Giovane Vieira, 28, voltou de Montreal, no Canadá, com uma medalha de ouro na bagagem e um passo importante na caminhada rumo aos Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028. Atleta da equipe de Paracanoagem de São Bernardo do Campo, ele venceu a final do VL3 masculino nos 200 metros da Copa do Mundo. Débora Benevides, 30, também conquistou o bronze na competição, que ocorreu entre maio e julho deste ano.
Natural de Apucarana, no Paraná, Giovane conta que se tornou PCD (Pessoa com Deficiência) aos 11 anos de idade, quando perdeu a perna em um acidente envolvendo um trem, enquanto voltava para casa.
Certa vez eu e meus amigos estávamos retornando da escola, e meio que brincando perto da linha do trem, e lá tinha um trem parado. Sempre fui uma criança que gostava de desafios. E a gente teve a ideia de subir no trem, ficamos brincando, aí meus amigos desceram e eu, querendo ser o corajoso, fiquei um pouco mais, até que o trem começou a se mexer.
Giovane, atleta de Paracanoagem que conquistou medalha de ouro, no VL3 masculino nos 200 metros @Reprodução de redes sociais
O atleta conta que, na hora, os amigos disseram para ele pular, mas ele congelou, e o trem seguiu viagem. Fiquei pensando, como eu ia voltar para casa? Até onde esse trem ia? Tinha apenas 11 anos, e quando vi, o trem já tinha passado umas três cidades depois da minha, relata o medalhista.
Quando já estava aproximadamente 60 km de onde morava, ele conta que começou a tomar coragem e pulou, mas, do jeito que caiu, acabou caindo debaixo do trem, que foi quando perdeu a perna.
O médico que o atendeu à época explicou que o que aconteceu foi um milagre. O jovem só não morreu porque a roda do trem estava tão quente no momento em que decepou a perna, que a área da perna foi parcialmente cauterizada, diminuindo a perda de sangue, dando tempo o suficiente para que ele fosse encontrado e socorrido.
Após a repercussão do caso, Giovane e os irmãos foram levados pelo Conselho Tutelar para uma casa-lar, após concluir que a família não tinha condição de cuidar das crianças. Durante o período de 7 anos em que morou no local, o atleta conta que começou a aprender a conviver com a deficiência, e foi durante esse período que iniciou o contato com o esporte, após a insistência de uma professora.
‘Passei pela natação paralímpica, onde fiquei alguns anos, ganhei vários títulos. Mas comecei a querer desistir por falta de tempo. E acabei conhecendo a canoagem, esse ano fará 10 anos que estou no esporte’
Giovane, atleta de Paracanoagem
O primeiro bom resultado foi no campeonato Pan-Americano, no Equador, em 2018, e de lá para cá começou a fazer parte da Seleção Brasileira. Participou de várias competições e durante os Jogos de Tóquio conquistou a medalha de prata, onde, além de remar de canoa, também utilizou caiaque. Durante sua trajetória, o atleta coleciona premiações em competições em Jogos, Copas do Mundo, Pan-Americanos e Sul-Americanos.
O atleta conta que aprendeu a conviver com a deficiência no tempo em que viveu longe da família @Reprodução de redes sociais
Giovane treina todos os dias, de segunda a domingo, além de acompanhamento médico e outras atividades. O atleta diz que essa conquista o fez se aproximar cada vez mais dos Jogos de Los Angeles e diz que vai fazer de tudo para subir no pódio.
Débora Benevides, 30, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, é outra atleta de destaque que também é membro da equipe de São Bernardo do Campo e, desde 2014, da Seleção Brasileira. Ela conquistou o bronze na final do VL2 Feminino 200 metros, completando a prova.
Em contato com a paracanoagem desde os 15 anos, conta que, na cidade natal, ela praticava vários esportes, por ser difícil achar atleta paralímpico. Comecei no atletismo, até que conheci o meu primeiro técnico, Admir Arantes, e foi ele que me introduziu no esporte, diz. A minha primeira competição foi em 2012, eu tinha por volta dos 17 anos.
A atleta chegou em São Bernardo em 2018, depois de viver e treinar no Rio de Janeiro. Débora conta que, no começo, foi difícil se adaptar, pelo clima mais gelado da cidade. A atleta treina no período da manhã e, posteriormente, faz um treino de academia.
Débora foi medalhista de bronze em Montreal no VL2 feminino @Reprodução de redes sociais
Durante a competição de Montreal, Débora disse que não ficou nervosa, muito pelo contrário, foi uma sensação de estou aqui, então vamos competir. É super tranquilo porque, para mim, faz muito sentido, né? Penso assim: Você treinou para isso, então, é como se fosse mais um treino, a diferença é que você está ali competindo com grandes atletas dentro da água.
Sanderlei Borges, 34, técnico da Débora há quatro anos, trabalhou com a atleta como preparador físico durante três anos.
Ele explica que, nos treinamentos, é avaliado detalhadamente cada fase da remada para identificar pontos que necessitam de aprimoramento. A partir dessa análise, são aplicados exercícios educativos específicos para corrigir falhas técnicas e otimizar o desempenho. Também são avaliados os pontos fortes e as limitações de cada atleta, tanto nos aspectos técnicos quanto físicos, buscando um desenvolvimento completo dentro e fora da água.
O treinador disse ainda que um dos principais desafios é o planejamento adequado de toda a temporada de treinamentos, garantindo que a atleta alcance o melhor desempenho nos momentos mais importantes do calendário competitivo.
Atleta foi morar em São Bernardo para treinar na represa Billings @Reprodução de redes sociais
Agora, o foco é os Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028, e Débora demonstra confiança. No ranking mundial, ela ocupa a terceira posição. A minha preocupação, como a de muitos atletas, é se manter bem no ranking para conquistar uma vaga, diz.
São Bernardo tem se destacado na paracanoagem. No início de setembro deste ano, a equipe que representou a cidade conquistou o título inédito de campeã brasileira de clubes na paracanoagem no Campeonato Brasileiro de Canoagem Velocidade e Paracanoagem 2026, realizado em Lagoa Santa (MG). Foram seis medalhas, sendo 4 ouros e 2 bronzes.
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