Eduardo Galeano faz falta.

Tanta falta.

Já escrevi e falei isso tantas vezes.  E certamente irei falar outras tantas.

Todos os meus pensamentos correram para isso quando França x Paraguai acabou e um debate feroz se iniciou.

Era uma ode ao Paraguai, alçado a utopia e símbolo da Pátria Grande possível. O sonho de Bolívar redivivo, os defensores del chaco dizendo presente para nos restituir a glória.

O canto dos espoliados, Taiguara, Mercedes Sosa e Silvio Rodrigues numa zaga inexpugnável, a resistência ao ataque do colonizador.

Tinha muito mais.

De repente, textos em profusão com uma sentença: quem não entendeu isso ou teve a mesma leitura, não entende nada sobre esse jogo. Muito mais: não entende nada sobre a vida.

Era Guimarães Rosa torcido até virar o que vira uma história quando se repete: uma farsa.

Parece que entenderam errado o sentido da vida querer coragem da gente.

Talvez tenha faltado Caetano irromper o debate para gritar: vocês não estão entendendo nada.

Faltou Caetano falar que sempre que ganhamos desse colonizador nas quatro linhas foi pelos hermetismos pascoais da bola com seus tons e seus dons geniais e não por tapas, simulações e cotovelaços.

Nunca ganhamos do lado de cima do Equador dando tapa, tiro, porrada e bomba.

É assim desde que Pastinha e Bimba ensinaram como drible para ganhar do colonizador. Aquele que trouxe a bola debaixo do braço e perdeu a receita por aqui.

Nunca.

Voltemos a Galeano.

É dele não só a mais poética explicação do que são nossas veias abertas mas também a didática milimétrica para contar como o Uruguai de 50, o time considerado como maior exemplo de coragem e virtude de todos os tempos, deu a maior aula de coragem da história do futebol.

Foi ele que sintetizou os fatos daquele Brasil x Uruguai da Copa de 50.

Enquanto as redes sociais de outrora exaltavam o tapa de Obdulio em Bigode, o tapa que nunca houve e foi criação abjeta da mente de racistas para criminalizar outro preto além de Barbosa, o maestro uruguaio nos contou com breves palavras o que aconteceu em campo. Muito mais do que isso: explicou como uma mentira sobre uma falsa valentia virou ato fundador de um fracasso de décadas.

Foi a partir do mito do Uruguai valente que por isso ganhou a Copa de 50 que o país vizinho caiu num buraco de anos. Porque achava que futebol era tapa na cara.

O Uruguai ganhou quando estava perdendo graças à coragem. E cometeu a metade das faltas do Brasil. Naquele tempo, não confundíamos a coragem com as patadas e jogo sujo. Zizinho corroborava a tese. O Uruguai ganhou porque tinha mais time e jogou mais bola. Ponto.

De sua mesa fixa no Café Brasilero de Montevideu, que, tal como a mesa de Hemingway na Bodeguita não podia ser tocada sem seu convite, adorava falar sobre o tema.

Tinha profundo asco da herança maldita daquela crença de que o Uruguai teria conquistado uma Copa por sua virilidade, rasteiras e tapas que tanto mal fez ao seu país e por tanto tempo mutilou o DNA futebolístico de um país.

Foi nessa mesa que esse mui humilde reportero ouviu isso dele pela primeira vez.

Foi dali que soltou a frase que dava conta de sua tristeza pelas lições de macheza em campo dos conterrâneos que destruíram um jogo tão bonito quanto vencedor. Uma poética sentença:

Ali ficamos. Ancorados. Ás vezes, a memória atua como âncora, não como catapulta.

Galeano teve profunda esperança em ver seu amor pelo futebol do país recuperado quando Juan Ramon Carrasco assumiu a seleção em 2003. Exaltava que no primeiro jogo o time fez apenas 10 faltas. E adorou o discurso de Carrasco em defesa da verdadeira tradição uruguaia e não daquela falsificação de coragem. Parem de sofrer.

Seguiu feliz quando o Maestro Tabarez assumiu fiel a essa ideia. Tinha razão.

Não foi só o Uruguai que historicamente sofreu com a distorção que agora ressurge na macheza sudaca tuiteira.

A história do futebol continental é também a história da eficiência do jogo jogado sobre a farsa da velha e surrada canção de que futebol raiz é jogo sujo, Libertadores raiz é eficiente…

Observe atento que ninguém aqui está caindo na falsa e infantil defesa de um jogo bonito. É sobre jogo jogado sempre ter sido mais eficiente do que jogo sujo ou que futebol também se ganha no vale-tudo.

E sim, aqui futebol e política, como em qualquer lugar, andam e sempre estarão juntos.

O auge da convicção de que o jogo sujo é do jogo e ganha jogo veio junto com a Operação Condor.

Ao mesmo tempo em que se rasgavam as leis e constituições de países, rasgavam-se as regras do jogo.

Chile, Paraguai, Uruguai. E por aqui também. Foi muito alto o preço do que agora virou exaltação.

E virou papo sobre quem entende o sentido da vida e quem não entende.

Não existe paralelo na história do futebol de alguém que tenha pago mais caro pela convicção de que futebol também se joga assim/futebol se ganha assim do que o Chile nos anos Pinochet.

Ninguém pagou um preço mais alto do que o Chile, agora esquecido no ostracismo dos fora de Copa. Por acreditar nesse pretenso e falso futebol raiz. Que de raiz nada tem.

Foi o mesmo país que serviu como o primeiro laboratório da história para a implementação do neoliberalismo com seus Chicago Boys tomando as pastas da economia e cortando direitos da população que viveu o extremo maior dessa convicção  do vale-tudo no futebol.

Pinochet sabia exatamente sobre a força do futebol como propaganda.

Ganhar a qualquer custo era seu entendimento sobre a bola.

Com seu títere Gordon Cañas, general carabinero na presidência da Asociación Central de Fútbol (ACF), era hora de botar em prática.

Foi o tempo da Plata Dulce, do Caso Paysandu e da fogueteira Rosemary. Todos com a mesma convicção: valia tudo para ganhar. E com o mesmo final: perderam tudo.

O dinheiro da ditadura jorrando. Valia tudo.

Falsificar passaportes de jogadores da base para a disputa de um sulamericano e ser fragorosamente derrotado.

Os Chicago Boys enchendo o futebol de dinheiro através do Banco Hipotecario de Chile (BHC) para provar que o modelo neoliberal através do futebol-empresa era a revolução e o caminho da vitória. Esperam até hoje os avós das atuais SAFs.

Na era da Plata Dulce, valia manipular resultado e até fazer gol sem adversário em campo num estádio transformado em campo de concentração.

O fim foi isso que está aí: a quase morte de um país futeboleiro.

A Argentina não difere.

A junta assassina de Videla queria a vitória a qualquer custo. E teve.

A parte disso que não te contam e também deturpam é que muito mais do que Videla, foi a vitória de um treinador que era a antítese disso tudo.

Que resgatou o DNA de um modo de jogar bola, la nuestra e do toco e me voy.

Troca constante de posições, triangulações, desmarques imediatos após o passe e circulação permanente. Tudo isso fala muito mais sobre o campo e bola de 1978 do que qualquer crença em ganhar a qualquer custo dos generais. A monumental biografia Menotti, de Ezequiel Fernandez Moores te conta melhor sobre isso.

O Brasil de Saldanha e depois de Zagallo também nada tinha de ganhar a qualquer custo. Muito mais do que deles, de Pelé, Tostão e companhia. Definitivamente, a história desse país no futebol é de pernas tortas e não da vitória com tapa na cara e antijogo.

Seria curiosa, não fosse uma distorção quase grotesca a exaltação que anda rolando do discurso pré-jogo de Alfaro no vestiário antes de encarar a França.

Fique claro que se entende o contexto motivacional de um vestiário. Fora dele, tomar como verdade é quase caricatural.

Nas palavras do treinador, de um lado estavam jovens lutando por um prato de comida. Do outro, almofadinhas fúteis em busca de brilhos individuais para se admirarem diante do espelho.

Curioso é que do mesmo Paraguai, antes do jogo, o fascista Chilavert, fã de Pinochet, dizia que jogar contra a França era jogar contra uma seleção africana.

Decidam-se.

Paupérrimo quase tocando no patético é falar sobre isso. Sobre uma França de meninos periféricos que lutaram também por mudar de vida como seus pares do outro lado e que sofreram com a hidrofobia dos Le Pen da vida.

Pescados em projetos sociais e, acima de tudo, políticas públicas exitosas que mudaram suas histórias. E a do futebol francês.  

São esses os almofadinhas, os que iriam se assombrar como janotinhas bobinhos com a malandragem? Às vezes a gente torce para ser poupado de ver certas coisas…

Franceses vindos no caminho da volta dos pais subjugados em colônias.

Tão vítimas do general francês, o facínora genocida Paul Aussaresses, quanto nós. O Carrasco de Argel, e também do Brasil, do Paraguai, do Chile, da Argentina, do Uruguai…Carrasco dos avós de todos ali de azul.

Curiosa ainda é a exaltação a uma Libertadores mítica onde, para ganhar, era preciso saber jogar sujo.

É que a memória anda falha para alguns. Em alguns casos. Em outros, é só canalhice mesmo.

Nunca ganhamos uma Libertadores com essas armas por aqui. Pelo contrário.

FOI A GENIALIDADE DE ZICO E DE UM TIME DE SONHOS QUE DERROTOU AS PEDRAS NA MÃO DE MÁRIO SOTTO

Foi a genialidade de Zico e de um time de sonhos que derrotou as pedras na mão de Mário Sotto.

E aqui voltamos a Pinochet, a Plata Dulce e a velha convicção de que vale tudo para ganhar.

Pouco se fala do heroísmo daquela conquista.

Não, não era um time do outro lado vestindo laranja.

Era a mais pura criação, representação e obra de Pinochet.

Que havia entendido que aqueles protestos contra a ditadura teriam na distração do futebol sua melhor forma de combate.

Um time para cada recanto do Chile e muita plata dulce. Sim, te lembra onde a Arena vai mal, um time no nacional. As ditaduras são monotonamente iguais em suas ideias.

Aquele Cobreloa, fruto direto da plata dulce, criado poucos anos antes para que mineiros do grotão do país se distraíssem e não prestassem atenção em comunistas, tinha que ganhar.

O zagueiro entrou com pedra na mão. Os jogos foram uma carnificina.

Foi Zico quem avisou: para ganhar, só tem um jeito: jogar bola.

Um mês depois dali, teve 3 x 0 no Liverpool, botando os ingleses na roda.

Foi esse mesmo Flamengo que protagonizou o último grande recital do futebol brasileiro em uma Libertadores. O Flamengo de Jesus. Jogando muita bola.

Teve o Fluminense de Diniz também. Sim, tinha Felipe Melo. Mas o que te faz lembrar desse time é o toco e me voy também.

O coitadismo de um Paraguai onde jorra o dinheiro pelas torneiras de Alejandro Dominguez, cada dia mais forte na FIFA, e suas contas secretas no Catar também não faz bem a história do coirmão.

E ninguém aqui está falando, note-se bem, sobre sistemas de jogo, jogar atrás. O próprio Paraguai fez isso contra a Alemanha e bem. Sem tirar a fantasia de malandro. É sobre atitudes. E sobre a velha convicção que deixou o cemitério cheio de malandro: a de que era mais malandro do que a malandragem toda.

O futebol é tão encantador que, de repente se vê um monte de gente, para fechar com Galeano de novo, teve como coisa mais emocionante da vida atravessar a rua com o sinal aberto falando que futebol é sobre isso também, é sobre malandragem, sobre ser mais esperto….

Vai ser um dia agitado em muito playground. Entre uma pipa e outra solta diante do ventilador, vai ter muito menino de gel defendendo que para ganhar vale-tudo. Pior: que o antijogo para ganhar tem que ser assim. Mesmo que a história diga um rotundo não a tudo isso.

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