Uma história que começou em uma praça de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, há cerca de 30 anos, agora atravessa o oceano. No último domingo, 6 de setembro, os artistas da Companhia do Escândalo embarcaram rumo à Polônia para apresentar o espetáculo Véi Mané (ou De Quando Abri os Olhos), no Dreams Republic, conferência e festival internacional de teatros socialmente engajados, em Lublin.

Criado, dirigido e protagonizado por Manoel Lucena Mesquita Júnior, 52, com participação musical do sanfoneiro Alê Alves, o espetáculo integra a programação do encontro, que reúne, entre 7 e 13 de setembro, artistas e representantes de iniciativas independentes de diferentes países para trocar experiências sobre teatro, comunidade e transformação social.

Para Manoel, ator, diretor, dramaturgo e gestor cultural, a viagem representa mais do que apresentar um espetáculo fora do país. Morador de Mogi há 37 anos, ele vê a participação como resultado de uma trajetória construída na cidade. A gente já batalhou muito, já sofreu bastante dentro dessa trajetória. É um reconhecimento, mas é um reconhecimento muito merecido, afirma.

Espetáculo mistura teatro, música e elementos da cultura popular brasileira @Gisele Lima/i.llumina

Manoel chegou a Mogi ainda adolescente. Nascido em Juazeiro do Norte, no Ceará, passou parte da infância na capital paulista antes de se mudar para a cidade. Foi em Mogi que, nos anos 1990, começou a construir a trajetória da Companhia do Escândalo.

O grupo surgiu em 1995, formado por jovens artistas amadores interessados em desenvolver trabalhos autorais. Os encontros começaram em uma praça da cidade, depois de uma movimentação cultural que incluía as Oficinas de Inverno promovidas pelo então Departamento de Cultura da cidade.

O nome também nasceu de uma vontade de provocar. Segundo Manoel, naquele momento Mogi era vista pelo grupo como uma cidade conservadora, e os artistas queriam escandalizar e mudar o status quo das coisas. A escolha acabou acompanhando a companhia pelas três décadas seguintes.

A aproximação que levou o grupo à Polônia também começou em Mogi. Em 2025, Lukasz Wójtowicz, representante da Fundação Teatro Wschodni, esteve na cidade durante o Festival Dezembro Independente, organizado pela Associação Poranduba. Foi apresentado ao Galpão Arthur Netto e começou a conhecer o trabalho desenvolvido pelos artistas locais. Eles fazem lá na Polônia e a gente faz aqui no Brasil. E a partir disso a gente começou a trocar ideia e ver que tinha muitas coisas parecidas, coisas importantes que eles faziam, a gente fazia também aqui, conta Manoel.

Foi a partir desse encontro que surgiu o convite para o Dreams Republic. De acordo com Manoel, a participação também representa um reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo Galpão e pela companhia. Eu senti como um reconhecimento, como uma reafirmação do espetáculo, mostrando que o espetáculo é importante, é potente, conta.

Apresentação de Véi Mané (ou De Quando Abri os Olhos), espetáculo que será levado pela Cia. do Escândalo à Polônia @Gisele Lima/i.llumina

Uma história nordestina que também é de Mogi

A montagem mistura teatro, música, memória e cultura popular brasileira. A história parte da trajetória da própria família do ator e, ao mesmo tempo, fala de uma experiência compartilhada por milhares de famílias brasileiras. É uma história muito comum no Brasil da década de 50, 60 e 70, explica Manoel.

O espetáculo conta a história de sua avó, Dona Iracema, uma mulher que deixou o Ceará e migrou para São Paulo com os filhos em busca de melhores condições de vida. O avô de Manoel não quis fazer a viagem e daí vem parte da inspiração para o título da peça.

A história familiar também encontra a história de Mogi. A cidade recebeu diferentes grupos de migrantes e imigrantes ao longo das décadas. Além da presença nordestina, Manoel lembra das famílias japonesas, libanesas e árabes que chegaram ao município e, mais recentemente, de comunidades de diferentes países asiáticos.

‘A gente tem muitas histórias. Acho que o espetáculo trata desse arquétipo também, dessas histórias de diáspora, de pessoas que se encontraram aqui tentando condições melhores’

Manoel Lucena Mesquita Júnior

É justamente essa conexão entre uma história particular e experiências coletivas que faz com que o espetáculo ultrapasse a trajetória da família de Manoel. A ida para a Europa acontece a partir de uma trajetória independente construída em Mogi.

Para Manoel, chegar a um festival internacional sendo um grupo que nasceu fora dos grandes centros culturais também revela as dificuldades enfrentadas por coletivos que produzem arte de forma independente. Eu acho que um grupo independente chegar a um festival como esse é uma prova de batalha, de possibilidade, explica.

Além do palco, a jornada exige uma logística cuidadosa e desperta sentimentos que unem a origem mogiana ao palco internacional. O sanfoneiro Alê Alves, 42, natural de Ubatuba e ex-morador da cidade, participou dos ensaios antes da viagem e acompanhou de perto os preparativos para a apresentação. Para ele, estar em outro país e encontrar um espaço com a mesma proposta comunitária vivenciada em Mogi tornou a experiência ainda mais especial.

Subimos para Mogi das Cruzes para ensaiar, preparando essa viagem e pensando em como transportar a sanfona na aeronave, pois é um instrumento caro, destaca.

Manoel e Alê Alves após apresentação de Véi Mané em Mogi a Cruzes @Arquivo pessoal/Divulgação

A experiência de vivenciar o teatro comunitário no exterior também surpreendeu o sanfoneiro: Tocar em Mogi e chegar aqui [na Europa], tão longe, encontrando um espaço muito semelhante, com o mesmo propósito e o mesmo acolhimento das pessoas, é impressionante. Mesmo sem dominar o inglês, as pessoas nos acolhem e acham formas de interagir pela música. Estou muito feliz em trazer essa cultura que mistura dança, poesia e arte, relata.

Manoel considera que a experiência pode servir como uma porta para outros artistas do Alto Tietê. A intenção, segundo ele, é aproveitar a viagem para fortalecer uma rede que permita que outros grupos também façam esse caminho.

A participação no Dreams Republic terá parte dos custos cobertos pela organização. A estadia e os deslocamentos relacionados ao encontro serão pagos, e o espetáculo também será remunerado durante a programação de 7 a 13 de setembro.

Além da apresentação desta sexta-feira (11), em Lublin, na Polônia, a companhia também se apresenta no dia 16, em Varsóvia, e no dia 18, na cidade de Pontedera, na Itália.

Em Mogi, duas apresentações de Véi Mané foram programadas no Galpão Arthur Netto, com entrada gratuita e contribuição espontânea. A arrecadação foi destinada às despesas da circulação na Europa.

A participação na Polônia pode ainda abrir a possibilidade de trazer para o Alto Tietê um encontro da nova associação internacional de teatro comunitário. Segundo Manoel, a ideia é que isso possa acontecer em 2027 ou 2028.

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