A ginecologia natural é um movimento de resgate da autonomia do corpo das pessoas com útero. Enxergo muito como um movimento político e também espiritual, em que a gente aprende sobre o próprio corpo por meio dos saberes tradicionais, afirma Jéssica Caroline da Silva, 32, parteira, estudante de enfermagem e ativista indígena.
Filha de pai Kariri e mãe Guarani, Jéssica, também conhecida como Jera Jete, é moradora de Parelheiros, no extremo sul de São Paulo.
Para ela, os conhecimentos relacionados ao cuidado com o corpo foram construídos e transmitidos ao longo de gerações em aldeias e comunidades quilombolas e podem contribuir para ampliar a autonomia e o conhecimento sobre a saúde.
Jéssica recebe pessoas em casa para compartilhar conhecimentos sobre ginecologia natural e outros saberes tradicionais @Isabela Alves/Agência Mural
A ginecologia natural reúne práticas como o acompanhamento do ciclo menstrual, a observação dos sinais do próprio corpo, o conhecimento sobre a ovulação e o autoexame. Também envolve o uso tradicional de plantas, escolhido de acordo com os conhecimentos e os recursos disponíveis em cada território.
Entre as plantas utilizadas nessas práticas estão erva-baleeira, macaé, jatobá e colônia. Para diferentes momentos da vida, outros recursos também podem ser utilizados. Durante a menopausa, por exemplo, Jéssica cita o uso tradicional da folha de amora e da ora-pro-nóbis, plantas que podem ser encontradas em quintais de casas e hortas.
Para a ativista, compartilhar essas práticas também é uma forma de fortalecer e manter vivos os conhecimentos ancestrais. Em Parelheiros, ela recebe pessoas em sua casa para oferecer formações sobre doulagem, fitoterapia e ginecologia natural, além de compartilhar práticas de cuidado.
‘A ideia é partilhar através da oralidade mesmo. Esse conhecimento precisa estar nas rodas, nos encontros e nas vivências’
Jera Jete
Jéssica defende que falar sobre o próprio corpo a partir dos saberes tradicionais também pode ser uma ferramenta de autonomia, especialmente em territórios onde o acesso aos serviços de saúde é marcado por desigualdades.
As práticas, no entanto, não substituem o acompanhamento médico nem os tratamentos indicados pelos serviços de saúde. Para a ativista, a proposta é ampliar o conhecimento e valorizar saberes transmitidos entre gerações.
Autocuidado em meio à rotina
A ginecologia natural também propõe uma reflexão sobre hábitos e práticas de cuidado. Ela afirma que, esse processo pode levar a uma relação mais atenta com o corpo e com a própria história.
Quando a gente pensa em saúde, dentro da ginecologia natural, estamos falando de uma saúde integral. É mente, corpo e espírito, pois entendemos que é tudo uma coisa só. Falar de útero não é falar só de útero. Estamos falando de uma memória, de toda uma ancestralidade. Existe uma energia, uma herança cultural e espiritual, reflete.
O uso tradicional de plantas medicinais é uma das práticas utilizadas por Jéssica nos cuidados voltados a pessoas com útero @Isabela Alves/Agência Mural
Para mulheres que vivem nas periferias, porém, incorporar momentos de cuidado à rotina pode ser um desafio. Muitas enfrentam jornadas extensas de trabalho, além dos cuidados com a casa e a criação dos filhos.
Nesse contexto, ações como preparar um chá, observar o próprio ciclo menstrual ou reservar alguns minutos para meditação podem parecer difíceis diante de uma rotina marcada pela falta de tempo.
A relação com o próprio corpo também ganha importância diante de procedimentos ginecológicos, como a histerectomia, cirurgia para a retirada do útero.
Segundo Jera, a relação entre os hábitos cotidianos e a saúde precisa ser observada ao longo da vida. Entendo que as coisas que a gente faz, a forma que a gente vive, vão refletir quando estivermos entrando, principalmente, na menopausa. Na minha visão, as pessoas estão ficando cada vez mais doentes do útero mais cedo por conta dos hormônios, da alimentação, do modo de vida e do estresse também, afirma.
Muitas pessoas também deixam de procurar os serviços de saúde por experiências de violência e constrangimento durante os atendimentos. Jera destaca que, esse problema é ainda mais evidente entre homens trans, que podem enfrentar situações de desrespeito relacionadas à identidade de gênero.
Ela defende que o acesso aos saberes sobre o próprio corpo também pode fortalecer a autonomia desses pacientes e estimular mudanças na forma como o sistema de saúde oferece atendimento à população trans.
Ativista avalia que, o cuidado com o útero está relacionado à saúde integral e envolve também aspectos emocionais, espirituais e a relação com o próprio corpo @Isabela Alves/Agência Mural
Esse é um movimento de reivindicação política para que as pessoas se apropriem dos próprios corpos e entendam o que está acontecendo. Antes de você passar mal ou de aparecer uma doença, já consegue perceber os sintomas, conhece o seu corpo e pode fazer um autoexame para identificar se existe alguma mudança no seu ciclo, afirma.
Parteira nas aldeias indígenas
Jéssica aprendeu a atuar como parteira principalmente com a avó e outros familiares que já exerciam a prática. Após o nascimento do primeiro filho, Théo, hoje com 12 anos, ela enfrentou uma depressão pós-parto grave e começou a estudar para compreender as transformações pelas quais seu corpo havia passado.
Em 2022, decidiu iniciar sua atuação como parteira. Muitas mulheres passaram pelo que eu passei e tive vontade de amenizar, conta.
Nas aldeias indígenas, o acompanhamento da gestação é realizado em conjunto com as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e as parteiras tradicionais que acompanham as mulheres durante esse período.
Ela também destaca que o modo de vida e a alimentação em alguns territórios indígenas são diferentes dos encontrados nos centros urbanos, o que pode influenciar a experiência da gestação.
Para ela, mulheres que vivem nas cidades estão mais expostas a fatores como estresse, sobrecarga de trabalho e questões psicológicas, emocionais e físicas que também podem interferir nesse período.
Como parteira tradicional, Jéssica utiliza o uso de plantas medicinais e técnicas de massagem para aliviar dores e auxiliar no posicionamento dos bebês.
Vejo muitas parteiras dentro de territórios tradicionais como figuras políticas. Um símbolo. Em uma sociedade que cresce na perspectiva do capital, onde tudo é descartável, as parteiras compreendem e aprofundam o estudo sobre a vida. Elas são chamadas de guardiãs da vida, que cuidam desde a semente e aguardam esse momento da chegada, afirma.
Segundo Jera, uma das principais contribuições da ginecologia natural é fortalecer a autonomia das pessoas com útero sobre o próprio corpo. Ela também defende a educação popular como caminho para que esses saberes sejam compartilhados e alcancem cada vez mais pessoas.
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