Alessandra Silva, 50, gestora comercial e empreendedora do Capão Redondo, passou uma madrugada inteira em busca de atendimento médico na zona sul de São Paulo. Ela procurou hospitais públicos e unidades de saúde após sentir fortes dores e inchaço na região da bexiga.

Com hemorragia e um mioma sendo expelido pelo corpo, ouviu diversas vezes que aquele não era o local adequado para atendimento. “Diziam que eu não estava parindo uma criança, mas um mioma”, relembra.

Somente depois de percorrer diferentes unidades de saúde, um enfermeiro orientou Alessandra a procurar o Hospital Municipal e Maternidade Prof. Mario Degni, conhecido como Hospital Sarah, no Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo. Segundo ele, a unidade tinha estrutura para atender casos como o dela.

No hospital, Alessandra finalmente recebeu atendimento, mas já apresentava um quadro de anemia grave e precisou passar por uma transfusão de sangue, após a retirada do mioma.

‘Diziam que eu não estava parindo, mas um mioma’, relembra Alessandra. @Arquivo pessoal

A demora no acesso ao atendimento não foi a única dificuldade encontrada pelas entrevistadas. Para a confeiteira Simone dos Santos Araújo, 51, os desafios começaram após o diagnóstico. Ela descobriu os miomas durante exames de rotina, mas o tratamento demorou anos para acontecer. Quando conseguiu atendimento especializado, os tumores já haviam crescido e provocado hemorragias frequentes.

Miomas, endometriose e cistos estão entre as doenças ginecológicas mais comuns entre as mulheres. Embora tenham causas e tratamentos diferentes, essas condições podem provocar dores intensas, alterações menstruais, dificuldade para engravidar e impactos significativos na qualidade de vida.

Em muitos casos, os sintomas acabam sendo tratados como algo “normal”, o que contribui para atrasar o diagnóstico e o início do tratamento. Foi o que aconteceu com Simone, que aguardou sete anos pela cirurgia. Quando finalmente foi operada, precisou passar por uma histerectomia, procedimento cirúrgico para retirada do útero.

Unidade de Saúde do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, que oferece atendimento ginecológico @Barbara Paula/ Agência Mural

Especialistas explicam que a histerectomia costuma ser considerada apenas quando outras alternativas não são eficazes ou quando o quadro já apresenta maior gravidade. A necessidade de cirurgia varia de acordo com fatores como o tamanho, localização e quantidade dos miomas.

A coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, Lígia Santos Mascarenhas, especialista em Ginecologia e Obstetrícia, explica que a retirada dos miomas pode ser indicada quando o tratamento clínico não controla os sintomas, como a hemorragia uterina persistente.

A cirurgia também pode ser recomendada em alguns casos para aumentar as chances de sucesso no tratamento da infertilidade ou reduzir riscos de abortamento e parto prematuro. Já a histerectomia, cirurgia para retirada do útero, é indicada em situações específicas, de acordo com a avaliação médica.

Segundo a ginecologista Lígia Mascarenhas, fatores como a normalização da dor menstrual, a demora na procura por atendimento e a necessidade de investigação por exames contribuem para que doenças como miomas e endometriose sejam diagnosticadas apenas quando os sintomas já estão mais intensos.

Pprincipais doenças ginecológicas

Mioma

O mioma é um tumor benigno, ou seja, não é câncer, ele se desenvolve na parede do útero. Muitas mulheres não apresentam sintomas, mas, quando eles aparecem, podem incluir sangramento menstrual intenso, cólicas fortes, dor pélvica, sensação de pressão na bexiga e, em alguns casos, dependendo da posição em que ele está, dificuldade para engravidar.

De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) os miomas uterinos são mais frequentemente diagnosticados em mulheres na faixa etária de 35 a 49 anos.

Endometriose

A endometriose ocorre quando um tecido parecido com o que reveste o interior do útero cresce fora dele, podendo atingir órgãos como ovários, trompas, intestino e bexiga. Os principais sintomas são cólicas menstruais intensas, ciclos irregulares, dor durante as relações sexuais, dor para evacuar ou urinar durante o período menstrual e dificuldade para engravidar.

A doença também é conhecida pela demora em chegar ao diagnóstico, já que a dor, muitas vezes, é confundida com uma cólica forte.

Cistos no ovário

Os cistos ovarianos são bolsas cheias de líquido que se formam nos ovários. A maioria é benigna e desaparece espontaneamente, mas alguns podem crescer e causar dores, alterações menstruais e, em situações mais graves, romper ou provocar a torção do ovário, exigindo atendimento médico imediato.

Falta de acolhimento

A trancista e maquiadora Ana Claudia Santos Conceição, 34, moradora do Capão Redondo e natural de Cruz das Almas (BA), descobriu os miomas em 2024, após realizar exames de ultrassom transvaginal e ressonância magnética. O diagnóstico revelou a presença de cinco miomas dos três principais tipos: submucoso, intramural e subseroso.

Ana Claudia conta que, além das dores musculares e nas costas, chega a permanecer até dez dias menstruada. Em pelo menos quatro desses dias, o fluxo é intenso, o que afeta a rotina e gera insegurança ao sair de casa.

“É desconfortável. Dá uma sensação de insegurança e medo de viver algum constrangimento na rua. Uma vez cheguei em casa e percebi que minha roupa estava suja”.

Ana Claudia, trancista e maquiadora

O caso de Ana não é isolado. Pessoas com útero que convivem com miomas, endometriose e outras condições ginecológicas frequentemente relatam dificuldades para obter diagnóstico, insegurança em relação à fertilidade e desafios para encontrar atendimento acolhedor. Esse grupo inclui mulheres cisgênero, homens trans e pessoas não binárias.

Diferentemente de Simone e Alessandra, Ana Claudia buscou atendimento na rede particular de saúde, onde segue em acompanhamento médico. Ainda assim, também enfrentou situações de desrespeito durante o atendimento.

“Paguei a consulta e não fiquei nem sete minutos na sala de tão mal que fui atendida”, conta. “Escutem os sinais do seu corpo e procurem ajuda. Às vezes, a gente tem receio de descobrir que há algo errado e acaba não procurando um médico para verificar o que pode ser. Toda mulher que tiver algum sintoma ou suspeita precisa ir ao médico, defende.

Alessandra confere seus exames médicos @Barbara Paula/ Agência Mural

Atendimento no sistema público

Questionada pela reportagem da Agência Mural sobre os fatores que contribuem para a demora no diagnóstico e no acesso ao atendimento especializado para doenças ginecológicas no sistema público, a Secretaria Municipal da Saúde não respondeu diretamente ao questionamento.

Em nota, a coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, Lígia Santos Mascarenhas, orienta que mulheres e demais pessoas com útero procurem uma Unidade Básica de Saúde (UBS) diante de qualquer sintoma.

“A gestão municipal realiza ações de promoção e educação voltadas à Saúde da Mulher em todos os seus eixos, incluindo atividades como Avança Saúde Mulher, realizadas aos sábados.” A campanha Avança Mulher atendeu cerca de 40 mil pessoas em março de 2026.

Unidade de Saúde pública na zona sul de São Paulo @Barbara Paula/ Agência Mural

A Secretaria da Saúde também informou que, para ampliar o acesso a exames e consultas, a Prefeitura de São Paulo criou dois Centros de Exames da Mulher (CEM), localizados em Itaquera, na zona leste, e na @Capela do Socorro@, na zona sul, onde são realizados até 14 tipos de exames.

A recomendação é que pessoas com sintomas relacionados à saúde ginecológica procurem uma das 482 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital, responsáveis pelo atendimento inicial e pelo encaminhamento para consultas especializadas e exames, quando necessário. Nas unidades com Estratégia Saúde da Família (ESF), o atendimento é realizado por equipes multiprofissionais. Atualmente, a rede municipal conta com 1.163 ginecologistas.

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