Protagonista da chamada Lista de Epstein, citado ao menos 51 vezes sob diferentes grafias no sobrenome e apontado em documento do FBI como promotor dos castings (recrutamentos) de modelos para o financista americano e de festas, Paolo Zampolli foi anfitrião do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em 8 de junho de 2021, numa recepção em Washington. Junto com o presidenciável estava o ex-ministro das Comunicações, Fábio Faria. O empresário ítalo-americano, nomeado por Donald Trump em março de 2025 como Enviado Especial para Parcerias Globais do governo americano, foi denunciado recentemente pela brasileira Amanda Ungaro, com quem foi casado por 19 anos, como autor de uma série de crimes e violências sexuais por parte dele e de Jeffrey Epstein. A viagem dos políticos brasileiros foi financiada com dinheiro público.

RECEPÇÃO DO PARCEIRO DE EPSTEIN NÃO CONSTA DA PROGRAMAÇÃO OFICIAL

A ida de Flávio Bolsonaro representou um custo, somente em diárias, de R$ 13.096,16 ao contribuinte brasileiro. A justificativa oficial dada ao Senado foi participação na comitiva do ministro das Comunicações Fábio Faria, com o objetivo de verificar modelos de redes privativas de comunicação. A viagem ocorreu entre 6 e 11 de junho de 2021. A agenda do então ministro Fábio Faria indica compromissos em Washington entre os dias 7 e 9 e no dia 10, em Nova Iorque. Mas o evento com o ex-parceiro de Epstein não consta no programa oficial.

INVESTIGADO PELO FBI

A reunião do dia 8 que juntou Flávio Bolsonaro e Paolo Zampolli em plena pandemia e cuja foto de divulgação foi obtida pela Agência Sportlight em uma rede social de divulgação do evento, mostra os dois sem máscara e levou o nome de World Oceans Day at the Kennedy Center. Além de Fábio Faria, Zampolli e Flávio Bolsonaro, aparece ainda o brasileiro Fabrício Pereira. Apontado em reportagens da imprensa americana como uma espécie de “faz-tudo” de Paolo Zampolli e responsável pela operação de alugar um apartamento do empresário em Gramercy Park, coração de Manhattan, Nova Iorque, usado como Airbnb. Fabrício Pereira também trabalhou na agência de modelos de Zampolli. A reportagem tentou ouvir Fabrício Pereira, sem êxito. Em uma entrevista recente para o site The Real Deal, em 29 de junho, o “faz-tudo” de Zampolli repetiu resposta do amigo e disse que estava sob investigação do FBI e não poderia falar, de acordo com a reportagem do site americano.

ABUSO AOS 15 ANOS DE IDADE

Os relatos de Amanda Ungaro dão conta da modelo ter sofrido uma série de abusos por parte de Zampolli ao longo dos anos, segundo a brasileira.

 Eu testemunhei muitas coisas desde que eu era uma adolescente que se envolveu neste pesadelo. Tenho fotos para provar o abuso físico que experimentei nas mãos de Paolo. Eu tenho provas de que Paolo começou a tentar namorar comigo quando eu tinha 15 anos de idade, e é verdade que eu estava no avião de Jeffrey Epstein quando adolescente. Eu tinha apenas 16 anos na primeira vez em que fui colocada no avião dele, afirmou Amanda Ungaro, que, entre outras acusações, publicou a cópia de uma lista em voo que afirma ser do avião de Epstein onde consta o nome dela.

O NOME DE AMANDA UNGARO NA RELAÇÃO DE PASSAGEIROS DE EPSTEIN

É UMA DESSAS PUTAS BRASILEIRAS, RAÇA MALDITA”, DISSE ANFITRIÃO DE FLÁVIO BOLSONARO

Ao ser questionado sobre as declarações em entrevista recente para a RAI, canal de TV italiano, o anfitrião de Flávio Bolsonaro se referiu da seguinte forma em relação à mãe do filho dele: As mulheres brasileiras causam confusão com todo mundo, certo? Não é que essa foi a primeira. É uma dessas putas brasileiras, essa raça maldita de brasileiras, são todas iguais. Aquela vaca, estávamos juntos, trepava com ela, depois ela também ficou louca.

Os registros da Lista de Epstein demonstram que o então dono da ID Models atuava como uma espécie de fixer ou connector da estrutura.

A figura descrita em depoimentos como alguém que promovia conexões entre as modelos da agência, algumas menores de idade, e os poderosos do mundo inteiro.

PROXENETA

Em português, conforme os depoimentos, uma espécie de proxeneta. De acordo com o dicionário Aurélio, proxeneta quer dizer mediador entre os estrangeiros e os cidadãos ou pessoa que ganha dinheiro servindo de intermediário em casos amorosos.

Como anfitrião de festas onde os encontros ocorriam ou na função de apresentar o portfólio da própria agência para que Epstein consultasse.

Curiosamente, a foto junta Zampolli, que recrutava mulheres para Epstein, e Fábio Faria, que intermediava e recrutava contatos para Daniel Vorcaro, conforme revelado em reportagem de Breno Pires e João Baptista Jr na Revista Piauí de 5 de agosto.

A participação de Zampolli é detalhada em um documento do Federal Bureau of Investigation (FBI) de 26 de novembro de 2019.

Os manuscritos com os depoimentos que subsidiaram a peça do FBI constam nos arquivos do Departamento de Estado Americano e estão disponíveis no acervo que compõe a Lista de Epstein. Os nomes das vítimas não aparecem nos registros.

Epstein é descrito como alguém que frequentava a agência de Zampolli, participava dos castings (os recrutamentos) e avaliava os portfólios das modelos.

Em frases curtas, a vítima conta sobre a ida a uma boate com Zampolli e Epstein. E uma ida à casa na Rua 71 (Epstein morava em East 71st Street, rua no Upper East Side, um dos bairros mais tradicionais e elegantes de Manhattan, Nova Iorque).

“Ele (JE) folheou fotos de portfólios.” (JE: Jeffrey Epstein).

“JE olhou para a minha quando eu estava usando apenas partes de baixo (biquíni).

Posteriormente, após Epstein analisar e escolher a modelo no portfólio da agência de Zampolli, ocorreu um encontro entre ela e Epstein na casa do criminoso, onde foi vítima de abuso sexual por parte do financista.

Em outro documento do FBI, com data de 23 de abril de 2020, uma modelo, vítima de Epstein, e que assinou contrato com a agência de Zampolli aos 18 anos, descreve Paolo Zampolli assim:

Zampolli era desprezível. A palavra usada no depoimento é sleazy, que pode ter distintas traduções, entre elas, além de desprezível, sórdido, canalha.

A vítima conta que o empresário se relacionava com as modelos. Em determinado momento, obrigou-a a cortar o cabelo bem curto e depois a dispensou. Outros registros na lista corroboram um mesmo modus operandi da relação, relatando Epstein como alguém que frequentava a agência de Zampolli constantemente e tinha acesso aos portfólios das modelos.

EPSTEIN DIZIA QUE ZAMPOLLI “É ENCRENCA”

Em um e-mail do próprio Jeffrey Epstein, com data de 15 de fevereiro de 2011, o criminoso manda o interlocutor tomar cuidado com o empresário: Zampolli é encrenca.

Donald Trump é parte da cena desses anos, festas e relações e tinha sua própria agência, a Trump Model Management.

Foi nesse contexto que Zampolli é citado por ter apresentado uma modelo, Melania, a Trump. Melania é a atual primeira-dama dos Estados Unidos. No entanto, um dos documentos existentes na “Lista de Epstein”, cita o criminoso como o cupido. E Zampolli como parceiro de Epstein na empreitada de tentar comprar a Elite Models.

Apesar dos documentos encontrados nos arquivos que formam a Lista de Epstein não deixarem dúvidas quanto à proximidade e parceria entre Zampolli, Trump e Epstein, não há registros públicos de acusações formais na justiça contra o empresário, que não foi indiciado em momento algum como parte das acusações dos crimes cometidos por Epstein.

(Na foto acima: Donald Trump, Melania, Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell)

Vinte anos depois, nomeado por Donald Trump como executivo do Kennedy Center, em Washington, Zampolli segue como um promoter de festas e passou a usar o tradicional espaço da capital como cenário dos seus eventos.

É nesse palco e contexto que promove as festas da We Are the Ocean (WATO), uma ONG com alegado propósito de salvar os oceanos do mundo, prestigiada por Flávio Bolsonaro e Fábio Faria.

MILHÕES DE DÓLARES DESVIADOS

A WATO esteve envolvida em uma série de denúncias de desvio da verba que recebia da UNOPS (Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos), braço da ONU que financia projetos pelo mundo.

Em setembro de 2016, o escritório da UNOPS recebeu Paolo Zampolli para falar sobre o financiamento dos projetos da WATO. Atuando como embaixador da WATO e intermediário no encontro, Zampolli levou os ingleses David Kendrick e a filha deste, Daisy Kendrick, como representantes da WATO, que obteve financiamentos milionários para os projetos da entidade.

Em 2021, um relatório da própria ONU apontou indícios de irregularidades ou possíveis fraudes.

O relatório do Conselho de Administração das Nações Unidas (UNBOA) para o ano fiscal de 2021 também apontou problemas relacionados à organização We are the Oceans (WATO) em suas principais conclusões. Isso incluiu o seguinte comentário sobre a WATO: O UNOPS assinou um acordo de US$ 5 milhões com a WATO em 2017 e outro acordo de US$ 2 milhões em 2018 com uma entidade renomeada da WATO. O Conselho observou que, na parceria com a WATO e a Oceans Generation, as práticas do UNOPS em relação à iniciação de projetos, pagamentos antecipados, reivindicações de fundos não utilizados e execução de projetos, bem como as medidas corretivas tomadas pelo UNOPS, não estavam em conformidade com as regras e regulamentos do UNOPS.

Embora não haja registro de contestação pública, o caso foi posteriormente arquivado na ONU.

Nas diversas denúncias sobre o caso, Paolo Zampolli alega que atuou apenas como intermediário entre WATO e ONU e sem remuneração.

O embaixador de Trump segue promovendo a WATO, mas afirma que a entidade que promove é outra em relação à entidade anteriormente investigada por suspeitas de fraude.

Mukesh Kapila, alto funcionário da ONU na ocasião, foi o primeiro a denunciar a fraude. Posteriormente, Kapila afirmou que teria sido alvo de tentativa de intimidação quando Zampolli soube que ele estava apurando os desvios da ONG.

Anteriormente, Zampolli também representou uma ONG ligada à preservação dos oceanos, a Terramar Project.

A entidade foi fundada por Ghislaine Maxwell, condenada por crimes relacionados à rede de exploração sexual associada a Epstein.

OUTRO LADO:

PAOLO ZAMPOLLI:

Em resposta por e-mail, o executivo do governo Trump afirmou que Amanda é a mãe biológica do meu filho; nunca fomos casados. Desejo-lhe tudo de bom em seus projetos e atividades futuras. Não estamos juntos desde 2017. De qualquer forma, em relação ao arquivo de Jeffrey Epstein, meu nome consta lá, assim como o de muitos outros não há nada mais a acrescentar.

FLÁVIO BOLSONARO:

A reportagem enviou uma série de perguntas para Flávio Bolsonaro por meio da assessoria de imprensa do senador, sem resposta.

FÁBIO FARIA:

A reportagem tentou contato com o ex-ministro, sem êxito.

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Sportlight - FLÁVIO BOLSONARO E O INTERMEDIÁRIO DE EPSTEIN