Ainda está escuro quando Aline Gomes, 24, sai de casa, no Parque Jurema, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Às 4h40, ela começa uma jornada que só termina à noite: o primeiro destino é a região da Água Branca, na zona oeste da capital, onde faz estágio. Em pelo menos dois dias da semana, depois do expediente, segue para a faculdade de Cinema, na Mooca, na zona leste.
Aline é uma das 228 mil moradoras da Grande São Paulo que levam mais de 2h para chegar ao trabalho, segundo dados do Censo de 2022, computados pela Agência Mural. Se considerar quem gasta de 1h a 2h no deslocamento, o número salta para quase 2 milhões de pessoas.
Para o próximo governo, espero um transporte de qualidade, que atenda de fato à população de Guarulhos e ajude a reduzir os trajetos, que hoje levam horas, para um tempo mais confortável, reivindica a estudante.
A Linha 341, que liga o bairro Vila Any a São Paulo, é uma das poucas que ainda não tiveram a frota renovada com ônibus mais modernos @Gabrielly Souza/Agência Mural
Não à toa, debates e promessas sobre melhorias no transporte público ganham espaço no período de eleições, em especial entre os candidatos ao governo de São Paulo, responsáveis por administrar o transporte sobre trilhos da capital paulista e da Região Metropolitana.
Mais da metade dos moradores de São Paulo (52,8%) se diz insatisfeita com o tempo de espera para chegada de ônibus, trens e metrôs, enquanto 64% reclamam do valor das tarifas, segundo a Pesquisa de Qualidade do Serviço Público, publicada em 2023 pelo instituto Agenda Pública.
Custo alto
Uma das alternativas de transporte para Aline chegar ao estágio é pegar o ônibus 849, em Guarulhos, até a linha Linha 12-Safira da CPTM, com tarifa de R$ 6,35. De lá, ela baldeia para a Linha 3-Vermelha do Metrô, para seguir o trajeto.
O problema está no bolso: a integração gratuita entre CPTM e Metrô funciona apenas de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h e das 20h até o término da operação comercial. Como Aline chega mais cedo, seria obrigada a pagar duas passagens.
Por isso, sua primeira opção é a linha 520, que liga o Jardim Angélica, em Guarulhos, ao Metrô Armênia, com tarifa de R$ 9,35 mais integração de R$ 1,50, segundo o painel tarifário do Metrô.
A linha 520 é uma das opções de ônibus que Aline pode utilizar para ir de Guarulhos a São Paulo, o coletivo passa próximo da casa dela e facilita o deslocamento @Gabrielly Souza/Agência Mural
No início de 2025, as tarifas das linhas intermunicipais da Grande São Paulo foram reajustadas em média 4,65% em relação aos valores anteriores.
Apesar de aparecer como uma prioridade nas promessas de diferentes candidatos, a integração no transporte público depende da articulação entre diferentes níveis de governo e ainda são poucas as propostas concretas sobre como viabilizá-la.
Outro desafio enfrentado pela estudante e por grande parte dos usuários do transporte público na Região Metropolitana de São Paulo é a lotação dos ônibus e o intervalo entre um veículo e outro.
Mesmo saindo de madrugada, ela encontra ônibus cheios – e mais de uma vez precisou fazer parte do trajeto a pé para não perder o horário. Os intervalos entre os ônibus podem chegar a 1h. Com menos veículos circulando, diz a estudante, os passageiros se acumulam e os ônibus saem lotados desde os primeiros pontos.
Em debates, entrevistas e sabatinas, os candidatos ao governo paulista concentram suas falas em integração tarifária, expansão da rede, concessões e transporte sobre trilhos, sem detalhar temas como lotação, idade da frota, ar-condicionado, acessibilidade, segurança e fiscalização da qualidade do serviço.
Muitas promessas
Integração tarifária, expansão da rede, concessões e gestão dos sistemas metropolitanos são os assuntos mais citados sobre transporte nos planos de governo dos principais candidatos ao governo paulista. Faltam, porém, informações concretas sobre como implantar os projetos.
Em suas promessas para um eventual segundo mandato, o candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos) prevê a expansão das linhas de metrô e trens metropolitanos, incluindo as linhas 19-Celeste, 20-Rosa e 22-Marrom e o Trem Intercidades.
O governo também promete maior integração entre metrô, CPTM e ônibus metropolitanos, sem especificar as ações para efetivar a promessa.
Propõe, ainda, a criação da Autoridade Pública de Transporte Metropolitano, uma autarquia responsável por organizar os diferentes modais de transporte público. A promessa chega depois de o governo autorizar a liquidação da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo), em fevereiro de 2025, e transferir as atividades de fiscalização e regulação do transporte para a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo).
Você acha justo quem mora longe e precisa tomar três conduções ter que pagar pelas três?”, questionou Haddad a Tarcísio na última terça-feira (29), no debate da Rede Globo.
Não, por isso estamos estudando essa questão”, respondeu o governador. Primeiro tem que pensar na governança metropolitana e a partir daí definir qual o sistema de pagamento que acople vários modais e por fim a política tarifária metropolitana, porque cada transferência tem um custo”, respondeu.
Parte dos ônibus intermunicipais que conectam Guarulhos a São Paulo tem como destino a Estação Armênia, da Linha 1-Azul do Metrô @Gabrielly Souza/Agência Mural
Do outro lado, o candidato Fernando Haddad (PT) propõe criar um Bilhete Único Metropolitano, para integrar todo o transporte público entre a capital e municípios da Região Metropolitana. Hoje, o Bilhete Único é aceito apenas nos ônibus municipais de São Paulo e nos trens e metrôs da Região Metropolitana.
Haddad defende que a integração pode beneficiar especialmente os trabalhadores de baixa renda e pessoas submetidas a deslocamentos diários mais longos. Ele também promete a conclusão de obras em andamento e novas expansões da rede, sem especificar quais, além da revisão de contratos de concessão de trens e balsas para a iniciativa privada.
Outros candidatos ao governo de São Paulo também apresentam propostas relacionadas à integração do transporte. Vivian Mendes (UP), por exemplo, defende ampliar a integração entre diferentes modais e reduzir gradualmente as tarifas.
Carlos Machado (PCB) quer criar um sistema integrado de logística estadual, enquanto Vera Lúcia (PSTU) defende a retomada do controle público do Metrô e da CPTM, além da tarifa zero. Já Izadora Dias (PCO) apresenta propostas pontuais, como o passe livre para desempregados e trabalhadores informais.
Poucas entregas, muitas privatizações
Durante a gestão Tarcísio, diferentes projetos de expansão da rede de transporte sobre trilhos avançaram para etapas de contratação, obras ou execução. Entre eles estão a extensão da Linha 4-Amarela até Taboão da Serra, as ampliações das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade e o Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas.
Eram obras que estavam inacabadas pela corrupção, mas conseguimos avançar”, pontuou o governador e candidato do Republicanos à reeleição, durante debate da Rede Globo.
As entregas efetivas, porém, foram poucas. Você entregou menos de 12 quilômetros [de metrô], apenas nas Linha 6 e Linha 17. Essas obras vão continuar porque o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal] foi recuperado. Ele tinha sido descontinuado no governo do Bolsonaro’, pontuou Haddad no debate.
Os cronogramas para expansão das linhas são de longa data. A extensão da Linha 4-Amarela até Taboão da Serra, por exemplo, tem prazo contratual de 60 meses. Já a Linha 17-Ouro começou a ser construída em 2012 e teve os primeiros trechos entregues apenas em março de 2026. Não há previsão para conclusão do restante da linha, que deve chegar a Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.
No mesmo período, linhas que integravam a rede da CPTM passaram por concessões à iniciativa privada. A Linha 7-Rubi foi incluída na concessão do Trem Intercidades, do Consórcio TIC. Já as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram incluídas no Lote Alto Tietê, concedido por 25 anos à Trívia Trens, do Grupo Comporte, no modelo de PPP (Parceria Público-Privada).
Você fez uma coisa imperdoável que foram as privatizações. Entregou a CPTM para gente que não entende de trem, que está explodindo os trens. Você está onerando os cofres públicos com indenizações para empresários amigos. Nem o Tribunal de Contas do Município entende o que você está fazendo. Vamos parar esse processo de privatização desenfreada que você começou, acusou Haddad durante o debate da Rede Globo na última quarta-feira.
Após a privatização, foram registrados ao menos dois acidentes graves e de grande repercussão nos trens da CPTM. O primeiro, em 23 de julho, foi o incêndio em um vagão da Linha 12-Safira, entre as estações Brás e Tatuapé, no terceiro dia de operação da concessionária Trivia Trens. O fogo paralisou as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade e obrigou passageiros a caminharem pelos trilhos.
Menos de dois meses depois, em 12 de setembro, uma descarga atmosférica provocou um incêndio em uma subestação da CPTM na Rua Bresser, voltando a afetar a circulação das Linhas 11 e 12.
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