Quando urbanizaram a Avenida Hebe Camargo [em 2010], a gente ficou muito feliz, porque a perspectiva era chegar o Metrô aqui em Paraisópolis, mas não temos nenhuma notícia até agora, desabafa a zeladora Rosemeire dos Santos, 55, que há 40 mora na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.
Ela sai de casa às 5h da manhã para chegar às 7h no condomínio onde trabalha, no bairro da Saúde, também na zona sul. Só para ir à estação mais próxima, Faria Lima, a Linha 4 – Amarela, gasta 1h.
Isso porque, sem opção de transporte por trilhos, o trânsito de veículos é muito intenso – inclusive na Avenida Hebe Camargo, principal via da região, onde estava prevista a estação de Paraisópolis.
Paraisópolis foi construída onde antes era a Fazenda Morumbi @Léu Britto/Agência Mural
Rose é um dos mais de 58 mil habitantes da favela mais populosa de São Paulo, que há 12 anos aguardam a chegada do monotrilho. O projeto faz parte da Linha 17-Ouro, prometida para ser entregue na Copa de 2014. As obras da Estação Paraisópolis, no entanto, ainda não começaram.
Em março deste ano, um trecho com sete estações da linha, que liga o Aeroporto de Congonhas à estação de trem Morumbi, foi inaugurado. A oitava, Washington Luis, está prevista para começar a operar em outubro, segundo o G1. O projeto completo da linha terá 17,9 quilômetros e vai ligar os distritos do Morumbi, na zona sul, ao Jabaquara, também na zona sul.
Na prática, após 12 anos de atraso, nem metade das 18 estações da Linha Ouro previstas foram inauguradas, como a de Paraisópolis. Eu não tenho esperança que vai ter o Metrô. Eu ouvi esse boato, mas não confio. Vamos esperar, né?, lamenta Rosemeire.
Mas vai ter metrô ou não?
A resposta é sim, segundo a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, a CPTM, responsável pela obra. Em nota, enviada via LAI (Lei de Acesso à Informação), o órgão afirmou que a implantação da Linha 17-Ouro foi planejada em três trechos.
As sete linhas já entregues fazem parte do trecho 1, que foram priorizadas pela Companhia. Essas estações estariam no meio do caminho, ligando os trechos 2 – em que estaria Paraisópolis – e 3. O trecho entregue custou R$5,8 bilhões, quase o dobro do previsto para toda a linha no primeiro projeto, de 2010, que estimava um investimento de R$3,1 bilhões.
O trecho 1 demandou a concentração dos esforços de projeto, contratação e implantação, especialmente diante das dificuldades técnicas, contratuais e operacionais enfrentadas ao longo do empreendimento, informou a CPTM, em nota. No entanto, não deu detalhes sobre os entraves no processo.
Com a conclusão e entrega do trecho 1 em 2026, a CPTM afirmou que dará continuidade às etapas necessárias para implantação das demais fases. Contudo, sem previsão para o início das obras da Estação Paraisópolis.
O empreendimento encontra-se atualmente em fase de contratação dos serviços de adequação e desenvolvimento do projeto básico, etapa necessária para subsidiar a futura contratação das obras e a definição das soluções de engenharia aplicáveis ao trecho e às respectivas estações, completa a CPTM.
Para Gariba Lima, 39, urbanista social e morador de Paraisópolis, o atraso na construção está relacionado à dimensão do projeto, que depende de planejamento, recursos, licenciamento, decisões técnicas e articulação entre diferentes órgãos públicos. Interferências políticas e trocas de gestão também alteram as prioridades.
Legenda: Avenida Hebe Camargo, onde será implantado o monotrilho GoogleMaps
Com novos investimentos e recursos previstos para [o projeto Nova] Paraisópolis, existe a oportunidade de retomar essa discussão de maneira mais integrada, considerando não apenas o transporte sobre trilhos, mas toda a infraestrutura urbana necessária para o território”, diz Gariba.
O projeto Nova Paraisópolis é um programa da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento que prevê obras de infraestrutura urbana, habitação e equipamentos públicos. Ela integra o Programa de Investimentos da Operação Urbana Consorciada Faria Lima (OUCFL) com valor estimado de R$2,33 bilhões.
Movimentos de articulação social da região tentam pressionar e dialogar com os governos municipal e estadual. Um deles é o Fórum Multientidades de Paraisópolis, um coletivo que atua há décadas na favela.
Nos últimos meses, o grupo têm discutido com a prefeitura de São Paulo sobre uma proposta mais ampla para o Complexo Paraisópolis, envolvendo recursos da OUCFL. Esse recurso é uma parceria entre a Prefeitura de São Paulo e a iniciativa privada para financiar melhorias de infraestrutura e urbanismo na região da Avenida Faria Lima e arredores.
O monotrilho é uma parte dos desafios de mobilidade urbana na favela, segundo o urbanista social de Paraisópolis arquivo pessoal
Integrante também da Cooperativa Arqcoop+, que trabalha de forma coletiva com projetos, obras e melhorias junto a favelas e periferias, Gariba aponta o transporte público como uma questão central nas discussões sobre acesso à cidade e a direitos.
“Uma conexão de alta capacidade [como o monotrilho] pode ampliar o acesso dos moradores ao emprego, à educação, à saúde, à cultura e aos equipamentos públicos espalhados pela cidade. Também pode fortalecer o comércio local e gerar novas oportunidades econômicas”, defende o urbanista.
Guia de Sobrevivência: dicas de como chegar ao trabalho em dias de greves, chuvas ou falhas no transporte O Metrô é a solução para mobilidade em Paraisópolis?
Em 2010, o governo estadual e municipal de São Paulo, na época chefiado por José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD) respectivamente, anunciaram o convênio para construção da Linha-17 Ouro. Na época, Gariba fazia parte da diretoria da Associação de Moradores e do Comércio de Paraisópolis.
Lá, ele dialogava com representantes do poder público sobre benefícios e efeitos do transporte público na região, levando informações para a comunidade e levantando demandas.
Uma das preocupações, na época, eram as possíveis desapropriações, remoções e retirada das famílias de suas casas, o que ainda segue incerto. Para o urbanista social, é necessário enxergar a mobilidade por um aspecto amplo.
‘Discutir mobilidade em Paraisópolis nunca foi apenas discutir onde colocar uma estação. É preciso pensar no impacto do traçado sobre as pessoas, as moradias, o comércio e toda a dinâmica urbana do território’,
Gariba Lima, urbanista.
Em sua análise, há um desafio pouco discutido: a falta de transporte público dentro da favela. Há linhas de ônibus e vans que ligam Paraisópolis a outras regiões de São Paulo, mas a maioria trafega pelas extremidades do complexo, sem entrar em ruas e vielas.
As poucas que entram na comunidade sofrem constantes mudanças, deixando de atender determinadas ruas por diferentes dificuldades operacionais. A não resolução do problema dificulta o deslocamento da população, em especial idosos, crianças, pessoas com deficiência e gestantes.
Mas colocar ônibus grandes circulando por determinadas ruas pode aumentar conflitos. Por isso, um circuito com veículos menores, paradas estratégicas e conexão com os principais equipamentos públicos e com as linhas que fazem a ligação externa seriam boas alternativas”, sugere Gariba.
Para além dos desafios de garantir transporte público de qualidade, o urbanista defende que é importante reivindicar projetos adequados às necessidades e características do território.
Para nós, o mais importante é que a população esteja no centro dessas decisões. Não queremos apenas que uma obra chegue à comunidade. Queremos discutir qual cidade estamos construindo, para quem ela está sendo construída e como essa infraestrutura pode realmente melhorar a vida de quem mora aqui, completa.
Além da Linha 17-Ouro do monotrilho, outras linhas de trens e metrôs continuam em obras de implantação ou ampliação:
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- Linha 2-Verde, oito estações, da Vila Prudente a Penha e da Penha à Dutra com 5 estações;
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- Linha 15- Prata do Monotrilho, com 14 estações, ligando Estação Ipiranga à Jacú- Pessego;
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- Linha 6- Laranja, com 15 estações entre a São Joaquim (linha azul) e Morro Grande.
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- Linha 4-Amarela, expresso com duas estações que ligam Vila Sônia a Taboão da Serra
Fonte: Portal da Transparência – Relatório julho de 2026 e G1
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