O que as músicas dos Racionais MC’s têm a dizer sobre racismo ambiental? Pode ser que o termo não fosse tão discutido quando os principais álbuns do grupo foram gravados, nos anos 1990, mas as letras têm forte relação com justiça socioambiental. É o que defende a educomunicadora Julia Neres, 27, que realizou um estudo sobre como os problemas denunciados nas músicas se transformam em riscos para as pessoas e a natureza.

Em sua pesquisa, chamada Racismo Ambiental Sobrevivendo no Inferno: leituras socioambientais a partir da obra dos Racionais MC’s, a moradora do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, relaciona as letras do grupo a discussões sobre território, memória e justiça socioambiental.

Julia Neres no lancamento do livro “Racismo Ambiental” @Kleber Silva

A jovem mergulhou no tema durante a graduação em Educomunicação, na USP (Universidade de São Paulo), a partir de uma atividade ministrada pela professora que depois se tornou sua orientadora, Thaís Brianezi.

A ideia ganhou ainda mais força após uma visita técnica ao Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), no segundo semestre de 2022. Foi lá que Júlia identificou uma relação forte entre as músicas dos Racionais e a chamada Fórmula do Risco de Desastre, um cálculo probabilístico da UNDRR (Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres) que mede o risco de desastre de uma localidade.

O cálculo simplificado é: Risco = Ameaça x Exposição x Vulnerabilidade 

Cada fator é quantificado por meio de dados estatísticos, mapeamentos geográficos e índices socioeconômicos.

Na pesquisa, Júlia relaciona o álbum Sobrevivendo no Inferno (1997) e as músicas Homem na Estrada (1993) e Tempos Difíceis (1988), com os riscos enfrentados pela população periférica com as mudanças climáticas, incluindo maior recorrencia de enchentes, deslizamentos e ondas de calor. Os versos retratam situações cotidianas das quebradas que representam a forte desigualdade social das cidades brasileiras:

[…] Destruíram a natureza

e o que puseram em seu lugar jamais terá igual beleza.

Poluíram o ar e o tornaram impuro.

E o futuro eu pergunto, confuso: como será?

Agora em quatro segundos irei dizer um ditado:

Tudo que se faz de errado aqui mesmo será pago.

Trecho de Tempos Difíceis (1988)

A proposta é mostrar que o risco de desastre não é apenas um fenômeno natural, mas também social: populações negras, indígenas e periféricas costumam estar mais expostas e vulneráveis aos impactos ambientais, devido às desigualdades históricas que as expulsaram para os locais mais inseguros das cidades, sem infraestrutura urbana adequada.

“Quando vi a Fórmula do Risco de Desastres, especialmente o ‘R’ [risco de desastre], percebi que sua conexão com as letras dos Racionais MC´s estava pronta. Queria que as músicas fossem o centro da discussão, e não apenas uma referência. É por meio delas que consigo aproximar as pessoas do tema”, conta. O hip-hop passou a ser a linguagem pela qual consigo dialogar com diferentes públicos e transformar conceitos acadêmicos em discussões que fazem sentido para quem vive nas periferias.

Obra que aproxima as letras dos Racionais MC’s do debate sobre racismo ambiental e risco de desastre @Kleber Silva

Assim, Júlia fez com que a fórmula deixasse de ser apenas um modelo técnico e passasse a dialogar com questões presentes nas periferias, como cultura, memória, pedagogia hip-hop e racismo ambiental – termo criado pelo ativista afro-americano Benjamin Chavis, nos anos 1980.

A pesquisa foi concluída no último semestre de 2025 e em 2026 foi publicada como um livro, de mesmo título, em versão física, digital e como audiolivro. A publicação foi viabilizada por meio de recursos do edital do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), da Prefeitura de São Paulo, por meio do projeto Mirante Coletivo, que trabalha com design, literatura e educomunicação e do qual Julia é coordenadora.

Os recursos permitiram a produção de 200 edições impressas e a distribuição gratuita dos materiais no IBEAC (Instituto Brasileiro Estudos Apoio Comunitário Queiroz Filho), apoiador do projeto, e em espaços culturais como a CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) Parelheiros Saudável, onde a obra foi lançada.

Observações do cotidiano e referências culturais

Para além da universidade, identificar o racismo ambiental no cotidiano foi também um processo pessoal para Julia, para quem crescer em São Paulo faz com que se endureça para sobreviver.

Mas, aos poucos, ela foi percebendo que precisava recuperar a sensibilidade. O contato com  culturas diferentes, como a Guarani e com o hip-hop, foi fundamental nesse processo, fortalecido pelos estudos sobre Educomunicação.

As músicas me fizeram desenvolver curiosidade. Eu lia uma referência, pesquisava sua origem, buscava entender o contexto e ia construindo conexões. Foi só na Educomunicação que encontrei uma forma de estudar realmente vinculada ao território.

As ilustracoes feitas por Julia, tambem fazem parte do livro Racismo Ambiental. Os desenhos sao uma marca registrada da autora @Kleber Silva

Durante os estágios, entre maio e agosto de 2025, ela passou a testar em escolas públicas a abordagem elaborada na sua pesquisa e a utilizar referências do hip-hop como ponto de partida para discussões ambientais. 

Em vez de iniciar pela teoria, ela apresentava imagens de artistas como Tupac e os Racionais MC’s, além de grafites e obras de escritores como Carolina Maria de Jesus.  A proposta era criar identificação com os estudantes em sua maioria do ensino médio. 

A partir daí, ela iniciava discussões sobre os Panteras Negras movimentos indígenas, racismo ambiental e desigualdade urbana. A experiência também contribuiu para a construção das metáforas presentes na pesquisa.

‘Passei a entender a gentrificação e o racismo ambiental como estruturas que ajudam a explicar a cultura hip-hop. Também percebi que a linguagem precisava mudar de acordo com quem estava ouvindo’

A pesquisa foi desenvolvida ao longo dos quatro anos de graduação de Julia, entre 2022 e 2025. O processo envolveu um extenso trabalho de pesquisa e contou com o diálogo e apoio de instituições parceiras, como o Cemaden e o IBEAC.

Um livro para as quebradas

Julia destaca que sem o recurso do VAI não teria sido possível finalizar o livro. A ideia era publicar textos curtos periodicamente, mas percebi que não conseguia escrever pouco. Em dois meses, o rascunho já tinha ultrapassado 100 páginas. Foi quando entendi que esse trabalho precisava, de fato, virar um livro.

Entre as referências utilizadas na obra, a Agência Mural também está presente. As reportagens “Intervenções culturais em escadões mantêm viva a memória do Jardim Ibirapuera”, de Daniel Santana, e “Os moradores que se uniram para plantar árvores e ampliar o verde nas periferias”, de Isabela Alves, são citadas ao longo da pesquisa.

‘Foi por meio dessas referências que aprendi a olhar para o lugar onde vivo e entender que ele também produz conhecimento’

Antes de receber o recurso do VAI, Julia, que também é ilustradora, utilizava seus próprios desenhos para divulgar a pesquisa. Muitas das ilustrações foram incorporadas às páginas do livro.

O edital permitiu que ela concluísse a publicação e pudesse dar continuidade a outros projetos, como o livro Ananse e o Pote de Memórias”, que apresenta uma releitura das histórias de Ananse, personagem da tradição oral do povo Ashanti.

Tendo o hip-hop como um dos fios condutores, a pesquisa saiu do papel em 2026 sendo lancado no IBEAC @Kleber Silva

Julia destaca que ainda sabemos muito pouco sobre a história dos territórios periféricos, mas que hoje, com as novas tecnologias, é possível documentar o cotidiano e os conhecimentos das quebradas para o futuro. A pesquisa dela é parte desse repertório, por tornar o debate sobre racismo ambiental mais acessível e estimular a permanência das pessoas a discussão.

No fim, percebi que a pesquisa nunca foi apenas sobre produzir um livro. Ela sempre buscou experimentar diferentes linguagens para tornar essas discussões mais acessíveis e aproximar as pessoas do tema.

Agência Mural - Educomunicadora transforma Racionais MCs em ponte para discutir racismo ambiental