Na hora de dormir, Irua se deitou, abraçou o travesseiro e pediu para Ancestral contar uma história. Naquela noite, Irua sonhou com mundos coloridos, com pessoas de todos os tempos. Ela acordou sentindo-se cheia de coragem e amor.

Este é um trecho do livro Meu Amigo Imaginário é um Ancestral, primeira obra da autora Yara Lopes, 31. Moradora de Osasco, na Grande São Paulo, ela é arte-educadora, bissexual, noiva de uma outra mulher e frequenta terreiro de Umbanda. É assim que ela se descreve. Eu sou muita coisa, né? Porque faço muita coisa, diz Yara.

Meu Amigo Imaginário é um Ancestral foi publicado no início de maio, pela Editora Gráfica Heliópolis. A obra convida o leitor a refletir sobre como crianças também podem vivenciar a ancestralidade nas religiões de matriz africana, percebendo, sentindo e ouvindo presenças espirituais que as protegem.

Yara Lopes e a família no lançamento de seu livro _’Meu Amigo Imaginário é um Ancestral’ @Arquivo pessoal/Divulgação

A obra acompanha Iruá, uma menina negra de 7 anos que veste uma blusa, macacão e sandálias brancas, além de uma faixa no cabelo. Acostumada a brincar sozinha no quintal de casa e apaixonada pelas cores preto e branco, ela vive ao lado da mãe, que trabalha para criá-la sozinha.

Em meio a essa rotina, a menina passar a ouvir vozes enquanto brinca e conhece o “Ancestral”, seu amigo imaginário, que surge para protegê-la. Em uma narrativa lúdica e poética, o livro mostra como a ancestralidade pode estar presente nas pequenas coisas do cotidiano, fortalecendo vínculos, memórias e o sentimento de pertencimento.

Enquanto parte do acervo da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em Osasco, foi descartada em abril deste ano, Yara sonha em incluir a biblioteca, onde passou anos estudando para o vestibular, e o Teatro da Vila dos Remédios, no roteiro de lançamentos da obra.

Feira de livro FEHELIPA realizada pela Editora Gráfica Heliópolis em maio de 2025 @Editora Gráfica Heliópolis/Divulgação

Ela conta que começou a buscar livros que falassem sobre terreiro e ancestralidade para crianças, tentando encontrar obras para utilizar em suas aulas. Primeira da família a se formar em uma universidade, a escritora tem o diploma de Artes Visuais, e conta que a escrita sempre foi algo bloqueado em sua vida.

A autora explica que não teve acesso a esse tipo de literatura na infância. Quando a gente não encontra o que a gente procura, o que a gente faz? Escreve, conselho que recebeu no terreiro.

E foi isso que ela fez. Começou a escrever no ônibus, a caminho do trabalho, nos momentos de lazer e nas conversas com crianças, familiares e amigos. A inspiração também veio da própria história de vida. As avós não tiveram acesso aos estudos, realidade de muitas brasileiras ainda. Segundo o IBGE, em 2025, 13,7% das mulheres com 60 anos ou mais eram analfabetas. Para Yara, escrever e publicar um livro também é uma forma de honrar a trajetória das mulheres da família que vieram antes dela.

‘Enxergo todas as minhas avós neste livro, Rose e Pedrina, elas não tiveram direito ao estudo. Minha avó aprendeu a escrever o nome quando eu tinha 10 anos’

Yara Lopes, escritora

Enfrentamento à intolerância religiosa

Em Terreiros, nos dias de gira, cerimônia religiosa, é possível ver as crianças de familiares que frequentam, correndo, brincando e circulando. O espaço é gerador de conhecimento e aprendizagem, sociopolítico e cultural. E é por lá que a educadora consegue ficar mais à vontade para ser ela mesma.

A escritora narra cenas emocionantes vividas no dia a dia nos espaços onde atua como arte-educadora. “Quando elas me veem com uma guia, logo correm para dizer que também são de uma religião que usa guia ou que a mãe, a tia ou os avós seguem essa tradição”, conta.

A escritora mostrando o livro na contação de história para crianças @Arquivo pessoal/Divulgação

Para ela, a identidade, a reconexão com a ancestralidade e a representatividade podem ser construídas por meio dos livros, das pessoas e das que elas contam histórias. “A gente consegue fazer isso”, afirma.

Recentemente, um caso em uma escola na zona oeste de São Paulo ganhou destaque nas redes sociais, quando um tenente da Polícia Militar entrou armado na unidade de ensino para contestar uma atividade sobre cultura afro-brasileira, atendendo a um chamado de um pai que considerou doutrinação religiosa um desenho de Iansã feito pela filha de 4 anos durante uma aula.

Segundo a autora, a intolerância religiosa ainda é uma realidade, mas a legislação é um importante instrumento de proteção e garantia de direitos, já que é nela que garante o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas e também estão previstas na lei a proteção contra a discriminação religiosa, a qual fortalece o debate e contribue para que o tema não seja silenciado.

“Eu sei que vai vir intolerância religiosa, mas também estou amparada pela lei. Sei que vai ser uma batalha, mas estou mais pela poesia do que isso vai trazer”, afirma Yara.

A jovem compartilha quais são os próximos passos da carreira. “Quero que cada vez mais crianças tenham contato com essa história. Meu sonho é transformar o livro em uma peça de teatro e levar contações de histórias para escolas e bibliotecas”, afirma. A escritora pretende, futuramente, lançar outros exemplares.

O livro está à venda por R$ 23 e pode ser adquirido pelo link disponível nas redes sociais @Yara_lopess.

Agência Mural

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