Há 18 anos, Fábio Alexandre Zacarias Carvalho, 49, escolheu o Conjunto José Bonifácio, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, como seu território de vida e trabalho. Instalado em uma Kombi adquirida com o próprio esforço, ele transformou o veículo em um abrigo fixo e base para o trabalho. Hoje, Fábio sobrevive da prestação de serviços diversos e da coleta seletiva.
A trajetória de Fábio se insere na realidade do José Bonifácio, distrito que abriga mais de 120 mil habitantes e onde a renda média dos chefes de família varia entre 1,5 e 2 salários mínimos, segundo dados do IBGE de 2022.
O dado ajuda a contextualizar as condições econômicas da região, onde parte dos moradores recorre ao trabalho informal.
Fábio Alexandre, 49, vive há 18 anos em uma Kombi no José Bonifácio por decisão pessoal e busca de autonomia @Anna Celli/Agência Mural
Segundo ele, a decisão de morar no veículo foi uma opção para buscar independência e trilhar o próprio caminho. Antes da Kombi, Fábio chegou a construir barracos na região, mas afirma que eles foram desmontados pela fiscalização urbana. O veículo passou a ser uma alternativa para permanecer no bairro e trabalhar.
“O trabalho aqui no bairro foi o que me deu estrutura de novo. Continuar trabalhando todo dia é o que me mantém de pé e me faz seguir em frente, mesmo nos dias mais difíceis. O José Bonifácio é minha casa, o lugar que me acolheu.”
Rotina e organização no trabalho
A rotina de Fábio é intensa e começa cedo. Ele se descreve como alguém que não gosta de ficar parado e diz encontrar trabalho diariamente. Os rendimentos vêm principalmente da retirada de objetos descartados pelos vizinhos, como entulho e madeira, que ele leva até pontos de descarte adequados, além da coleta específica de latinhas de alumínio.
‘Minha rotina é bem puxada, bem do jeito que eu gosto. Não paro, não gosto de ficar parado, senão eu endureço’
Fábio Alexandre
Diferentemente de outros catadores, Fábio optou por restringir sua atuação na reciclagem. Atualmente, ele foca apenas no alumínio, material que considera mais prático de armazenar e vender, evitando plásticos e outros resíduos que geram volume e sujeira. A organização do material também é uma forma, segundo ele, de manter o espaço da Kombi e a convivência com os moradores.
Aumento de imigrantes transforma escolas em espaço de acolhimento para pais e filhos na zona leste de SP Fábio conta que costuma sair cedo em busca de serviços e que também é procurado por moradores do bairro.
“Não fico esperando o trabalho vir até mim, vou atrás na rua, mas o pessoal do bairro já me conhece tanto que também me chama direto. Dentro da Kombi eu guardo minhas ferramentas e o alumínio bem ajeitado, não pode faltar organização.”
Redes de apoio e parcerias
A sobrevivência na rua conta também com uma rede de solidariedade construída com os moradores da Cohab 2. Por meio do diálogo e da confiança, Fábio consegue acesso a itens básicos, como água e o uso de banheiros nas casas mais próximas. Ele destaca que a boa relação com a vizinhança é o que garante seu “alicerce” no local.
“Depende da solidariedade dos moradores mais próximos. Conversando, a gente adquire. Parei aqui e tive auxílio, tive o que eu precisava, um alicerce para eu trabalhar.”
Essa relação de confiança é confirmada por moradores antigos da região. O motorista Antonio Alves, 58, conhecido no bairro como Bral e morador da Cohab há 48 anos, acompanha a trajetória de Fábio.
Veículo serve como dormitório e centro de triagem de materiais para o morador @Anna Celli/Agência Mural
“Ele sempre foi um cara bacana, amigão nosso. Já prestou muito serviço para mim e na casa da minha mãe. Sempre pede licença antes de entrar em casa, não olha para nada, só direto para o serviço que vai fazer. É isso que faz a gente confiar nele.”
Além dos serviços residenciais, Fábio também é requisitado por comerciantes do bairro para pequenas obras e reformas. Jonathan dos Santos, 52, conhecido como Alemão, dono de um comércio local onde Fábio realiza trabalhos de alvenaria e manutenção, destaca a postura do morador:
“O Fábio é um cara extremamente esforçado. Quando preciso de uma ajuda na estrutura do comércio, para quebrar uma parede, carregar entulho ou fazer um serviço de alvenaria mais pesado, chamo ele direto. Ele não tem preguiça, pega no pesado mesmo e entrega o serviço limpo. A presença dele no bairro é essencial, porque é uma pessoa de extrema confiança que todo mundo sabe que pode contar.”
Apesar do suporte local, a vida no asfalto não é isenta de desafios. Fábio relata que a falsidade de algumas pessoas e a falta de higiene ou educação de outros frequentadores da rua são os pontos mais difíceis de lidar. Ele afirma não receber benefícios de programas governamentais nem apoio de organizações sociais, dependendo exclusivamente do próprio trabalho para sobreviver.
Sem planos imediatos de deixar a Kombi, Fábio continua trabalhando pelas ruas do José Bonifácio. O veículo, que também serve de abrigo e depósito, tornou-se parte da paisagem do bairro e da rotina de moradores e comerciantes.
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