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Se você está com medo de que os EUA interfiram nas eleições brasileiras, tenho uma má notícia. O governo de Donald Trump já está interferindo para prejudicar a candidatura de Lula e beneficiar seu favorito, Flávio Bolsonaro.
Não sei por que a imprensa segue abordando essa história como tensões diplomáticas, como se houvesse um desentendimento na relação bilateral. É um erro crasso no jornalismo não chamar as coisas pelo nome.
Trump decidiu usar o aparato do Estado norte-americano para alavancar votos para Flávio, uma interferência inaceitável e sem precedentes exceto no apoio ao Golpe Militar.
Então, para deixar as coisas mais claras, vou listar aqui oito ações de interferência dos americanos:
- O timing da designação do PCC e CV como terroristas foi pensado para impulsionar a candidatura de Flávio
Os EUA estavam considerando desde pelo menos 2025 designar as duas organizações criminosas como terroristas, mas enfrentavam resistência do governo brasileiro pelos riscos óbvios à soberania nacional basta ver os mais de 60 bombardeios que as Forças Armadas dos EUA já realizaram nas águas do Caribe e do Pacífico e a invasão da Venezuela sob a pretensão de que Nicolás Maduro era chefe de um cartel de drogas que nunca existiu.
No dia 26 de maio, Flávio Bolsonaro, que já estava usando este tema como bandeira da sua pré-campanha, organizou uma viagem aos EUA para encontrar Trump na Casa Branca treze dias depois de ser exposto pelo Intercept Brasil pedindo R$ 134 milhões para Daniel Vorcaro, protagonista do maior escândalo de corrupção deste ano, atualmente preso. A revelação foi o maior baque até agora na campanha de Flávio Bolsonaro; ele chegou a cair 5 pontos nas pesquisas eleitorais.
A viagem de Flávio aos EUA menos de duas semanas depois serviu para mudar o foco da atenção do debate público brasileiro. O governo americano sabia disso, e trabalhou para possibilitar um photo-op, uma foto de Flávio, Eduardo e Paulo Figueiredo junto ao presidente norte-americano.
No dia seguinte, ele encontrou com Marco Rubio, secretário do Departamento de Estado, e também com o vice-presidente JD Vance. Depois do encontro com Rubio, Flávio disse: Batemos de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais.
A principal movimentação política veio dez dias depois. Em 5 de junho, os EUA anunciaram a designação, permitindo que o candidato do PL reivindicasse a decisão como resultado de sua articulação algo que vai ser usado largamente na campanha.
- Assessor do Departamento de Estado para o Brasil foi se reunir com Flávio Bolsonaro no hotel onde estava hospedado em Washington
Na mesma viagem em maio, o assessor para políticas em relação ao Brasil no Departamento de Estado, Darren Beattie, foi até o hotel em que Flávio estava hospedado para se reunir com o candidato, uma demonstração de proximidade e apoio institucional do governo.
Darren Beattie foi indicado para o cargo em fevereiro deste ano, mas Eduardo Bolsonaro sabia que ele seria escolhido desde novembro do ano passado.
Beattie foi autor das notas da embaixada brasileira ameaçando membros do judiciário e chamando Alexandre Moraes de arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro. Os aliados de Moraes no Judiciário e em outras esferas estão avisados para não apoiar nem facilitar a conduta de Moraes, escreveu.
Darren Beattie tentou visitar o Brasil em março deste ano, quando iria encontrar Jair Bolsonaro na prisão. No entanto, seu visto foi cancelado quando ficou claro que ele não queria se reunir com autoridades, mas criar mais um fato político na mesma linha da narrativa de perseguição contra o ex-presidente.
Ele repetia o gesto do outro grande articulador do apoio a Flávio Bolsonaro no Departamento de Estado, Ricardo Pita. Ricardo, conselheiro sênior do Departamento de Estado dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental, está a cargo de negociações sobre parceria para crime organizado e já alegou pelo menos uma vez que o governo Lula perdeu o prazo para participar de uma parceria contra o crime. Pita visitou Jair Bolsonaro e Flávio quando esteve no Brasil em maio de 2025, sem avisar ao Itamaraty.
Deste então, Darren Beattie e Ricardo Pita têm liderado a guinada bolsonarista do Departamento de Estado.
- Trump interferiu na eleição ao postar foto ao lado de Flávio Bolsonaro no mesmo dia em que EUA propuseram novo tarifaço
Trump tem interferido em diferentes graus em eleições latino-americanas. No caso de Milei, Trump disse claramente que seu governo daria um empréstimo de US$ 20 bilhões à Argentina se ele vencesse, enquanto Trump só apoiou o colombiano Aberlado de la Espiella depois que ficou claro que ele tinha chances de vencer no segundo turno.
Por isso, Trump foi mais discreto ao anunciar sua preferência por Flávio Bolsonaro e a relação deste apoio a novas sanções econômicas contra o Brasil. Em 2 de junho, Trump publicou na rede social uma foto ao lado de Flávio, afirmando: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!”.
A postagem aconteceu apenas horas depois do Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) propor uma tarifa de 25% sobre exportações brasileiras por acusações infundadas de práticas que restringem comércio com empresas norte-americanas, como o PIX e a regulação das Big Techs.
Pra bom entendedor, meia palavra basta. O recado era: vamos impor tarifas ao Brasil e há um interlocutor favorito para negociar isso: Flávio Bolsonaro. O recado foi entendido pela campanha de Flávio, que tenta escapar da pecha de Tariflávio, e foi o que levou o candidato a ir até os EUA meses depois para pedir ao USTR que adie as tarifas.
- Marco Rubio interferiu nas eleições brasileiras ao jogar a culpa das novas tarifas de 25% sobre Lula, pessoalmente
Para reforçar a narrativa de que as tarifas são culpa do atual governo e não de Eduardo Bolsonaro, que vem fazendo lobby contra o Brasil desde que se mudou para os EUA em março de 2025, o próprio Secretário do Departamento de estado, Marco Rubio, atuou diretamente.
Rubio, que já tinha recebido Eduardo Bolsonaro em outubro do ano passado e recebeu Flavio em maio deste ano, jogou a culpa pelas novas taxas contra o Brasil nas costas de Lula.
Rubio escreveu no Twitter: Que não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Durante o último ano, Lula priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso.”
Rubio usou a rede social para criar mais uma narrativa mentirosa que será amplamente explorada por Flávio Bolsonaro durante a eleição.
Segundo todas as fontes da profissional diplomacia brasileira, o Itamaraty seguiu todos os protocolos e tentou negociar diversas vezes com o Escritório, mas não havia nenhuma abertura para isso.
O argumento, entretanto, foi criado de maneira perfeita para ser explorado pela campanha de Flavio Bolsonaro. Tanto é que já deu frutos: recentemente, o clube militar, associação dos aposentados das Três Forças, que sempre teve viés golpista, antidemocrático, de extrema direita e saudosistas do regime militar, aproveitou a deixa e para culpar o governo Lula por por criar ruídos diplomáticos desnecessários, adotar críticas personalistas, comprometendo as relações bilaterais e levando a retaliações comerciais que poderiam ter sido evitadas.
Além disso, pesquisas de opinião recentes mostram que tem crescido a visão negativa sobre a reação de Lula ao tarifaço; uma sinuca de bico criada por Marco Rubio e que vai ser tema das eleições nacionais.
- O governo dos EUA tentou enviar dois oficiais para questionar as urnas brasileiras
Os oficiais do Departamento de Estado, enviados pela turma de Darren Beattie, viriam a Brasília para tratar de liberdade de expressão e ecoar no Brasil desinformação sobre urnas eletrônicas que o próprio Donald Trump tem disseminado nos EUA, para tentar melar as eleições de meio de mandato em novembro.
O perfil dos dois enviados segue o da ala extremista do Departamento de Estado. Um deles era Samuel Samson, de 27 anos, subsecretário-adjunto de Estado para o Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, que tem liderado uma guerra contra a Europa pelo que os trumpistas veem como censura política e lawfare à extrema direita no bloco. No final de maio, Samson liderou uma comitiva que foi a Londres se encontrar com manifestantes anti-aborto e grupos anti-cultura do cancelamento.
Como a Pública mostrou, a embaixada dos EUA chegou a organizar uma reunião com o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante. A ideia era fazer visitas pessoais a membros da oposição e criar um fato político, a ser aproveitado pela campanha de Flavio e por veículos de extrema direita no Brasil e nos EUA.
A iniciativa foi frustrada pelo Itamaraty, que negou o visto aos enviados de Darren Beattie.
- O consulado dos EUA fez uma reunião com influenciadores do campo bolsonarista em São Paulo
Mais uma vez, de maneira inédita, o consulado dos EUA em SP recebeu para uma reunião influenciadores da extrema direita como Leandro Narloch, Maria Fernanda Schmidt, do Brasil Paralelo, Rafael Ferri e Penélope Nova. O tema dessas reuniões foi debater liberdade de expressão, reforçando a narrativa de censura e perseguição aos bolsonaristas.
Em 23 de julho, Maria Fernanda Schmidt postou no Instagram fotos no consulado e escreveu: Foi uma excelente oportunidade para compartilhar com os diplomatas os desafios enfrentados por influenciadores, jornalistas e produtores de conteúdo no ambiente digital, em um diálogo enriquecedor sobre os rumos da liberdade de expressão no Brasil.
A narrativa espalhada pela extrema direita é que tudo vale, uma vez que a Usaid financiava organizações que defendiam a integridade eleitoral e investigam desinformação. Segundo Eduardo Bolsonaro e Fernando Cerimedo falaram abertamente em uma live há algumas semanas, se a direita ganha, a eleição é justa; se a esquerda ganha, é porque há fraudes.
- O governo Trump interferiu nas eleições brasileiras ao suspender o visto da embaixadora do Brasil nos EUA
Depois de 1 ano e 8 meses sem embaixador no Brasil, o governo Trump está tentando empurrar um embaixador ideológico, de extrema direita e sem nenhuma experiencia em diplomacia para chegar ao país dois meses antes das eleições.
A poucos minutos de encerrar as atividades do Congresso antes do recesso, o Senado dos EUA aprovou a nomeação do embaixador Daniel Perez para assumir o posto no Brasil.
A decisão visa ampliar a pressão sobre o governo Lula e tem apenas como objetivo interferir nas eleições brasileiras.
Desde que Trump assumiu, ele deixou mais de metade dos países sem embaixadores, optando por fazer política externa através de chantagens e estruturas paralelas, para desespero dos diplomatas de carreira do Departamento de Estado, como mostrei neste artigo.
A pressa para enviar Daniel Perez ao Brasil foi pensada para que ele possa impulsionar a narrativa de promover a liberdade de expressão. Como a Pública mostrou, Perez, que é presidente do legislativo da Flórida, nunca foi diplomata, é um político altamente ideológico e anti-comunista que já prometeu, na sua sabatina, que vai trabalhar pela liberdade de expressão no Brasil. Segundo o jornalista Paulo Motoryn, enquanto Perez presidia a câmara da Flórida, ele recebia por contratos como advogados um dos seus clientes está o canal de TV Newsmax, que foi um dos principais difusores da mentira sobre fraudes nas eleições presidenciais de 2020. A empresa teve que pagar US$ 67 milhões à empresa de tecnologia eleitoral Smartmatic, por tê-la associado a manipulação das eleições.
O governo Lula já deixou claro que vai sentar em cima da indicação até depois das eleições.
Como retaliação, os EUA cancelaram o visto da embaixadora do Brasil dos EUA, Maria Luiza Viotti, uma diplomata de carreira, bem diferente de Daniel Perez. A coisa promete escalar e pode chegar até a expulsão de Viotti.
- O governo dos EUA se prepara para interferir ainda mais ao classificar Brasil como ameaça incomum e extraordinária à segurança dos EUA
Em 28 de julho, o governo dos EUA anunciou a prorrogação por um ano de uma ordem executiva, um decreto assinado por Trump em julho de 2025, que declara uma emergência nacional nos EUA contra o Brasil, por considerar o nosso país uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA. A medida permite adotar sanções econômicas em momento de emergência.
No documento que anunciou a prorrogação, o governo Trump afirmou que o Brasil tem práticas que interferem na economia dos Estados Unidos, infringem os direitos de livre expressão de cidadãos norte-americanos, violam os direitos humanos e minam o interesse dos EUA em proteger seus cidadãos e empresas. O documento também defende Bolsonaro: diz que membros do governo federal perseguem politicamente um ex-presidente, sua família e seus apoiadores, sem citar o nome do ex-presidente condenado por tentar dar um golpe de Estado. E cita prisões de pessoas por exercerem a Liberdade de expressão e o STF como promotor de censura.
Isso tudo estaria levando a um colapso deliberado do Estado de Direito, segundo o governo Trump.
Alguma dúvida de que virão mais pressões?
Paro por aqui, mas seguimos aqui na Pública investigando a denunciando esta conspiração contra a democracia brasileira. A partir dos EUA, costurada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. Nosso jornalismo já ajudou a informar a investigação da PF e levou um pedido à Interpol para investigar o financiamento do filme Dark Horse por Flávio e Eduardo. Se você quer nos ajudar, peço que apoie nosso jornalismo.
Agora, é sua vez: use estes 8 fatos irrefutáveis em qualquer discussão sobre nossas eleições, pra as pessoas entenderem que o que está em risco é a capacidade dos brasileiros de decidirmos sobre nosso próprio futuro.
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