Dormir no chão por duas semanas, passar 18 horas em um aeroporto e perder 10 quilos em dois dias para entrar no ringue. Essas são algumas das histórias do lutador Cristiano Souza, 50, em 35 anos dedicados às artes marciais. Depois de dar aulas em quatro países e participar de duas temporadas da série DNA do Crime, da Netflix, foi no Itaim Paulista, leste de São Paulo, onde cresceu, que decidiu investir sua experiência, em um projeto de formação de jovens.

Hoje, ele mantém duas academias esportivas no distrito, que oferecem aulas de Jiu-Jitsu para 50 alunos de diferentes idades. Como ele não possuí patrocínios, os alunos pagam pelas aulas.

‘A luta é um lugar de disciplina e persistência. Pensando na periferia, isso é essencial para ajudar os jovens a não desistirem’

Cristiano, professor de Jiu-Jitsu

A trajetória dele nas artes marciais começou por causa de seu comportamento, digamos, um tanto briguento. Quando era adolescente, se metia em confusões na rua, na escola e em outros lugares por onde passava. A família decidiu matriculá-lo na capoeira, como forma de canalizar a energia. O plano deu certo.

Cristiano com os cinturões dos campeonatos Gold Talents BJJ @Thauane Blanche/Agência Mural

Foi ali que ele descobriu um novo mundo, que mudaria sua vida. Mais tarde conheceu o jiu-jitsu e percebeu que a base construída na capoeira fazia diferença dentro do tatame.

Vieram as viagens: Japão, China, Tailândia e Índia passaram a fazer parte da rotina até hoje, para competir e, principalmente, dar aulas e compartilhar o que havia aprendido nas artes marciais.

Mas a experiência internacional esteve longe de ser glamourosa. Em uma das viagens, Cristiano passou mais de 18 horas em um aeroporto sem conseguir se alimentar. Em outra, chegou ao destino e descobriu que as condições prometidas não existiam.

Olhava as fotos dos meus filhos e pensava que iria segurar a bronca por eles. Hoje eu tenho minha academia através do trabalho que fiz na Índia, conta Cristiano.

Da academia pra Netflix

Nem todas as oportunidades nasceram dentro dos tatames. Enquanto se recuperava de uma lesão no ombro, Cristiano recebeu um convite para enfrentar Jorge Batista, conhecido como Macaco, grande nome das artes marciais. Mas para isso, precisaria perder 10kg em dois dias.

Ele venceu a balança, mas perdeu o cinturão. A luta, no entanto, abriu outra porta: um árbitro que acompanhava a disputa o indicou para integrar o elenco da série DNA do Crime, da Netflix. Inspirada em crimes reais, a série acompanha agentes da Polícia Federal na investigação de um grande assalto na fronteira entre Brasil e Paraguai, em uma trama que mistura investigação, ação e crime organizado.

O lutador de Jiu-Jitsu se prepara para uma competição @Thauane Blanche/Agência Mural

O seriado estreou em 2023 e já conta com duas temporadas, disponíveis na Netflix. A segunda temporada chegou à plataforma em junho de 2025 e, no mês seguinte, a produção foi renovada para uma terceira temporada, ainda sem data de estreia anunciada. Cristiano participou das duas temporadas, interpretando um policial federal, em cenas ambientadas principalmente dentro da delegacia.

“Por não ser ator, meu maior desafio era decorar as falas, que, apesar de pequenas, exigiam interpretação. Em compensação, eu olhava para o lado e via pessoas com uma ‘bíblia’ inteira decorada”, relata sua experiência no set de gravação.

Mesmo sendo um universo completamente novo, ele afirma que a experiência permitiu conhecer os bastidores de uma grande produção e dividir o set com atores que já admirava e acompanhava, como Maeve Jinkings e Rômulo Braga.

Campeonato de luta na quebrada

Hoje, o sonho de Cristiano já não é lutar em outro país ou conquistar títulos. O objetivo é fazer com que mais crianças do Itaim Paulista encontrem nas artes marciais a mesma oportunidade que um dia encontrou na capoeira.

Por isso, busca apoio para ampliar o trabalho desenvolvido em suas duas academias e fortalecer iniciativas como o Gold Talents BJJ, campeonato organizado por ele que reúne atletas de diferentes idades e cidades do estado.

Para ele, a luta continua sendo muito mais do que um esporte. É uma ferramenta para ensinar disciplina, persistência e oferecer novos caminhos para quem cresce na periferia.

“Quando você pega a mão de uma criança pelo esporte, você troca muita coisa. Ela começa a ter uma referência, vê uma pessoa que admira e pensa: ‘quero ser igual a ela’. Isso muda muita coisa na vida da criança, seja na escola, em casa ou na rua. O esporte abre horizontes”.

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