Nestes tempos de velocidade e de acúmulo de carros nas ruas, abri a janela de casa e observei um estranho silêncio no centro de Salvador. Eu nunca havia visto algo assim. O vento parecia ter sumido junto com as pessoas. No canto de uma praça que não existe mais, a árvore que costuma dançar majestosa estava imóvel. Dentro dela, entre seus galhos cheios de folhas, vi pássaros inquietos. O que isso queria dizer? De repente, o vento apareceu e se espalhou. Soprou com muita força. Como alguém perdido, levantou poeira, revirou lixo e empurrou folhas. Em casa, estou sempre ouvindo música. Mas, diante da janela, minhas pálpebras se abriram ao máximo quando soaram estes versos na caixa de som: Sou a chuva que lança a areia do Saara / Sobre os automóveis de Roma.
Com muita fúria, a chuva grossa caiu e revelou a mesma paisagem sob um aspecto diferente. Agora um som aquoso corria pelas ruas inundadas e se sobrepunha ao silêncio. As fachadas dos prédios ficaram cada vez mais escuras e saturadas. Teimoso diante da janela, fui atingido também pela chuva, senti meu cabelo crespo molhado, certamente com gotículas cintilantes. O frio no meu rosto desceu para o peito por causa da camisa encharcada. Então me dei conta de que estava vestindo minha velha e confortável camisa que um dia foi branca, cuja estampa mostra o excêntrico protagonista do livro Uma Confraria de Tolos, de John Kennedy Toole.
Resolvi fechar a janela e busquei uma toalha para me enxugar. Enquanto trocava de blusa, lembrei da notícia que li faz pouco tempo: a história do peixe-leão capturado por pescadores no Porto da Barra. Apesar do nome majestoso, a espécie é de pequeno porte, o que não significa que não possa agir como um predador vigoroso. Vejo o bicho erguido na mão bronzeada do pescador, suas longas nadadeiras em forma de leque e sua coloração listrada em tons de vermelho, marrom, branco e preto. Assim, parece inofensivo. Então o jornal avisa que não devemos tocar diretamente no peixe, pois seus espinhos continuam venenosos mesmo após a sua morte. Também dizem que o peixe-leão não costuma atacar pessoas. Por fim, fico sabendo: o tal peixe venenoso é originário do oceano Indo-Pacífico e vem aparecendo na Bahia desde o ano passado. É, como sentencia o jornal, uma espécie exótica e invasora, que ameaça a nossa biodiversidade.
Depois que troquei a camisa molhada por uma limpa e seca, veio uma sensação gostosa de conforto e tranquilidade. A Capital da Alegria estava educadamente silenciosa, em estado de espera. A chuva provocou em mim um sentimento de introspecção. No conforto térmico de minha casa, me senti protegido dos perigos e dos barulhos do mundo. Quero ficar assim, sossegado, bebericando uma xícara fumegante de café enquanto leio um bom livro. Por curiosidade, alterno o olhar para a chuva agora fina que cai sobre este dia.
Tudo muda tão rápido. Tudo parece tão calmo. Nem parece que um Super El Niño se aproxima com seu efeito devastador sobre todos nós.
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