O eleitorado cristão voltou ao centro das atenções de candidatos e coordenadores de campanhas eleitorais. Nas eleições anteriores, as principais lideranças evangélicas e católicas se vincularam ás candidaturas de direita e, principalmente, de extrema direita. No entanto, o segmento está longe de ser monolítico, tanto que, em 2026, diversos grupos evangélicos se aproximaram do campo progressista em Pernambuco.

A menos de uma semana das eleições, a corrida presidencial mostrou o cenário que já vinha se desenhando anteriormente, segundo o Datafolha: entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o atual presidente detém a maior fatia das intenções de votos entre os católicos, com 45% contra 33% do concorrente. Entre os evangélicos, ele leva 27% do eleitorado.

O relatório Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral mostra o desenho do eleitorado evangélico neste período. A pesquisa do Instituto Democracia em Xeque e Casa Galileia é realizada quinzenalmente a partir de discussões em redes sociais de organizações, lideranças e políticos ligados ao campo evangélico. O levantamento indica que “convergem em narrativas que associam o governo a problemas diversos e apresentam a rejeição a Lula como argumento para o voto em Flávio.

Já entre os evangélicos de esquerda, o período é marcado por uma mobilização eleitoral mais massiva. A campanha ganha centralidade entre perfis evangélicos de esquerda, com pedidos de voto, divulgação de eventos, críticas e estímulo ao compartilhamento. Ao mesmo tempo, lideranças contestam a ideia de um voto evangélico homogêneo e disputam as relações entre fé, democracia e política, indica o levantamento.

De acordo com a pesquisadora em Comunicação, Religiões e Política no Instituto de Estudos da Religião (Iser) e editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha, a pesquisa Religião e Vida Pública do Iser mostrou que a população evangélica é muito participativa nos espaços digitais e a maioria deste grupo se informa sobre política pelas plataformas de mídias sociais. Significa que a forma de comunicação eleitoral com evangélicos via mídias sociais é decisiva.

Cunha confirma que, apesar do eleitorado evangélico ser majoritariamente mais conservador, ele também é composto por pessoas com outras identidades além da fé. Que segue não apenas indicações feitas nas igrejas, mas tendências sociais que mostram um país dividido com base em emoções, em um anti-determinado candidato/partido, explica.

O voto é a decisão que leva em conta todas as expectativas, avaliações e projeções de vida, do cotidiano, relacionadas a essas identidades. Por isso, o eleitorado evangélico é plural, não homogêneo majoritariamente, mas não radicalmente conservador, com uma parcela significativa que vota nas esquerdas e um grupo ‘pendular’ que decide a partir do que percebe nos movimentos de campanha, complementa.

Sempre houve nas igrejas evangélicas brasileiras os grupos mais conservadores e os grupos mais abertos, progressistas que são herdeiros da tradição teológica do evangelho social, lembra a pesquisadora, reforçando que as igrejas evangélicas brasileiras são marcadas por uma pluralidade. Entretanto, os grupos hegemônicos, ou seja, que possuem mais patrimônio, maior distribuição territorial, acabam tendo mais voz e mais mídia, causando uma percepção de voz única dentro do campo evangélico.

É interessante que, mais recentemente, durante o período de avanço da extrema direita no Brasil, a partir de 2014, é que nós vamos ver os conflitos aparecerem. Essa negação da pluralidade, a negação da existência de tendências teológicas diversas e a construção de um discurso único que seria o discurso verdadeiro e que tudo aquilo que não fosse dentro desse discurso único, ultraconservador, seria contra a realidade da igreja e deveria ser extirpado, aponta Cunha.

A especialista ainda reforça que os grupos mais alinhados à esquerda com pautas que abraçam os direitos humanos continuam resistindo. A gente tem tendências teológicas, leituras e interpretações diversas. Dentro dessa pluralidade enorme, há os grupos que leem na Bíblia e se alimentam de uma leitura de uma fé que os impele a atuar por direitos humanos e por justiça social, conta.

No Brasil, a gente tem muitos grupos hoje que são herdeiros dessa tradição: o movimento negro evangélico, movimentos de mulheres, movimentos feministas, movimentos por justiça na moradia, movimentos por justiça ambiental, movimentos contra a pobreza, por igualdade de renda, movimentos por trabalhadores. São muitos grupos espalhados Brasil afora, com todas essas pautas relacionadas a direitos humanos, em especial na defesa da vida, acima de tudo, a vida humana e a vida não humana, refletida no meio ambiente, conclui.

Igreja em Olinda existe há 33 anos e acolhe fiéis LGBTQIA+

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Pelo direito de existir e resistir na fé

A gente tem uma escolha não neutra, que é exatamente lutar por pessoas que as outras igrejas não querem. Os outros espaços religiosos não apoiam essas pessoas. A população negra e LGBT não tem voz, não tem vez. E aqui, na Igreja Batista de Bultrins, desde 2023, quando nós ordenamos a primeira pastora lésbica batista, fizemos uma decisão de acolher pessoas LGBT nessa igreja exatamente para que esse espaço seja um espaço acolhedor para todas as pessoas, conta o pastor Bruno Aguiar.

A Primeira Igreja de Bultrins nasceu há 33 anos na comunidade Vila Esperança, no bairro dos Bultrins, em Olinda, Região Metropolitana do Recife. Bruno explica que a igreja já surgiu em um contexto de atender pessoas que têm direitos violados, como os mais pobres e, mais recentemente, reforçando o acolhimento da comunidade LGBT com a Pastoral da Diversidade.

Em agosto, a igreja foi reinaugurada, após reparos em parte do teto, que havia caído meses antes. No culto de reinauguração, foi possível ver a pluralidade dos fiéis que participaram. Pessoas trans, gays e lésbicas trabalhando pela obra e louvando o Deus cristão com a segurança de que aquele também é o espaço deles.

Augusto Neto é um dos integrantes da Pastoral da Diversidade. Professor universitário, arquiteto e urbanista, comunista e não binário, que anteriormente foi convidado a se retirar junto com a esposa, uma mulher feminista, de uma igreja tradicional por questionar padrões da instituição. Na PIB, enxergou um lugar para professar a sua fé sem medo.

Eu comecei a frequentar Bultrins e percebi que, em nenhum momento, a igreja pediu para que eu abandonasse a minha sexualidade. Bultrins, em nenhum momento, pediu para que eu abandonasse o meu entendimento político, não só enquanto uma pessoa progressista, mas uma pessoa comunista, relata.

Apesar de ter uma identidade política demarcada e de ter muitos integrantes de esquerda, Neto enxerga como problemático colocar a igreja dentro da caixa progressista. A gente não está sendo progressista. A gente está sendo bíblico, muitas vezes. Em aceitar as pessoas do jeito que elas são. Em falar sobre o pecado quando a gente fala sobre o mal que ele faz ao outro e que faz a si mesmo. Não o pecado como uma característica sua de nascimento enquanto pessoa gay ou lésbica, argumenta.

As mulheres de fé também são parte central nos debates sobre a democracia. Pensando nessas reflexões, o projeto Pastoral Vivas, uma iniciativa de três organizações, o Instituto Lamparina, Casa Galileia, e Novas Narrativas Evangélicos, que buscam dialogar o campo da justiça reprodutiva com as mulheres que possuem alguma fé, em sua maioria as mulheres evangélicas.

A proposta é subverter a fé da ideia de controle e aplicá-la no campo do cuidado, justiça, escuta e liberdade. Para isso, são criados espaços seguros de comunhão, redes de apoio e leituras bíblicas, em um trabalho coletivo para garantir a dignidade das mulheres.

Quando a gente fala de justiça reprodutiva a gente fala de algo mais amplo mesmo, de pensar contracepção ou não pensar, pensar de segurança de criar esses filhos que quer ter inclusive para que se possam crescer os filhos que se quer ter. Mas também de saúde reprodutiva e aborto. Não dá para negar essa pauta, afirma Débora Oliveira, coordenadora da Pastoral Vivas e do Instituto Lamparina.

Débora reforça que a dinâmica parte de um processo de troca, pensando em construção de conhecimento com encontros on-lines e presenciais. Um dos resultados dos encontros até aqui foi o Guia Narrativo da Pastoral Vivas, que reúne estudos bíblicos, cartas escritas por mulheres de fé, orações e um glossário para conversar sobre a vida das mulheres a partir da dinâmica da fé, sobretudo cristã.

Ao olhar para esse eleitorado, o de mulheres evangélicas, Débora conta que a Lamparina tem feito análises de conjuntura e enxerga que as mulheres de fé não têm o voto convencido apenas pelo candidato que professa sua mesma religião, mas leva os fatores da vida cotidiana em consideração na hora de escolher.

Esse é um campo que não tá decidido. As mulheres evangélicas são sujeitos políticos de muita autonomia e que pensam política muito a partir do chão das suas vidas, da concretude das suas vidas. Elas estão olhando também pro candidato que se diz evangélico, mas elas estão olhando também pro que esse candidato que se diz evangélico diz, elas estão olhando também pro candidato que não se diz evangélico e o que ele diz, porque elas sabem o preço do supermercado quando sobe, elas sabem como é a política do Vale Gás, por exemplo, são elas que recebem Bolsa Família, que criam seus filhos, pontua.

Deus, nós e a natureza

O bem-estar comunitário fora da comunidade evangélica também atravessa congregações vistas como tradicionais, é o caso da Igreja Batista de Coqueiral (IBC). Com 100 anos de existência, esta é a instituição mais antiga do bairro da zona oeste do Recife. Hoje, é presidida pelo pastor José Marcos da Silva, que integra a equipe de 11 pastores há 23 anos.

A integração com a comunidade aconteceu após diversos eventos que provocaram a reflexão das lideranças sobre a relevância daquela congregação na comunidade. Primeiro, começaram com ações para as crianças, seguiram com projetos de empregabilidade e qualificação para jovens, até perceberem a necessidade de uma formação política para à luz das mazelas estruturais que a comunidade enfrentava.

Assim foi criada a Escola de Fé e Política, que levou letramento político para que a comunidade compreendesse o pecado estrutural, como eles se referem às mazelas estruturais que atravessam as periferias, como racismo, questões ambientais, violações de direitos.

Esse movimento de buscar compreender isso, que fez a igreja de Coqueiral ser uma igreja que, quando chega a polarização e o bolsonarismo e captura a igreja evangélica, a igreja de Coqueiral não precisou fazer nada para não ser capturada. Por quê? Porque ela tinha aí pelo menos oito, nove anos que já vinha em formação política e compreende que essa captura ela se deu justamente porque o povo evangélico não era politizado, avalia.

“É quando a velha frase de Dom Helder caiu como uma luva em nós: se dou pão ao pobre, me chamam de santo, mas quando pergunto por que o pobre não tem pão, me chamam de comunista”

A igreja também está ligada a discussões sobre o racismo ambiental em áreas banhadas pelo rio Tejipió, Em 2016, instituiu o Projeto Rio Limpo Cidade Saudável, com apoio de uma organização internacional, para atuar com educação socioambiental e fomento a políticas públicas para a região.

Foi no berço das discussões socioambientais que nasceu o movimento Nós na Criação, que começou como um grupo de estudos de jovens da IBC e agora tem uma trajetória própria olhando para o campo evangélico a partir de discussões que disseminam o pensamento ecoteológico.

A ecoteologia é uma corrente que une a teologia à ecologia, refletindo sobre a fé e a espiritualidade a partir do compromisso com o cuidado da terra e do meio ambiente. “A ecoteologia nos apresenta que ninguém pode ser obrigado a morar em cima do rio sujeito ou sujeita a ter tudo atropelado pela enchente”, reflete Josias Vieira Kaeté, pastor da IBC e do Movimento Nós na Criação.

Grupo Nós na Criação promove reflexões unindo ecologia e teologia

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Nesta perspectiva, o movimento organiza encontros mensais com pessoas de diferentes igrejas para pensar sociedade e justiça socioambiental. “A gente olha a partir do prisma do próprio Jesus de Nazaré, quando ele fala de equidade e não fala de igualdade, né? Quando ele diz que se fulano tem mais necessidade, ele tem que ter mais acesso. Se beltrano tem menos necessidade do que fulano, ele vai ter menos acesso, porque tem que ser o suficiente. Não pode sobrar na mesa de ninguém, porque quando sobra na mesa de alguém é porque faltou na do outro”, pontua Kaeté.

Com experiências que não os contemplava em igrejas, o designer gráfico Thiago Ferreira e a estudante de Serviço Social Dalethe Melissa, encontraram no grupo uma nova forma de olhar o mundo e o evangelho. Ambos cresceram em um contexto conservador que já não fazia sentido para o que acreditavam enquanto jovens politizados.

Melissa conheceu o Nós na Criação em 2021 na busca de uma nova narrativa que contemplasse o evangelho e que olhasse para as questões sociais. “Eujá estava me aproximando também da pauta socioambiental. Ter encontrado um espaço que dialogasse sobre como que a gente se relaciona na natureza, sobre perspectiva indígena, perspectiva ecoteológica, sobre decolonialidade. Foi me encontrar”, aponta.

Thiago conta que passou por diferentes cenários evangélicos, mas não se encontrou em nenhum deles. Chegou a montar uma igreja com amigos no Curado que promovia estudos bíblicos para o público em geral, inclusive não evangélicos. Foi nesta época que conheceu o pastor Josias e a sua companheira, Jéssica. Iniciou na escola de Fé e Política e seguiu para o Nós na Criação.

Ele conta que foi o encontro com esses grupos que percebeu que a relação com os pastores e igreja poderia ser diferente: “foi a primeira vez que eu tive uma relação de amizade, de igualdade com um pastor. O pastor sempre estava no lugar acima de nós, o anjo da igreja. E essa foi a primeira vez que eu vi que ele era um ser humano normal, que tem defeitos igual a mim, que tem estudos igual a mim, e que era um pastoreio mútuo. Eu também ajudava, ele me ajudava. Então eu percebi que ele não é um anjo, é uma pessoa normal. E infelizmente acontece muito nas igrejas esse endeusamento com as lideranças pastorais e espirituais”.

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