A fachada do teatro municipal de Poá, na Grande São Paulo, segue com um nome no alto da parede: Ivan Hua Chuen. O restante, de uma cor: azul. O nome é o apelido de Ivan Magalhães, 48, artista visual, muralista e professor de arte do município, e vem da escola de arte marcial que ele pratica.

Quem não conhece o trabalho de Ivan, pode achar que o nome na parede é a assinatura de quem pintou ela em tom monocromático, mas é na verdade um resquício do apagamento que, segundo o artista, a prefeitura tem feito com o seu trabalho.

Entre os anos 2020 e 2025, ele ganhou editais pela prefeitura de Poá, com repasse do governo federal. Após desenvolver as artes, repentinamente, a pintura é apagada, sempre no tom de azul claro, tradicional cor da cidade, que remonta ao título de Estância Hidromineral.

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O artista visual contava com trabalhos nos muros do Teatro Municipal Turíbio Ruiz, na região central da cidade, no Parque da Juventude, localizado no bairro Jardim Alvorada, e abaixo do viaduto, também na região central. Todos foram removidos para serem pintados de azul, sem aviso prévio, entre 2025 e julho de 2026, mês do último apagamento no teatro.

Além disso, também foi homenageado no município por conta da arte. Na gestão da Márcia Bin (PSDB), ganhou uma moção de aplauso na Câmara dos Vereadores pela produção feita em torno do Teatro Municipal Turíbio Ruiz.

Um universo de cores e diversidade

Ivan pinta na cidade de Poá desde 2005, e iniciou com uma série de personagens coloridos, futuristas, chamado Puff Bubbles Universe, um universo de bolhas fofas, em português, que fazia muito sucesso com as crianças.

Essa cidade sempre teve as minhas pinturas embaixo do viaduto. Acho que, nos últimos anos, é a primeira vez que não tem mais, comenta o artista, sobre a sua trajetória de cores pela cidade.

Grafite no Teatro Municipal De Poá, apagado pela prefeitura em julho deste ano @Arquivo pessoal/Divulgação

Mas cada espaço tem uma proposta diferente. Na pintura do Teatro, feita em 2021, com apoio da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura) do ano anterior, optou por representar Dionísio, o Deus grego em uma estética futurista, bebendo vinho, dialogando com a história da arte teatral, com imagens que remontam a Grécia antiga, e uma ampulheta representando Cronos, o senhor do tempo na mitologia grega. Foi apagada em julho deste ano.

Atualmente, o Teatro se encontra fechado para reformas. Documentos obtidos pela Agência Mural também informam que a empresa contratada para a reforma previa a remoção da pintura.

No Parque, ele pintou uma mulher negra controlando as águas, devido a Poá ser uma estância hidromineral, ao lado de uma pantera negra, símbolo do movimento antirracista. No muro ao lado, fez astronautas em cima de uma ave carregando bandeiras LGBTQIA+ e antirracista.

O trabalho tinha como o tema inclusão e diversidade, dentro do edital ‘Amigos da Arte’ e recebeu verba estadual para a realização. No entanto, ele foi apagado no ano passado. Na mesma fachada, é possível ver uma parede azul e figuras que representam o esporte, pois a praça fica próximo a uma quadra controlada pela prefeitura.

“Estava lá em Portugal pintando. Um amigo mandou no celular e falou: Olha o que os caras fizeram'”, relembra Ivan. “Irmão, nada novo sob o sol, velho. Isso já é muito antigo, respondeu.

Na gestão do prefeito Testinha (2009-2014) ele comenta que pleiteou a pintura do viaduto e, após ter conseguido, foi criticado por grupos religiosos devido aos traços da arte. Pintei um neném de três olhos com umas borboletas. Os caras foram e apagaram meu grafite, comenta Ivan sobre a primeira arte apagada.

Os grafites do artista têm traços futuristas e cores fortes. Com o apagamento das obras, ele alega perseguição à arte urbana @Arquivo pessoal/Divulgação

Em seguida, chegou a grafitar a filha, mas com traços futuristas, no viaduto central – este também apagado para reforma no viaduto.

Todas as ideias dos desenhos são previamente apresentadas nos editais, submetidos à aprovação da prefeitura, para, somente assim, serem liberadas para a pintura.

Um caso emblemático na trajetória de Ivan é a aprovação de uma arte no muro da ‘Casa das Máquinas’, próximo da estação de Poá. O artista escreveu o projeto no edital da lei emergencial Paulo Gustavo, em 2024. A execução, porém, ficou para o ano de 2025, já com uma nova gestão, que negou o muro público em questão. Diante da negativa, o artista procurou outros espaços geridos por coletivos culturais e pintou uma parede do Ponto de Cultura Fazer Acontecer.

Ivan questiona e acusa a prefeitura de perseguição à arte urbana. Eles têm como política e prioridade o apagamento da arte pública em Poá, critica, que também relembra como a pista de skate da cidade também foi pintada inteiramente de azul e teve os grafites apagados.

‘Você olha e vê que o cara realmente quer deixar a cidade toda azul. É uma higienização total’

A Agência Mural entrou em contato com a prefeitura de Poá, administrada pelo prefeito Saulo Souza (Progressistas), para entender se há alguma motivação para o apagamento dos grafites. Até o fechamento desta matéria, não obtivemos resposta.

Agência Mural

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