A falta de políticas públicas e as dificuldades de diálogo com o poder público estão entre os principais desafios enfrentados pelas rodas e comunidades de samba de São Paulo. Ao mesmo tempo, esses eventos movimentam cerca de R$ 2,7 milhões, considerando uma única edição de cada roda espalhada pela cidade.
É o que aponta a pesquisa Comunidades e Rodas de Samba da Cidade de São Paulo, realizada pelo Observatório Ibira30 e pelo Bloco do Beco, organizações do Jardim São Luís, em parceria com a FespSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Entre novembro de 2025 e junho de 2026, o levantamento percorreu 56 rodas e comunidades de samba nas cinco regiões da capital e ouviu 1.267 pessoas, entre frequentadores, músicos e organizadores.
Entre os grupos pesquisados estão Bate Fundo, Samba da Vela, Pagode da 27, Comunidade do Samba da Santa Cecília, Samba do Bixiga e Samba do Chinelo.
Desafios
Entre os 41 organizadores ouvidos na pesquisa, 57,5% avaliam o diálogo com o poder público como ruim ou inexistente. Outros 32,5% consideram a relação regular, enquanto apenas 10% classificam o contato como bom ou ótimo.
As dificuldades também aparecem nos custos para manter as atividades. A falta de recursos financeiros foi apontada por 75% dos organizadores, enquanto 72,5% citaram a ausência de políticas públicas como um dos principais obstáculos.
Os fomentos, os editais e as políticas de incentivo muitas vezes não chegam, de fato, às rodas de samba. Quando perguntamos quais eram as principais dificuldades para acessar esses editais, a primeira resposta foi a burocracia, afirma Alexandre Marques, 24, um dos pesquisadores do levantamento.
Alexandre Marques, 24, atua na Coordenação de Campo e Relatório do Observatório Ibira30 @ Daniel Santana/Agência Mural
Os dados mostram que, embora existam mecanismos de fomento ao samba, ainda há dificuldades para que esses recursos se traduzam em condições concretas de continuidade nos territórios.
Para Alexandre, que também atua na Coordenação de Campo e Relatório do Observatório, é fundamental que comunidades, organizadores e representantes das rodas tenham acesso ao debate público, seja por meio de fóruns ou de espaços de participação.
É preciso que o poder público entenda o que falta para que esses editais realmente cheguem. E, por outro lado, as rodas também precisam ter mais conhecimento sobre esses editais, sobre esses espaços.
Movimentação financeira
A pesquisa também mostra o impacto econômico produzido pelas rodas e comunidades de samba. A estimativa é de um público médio de 450 pessoas por evento.
Considerando as 56 iniciativas pesquisadas e um gasto médio de R$ 108,30 por frequentador, entre transporte e lazer, a circulação financeira estimada chega a R$ 2.729.160, considerando uma edição de cada iniciativa, ou cerca de R$ 48,7 mil por evento. Levando em conta que é possível que haja outras iniciativas, o valor tende a ser maior.
O levantamento aponta ainda que, para cada R$ 1 investido na realização dos eventos, aproximadamente R$ 10 são movimentados pelos gastos do público. Esse dinheiro circula por setores como cultura, alimentação, transporte, comércio e serviços.
O samba ainda é muito visto somente como música, entretenimento. Logo, muita gente acaba esquecendo das outras partes, que envolvem a economia criativa que é fomentada através dos eventos, dos produtores que trabalham ali, os comércios locais que também se beneficiam das rodas de samba, destaca Alexandre.
Ancestralidade e raízes são destaques nos números da pesquisa @Daniel Santana/Agência Mural
Apesar da movimentação, os dados também revelam os limites dessa cadeia econômica para quem trabalha diretamente com o samba.
A atuação nas rodas ainda não representa a principal fonte de sustento para 68% dos profissionais ouvidos. Entre os músicos entrevistados, 43% realizam mais de uma apresentação por semana.
Ancestralidade e pertencimento
A pesquisa também evidencia o papel das rodas de samba na preservação da ancestralidade e da memória negra em São Paulo.
Entre os entrevistados, 72,8% se identificam como pessoas pretas (44,2%) ou pardas (28,6%). A representação é maior nas zonas sul (80%), leste (73,2%) e norte (71%), enquanto o centro (63%) e a zona oeste (61%) apresentam os menores percentuais.
Alexandre destaca que, mesmo nessas regiões, os dados apontam que as rodas e comunidades funcionam como espaços de circulação e sociabilidade negra em diferentes partes da cidade.
Falar sobre a importância do samba na cidade de São Paulo é também resgatar uma memória. Faz parte de um registro de uma memória que tenta ser apagada e invisibilizada, mas que resiste através das rodas de samba, complementa.
Luiz Cláudio de Souza, 51, um dos fundadores do Bloco do Beco na apresentação dos dados @Daniel Santana/Agência Mural
A relação com a ancestralidade aparece também na percepção dos próprios frequentadores. Entre os entrevistados, 91,7% associam o samba à valorização da cultura afro-brasileira, 91,1% à ancestralidade e 91% à identidade e ao pertencimento.
‘Ver o que o samba é percebido pelos próprios frequentadores, pelos próprios músicos, como um espaço de ancestralidade, de comunhão, de celebração, assim, é muito simbólico‘
Para Alexandre, o desafio passa pelo reconhecimento dessas iniciativas como parte da dinâmica dos territórios e pela aproximação entre as comunidades e o poder público. A participação desses grupos no debate político, segundo ele, é fundamental para que suas necessidades sejam consideradas na construção de políticas culturais.
Ele conclui afirmando que a cultura ainda recebe pouca visibilidade na elaboração de planos de governo e muitas vezes acaba deixada em segundo plano.
Sinto que o poder público ainda está muito alheio às reivindicações das comunidades e rodas de samba de São Paulo. O principal desafio é realmente unir essas duas forças.
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