Tenho prótese de quadril e preciso ir a pé [ao médico], porque não tem condução que passe lá. A fala da vendedora de churros Ana Lúcia Castro, 55, revela a nova realidade dos usuários da saúde pública na zona sul de São Paulo: a mudança de endereço do AMA Especialidades (AMA-E) Jardim São Luís melhorou o atendimento médico, mas dificultou a locomoção até a unidade, onde passar apenas uma linha de ônibus.

O equipamento foi entregue em junho de 2025 para ampliar a oferta de exames e consultas especializadas, como cardiologia, endocrinologia, neurologia, ortopedia e urologia. Com investimento de R$2 milhões, o AMA-E foi instalado a cerca de 1,5 km do antigo endereço, na Rua Luís Antonio Verney, nas proximidades do Cemitério São Luís.

O AMAE foi inaugurado em junho de 2025 @Daniel Santana / Agencia Mural

A expectativa era de que o novo espaço (localizado na Rua Filipe Neri Teixeira, 195, no Jardim Casablanca) resolvesse uma demanda histórica por atendimento especializado em um dos bairros mais populosos da capital. No entanto, a mudança acabou criando um novo desafio para os pacientes: o deslocamento.

Durante o primeiro ano de funcionamento, não havia nenhuma linha de ônibus que passasse pela rua onde fica o novo ambulatório. Só em julho de 2026, após meses de reclamação, a linha 6043-10 (Term. Santo Amaro Jd. Capelinha), teve seu itinerário alterado para passar próximo ao AMA-E.

Apenas a linha 6043-10 (Terminal Santo Amaro Terminal Capelinha) passa pelo unico ponto de onibus que atende a regiao, nos sentidos bairro e centro @Daniel Santana / Agencia Mural

A mudança, porém, foi pontual. O ônibus faz um pequeno desvio, entra na Rua Filipe Neri Teixeira, passa em frente ao ambulatório e retorna ao trajeto original pela Rua Thereza Mouco de Oliveira.

Na prática, os pacientes deixaram de ter à disposição 10 linhas de ônibus que serviam o antigo endereço para ter apenas uma – que sequer percorre as principais vias do Jardim São Luís. Seu trajeto passa por locais com menos movimento e não contempla a Rua Luís Antonio Verney, do antigo AMA-E, com mais opções de linhas nos sentidos bairro e centro.

Ana Lucia, 55, enfrenta dificuldades de locomocao por problemas no quadril e sofre com a falta de transporte para chegar ao AMAE @Daniel Santana /Agencia Mural

Além das limitações físicas que complicam sua locomoção, Ana Lúcia afirma que a falta de opções de transporte público dificulta seu acesso ao tratamento no AMA-E. A vendedora de churros mora a apenas dois minutos a pé do antigo endereço e agora precisa pegar ônibus para chegar ao local.

[O poder público] fez um lugar mais moderno, mas deixou longe das pessoas, não adiantou. Quem não pode ir de carro vai a pé. E a condução é distante e demorada, ressalta.

Linhas que atendiam o antigo AMA-E: 609F-10, 609F-21, 647P-10, 675A-10, 6047-10, 6049-10, 6805-10, 6836-10, 6010-10 e 6803-10. (Um ponto na esquina e outros a cerca de 240 metros.)

Linha que atende o atual AMA-E: 6043-10 Jd. Capelinha / Term. Santo Amaro. (Um ponto em frente ao equipamento e outro a aproximadamente 300 metros.)

Ladeiras e degraus

A diferença é percebida por quem utiliza o serviço. A costureira Isabel Santana, 57, afirma que chegar ao novo endereço se tornou mais difícil.

Antes o acesso era bem mais fácil, porque havia várias linhas de ônibus e você descia bem perto [do AMA-E]. Agora mudou para um lugar que tem estrutura maior, mas o percurso até chegar lá é difícil.

Os desafios não se restringem ao transporte coletivo. Diferentemente do antigo AMA-E, onde o trajeto entre os pontos de ônibus e o ambulatório era praticamente plano, o novo endereço está localizado em uma área com ladeiras íngremes e calçadas com degraus, que dificultam a acessibilidade, em especial de pessoas com deficiência e idosos.

No caso de Isabel, a situação é ainda mais delicada: ela tem arritmia cardíaca e relata que o esforço físico para chegar ao local afeta sua saúde. Dependendo do horário da consulta, precisa escolher entre caminhar ou gastar com transporte por aplicativo.

‘Tem muita subida, ladeira e degraus. Chego muito cansada. Como não há ônibus com frequência suficiente, às vezes você espera tanto pela condução que acaba preferindo voltar andando.’

Isabel Santana, costureira

Apesar das dificuldades de acesso, Ana e Isabel reconhecem que o novo ambulatório ampliou a oferta de especialidades médicas na região, uma demanda antiga dos moradores do Jardim São Luís.

Para elas, a alteração de itinerário da linha 6043-10 foi apenas uma resposta do poder público às reclamações da população, que não resolveu de fato o problema de mobilidade dos pacientes.

O serviço de lá é bom e a estrutura também. Mas o problema é chegar até lá. Isso é o que mais dificulta, afirma Isabel.

Isabel Santana, 57, tem arritmia cardiaca e enfrenta dificuldades para se deslocar ate a unidade de saude devido a falta de transporte @Daniel Santana /Agencia Mural

As moradoras esperam novas medidas para tornar o acesso ao equipamento mais seguro e eficiente.

[Precisa] ter mais linhas de ônibus, melhorias no asfalto e nas calçadas, porque está tudo precário. Se você quiser andar, tem que ir pela rua e não pela calçada, conclui Ana.

O que dizem os órgãos públicos? 

Em notas, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informou que a mudança de endereço da AMA-E teve como objetivo melhorar a estrutura física da unidade, além de ampliar a capacidade operacional e qualificar a oferta de consultas, exames e procedimentos.

Sobre a falta de transporte público, a SPTrans destacou que o fato de a linha 6043-10 atender o Terminal Santo Amaro “amplia as possibilidades de acesso”, já que o terminal conta com 62 linhas de ônibus.

Sobre possíveis ampliações no número de linhas que servem a unidade, a empresa afirmou que toda mudança de itinerário é baseada em estudos e monitoramentos diários, que consideram fatores como origem e destino dos passageiros, frequência das viagens e fluidez do tráfego.

“Quando identificada a necessidade de ajustes, são tomadas as medidas operacionais cabíveis para melhor atendimento da população”, complementa a nota.

Sobre a falta de manutenção de calçadas, a Subprefeitura M’Boi Mirim informou que realiza vistorias periódicas e que já notificou proprietários de imóveis da região para que promovam as adequações necessárias.

Agência Mural

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