ajudar na representação de espaços das quebradas, Roger e a equipe criaram um sistema no software Blender que gera imagens de casas de periferia, alterando portas, janelas e cores. Isso porque no programa não havia referências de ilustrações fiéis ao que ele vê nas ruas das quebradas.
Os processos de design dos personagens em 3D do curta-metragem ‘Eu volto para te buscar’ @Mutuá/Divulgação
É uma arquitetura muito particular, que você não encontra em bancos de modelos 3D gringos, conta.
Além das casas, o artista criou córregos, ladeiras e outras ilustrações típicas de periferias brasileiras nos softwares. A inspiração veio da sua realidade. Era só abrir a janela [de casa], olhar para a rua, pegar a referência e voltar para o computador para fazer.
Com Emicida
Se para Roger a oportunidade de dirigir uma animação apareceu de repente, para o também animador Wanderlei Cardoso de Oliveira Junior, 27, nascido na zona norte de São Paulo, o destino estava desenhado desde a infância.
Sempre tive aptidão para visualizar pessoas ao meu redor e transformar em personagens. Na época, era um estilo cartoon, mas hoje eu estou tentando observar cada vez mais os fenótipos presentes no Brasil e representar isso de uma forma direta e sincera, conta o ilustrador e grafiteiro, mais conhecido como Deley.
Em 2025, ele dirigiu a primeira animação, o curta-metragem autoral Debutantes – E os momentos antes, tiw?. O curta-metragem de 13 minutos, em animação 2D, conta a história de Tité e Di Menó, duas crianças que trabalham em uma biqueira e lidam desde cedo com responsabilidades e violências. Entre brincadeiras de rua e conversas sobre o futuro, Tité cogita deixar o crime, enquanto Di Menó não enxerga alternativas.
Equipe da ‘Manda Busca’ no lançamento do filme no cinema do Centro Cultural de São Paulo na Vergueiro @Julia Cavalcante/Divulgação
Quem dá voz a narrativa é ninguém mais, ninguém menos que o rapper Emicida, que aparece no começo e no fim do curta, lendo um texto escrito por ele mesmo sobre pensar, sonhar e continuar produzindo na periferia.
Ele colou na minha casa, subiu o morro e ficou lá o dia todo assistindo o filme, trocando ideias e falando sobre, relembra Deley, que estudou na mesma escola que o rapper, a E.E Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto, na região do Tremembé, na zona norte. Desde a época de estudante ele já o via como referência.
Não à toa, o cenário do filme é inspirado no bairro no Jardim Fontalis, na zona norte de São Paulo, e traz referências de grafites de artistas da região, entre eles o próprio diretor: Deley IFC, e outros nomes, como Linbo INC, Imagem da Villa, Maricleide APL, Odé, Tammy, Kick INC, Luis Kin, Fran INC, Renato Master IFC, Denis Magic e Tiago TH.
Debutantes nasceu de observar o que estava rolando na minha áreas, comenta Deley. Enquanto eu trabalhava [na empresa Split Studio, em projetos como Seninha e Turma da Mônica, aos 18 anos], só contava histórias que não faziam sentido para mim. Desenhava casas com chaminé, sendo que eu nunca vi uma chaminé. Cheguei a conclusão de que tínhamos que fazer uma animação que falasse de nós.