Quando tinha 16 anos, o hoje fotógrafo Daniel Eduardo, 31, recebeu uma proposta de trabalho de uma das empregadoras de sua mãe: atuar em um estúdio como assistente de fotografia.

Foi meu primeiro contato. Eu era muito novo e nem imaginava o que aquilo poderia virar na minha vida. Mas aquele estúdio acabou sendo uma porta que se abriu, relembra Daniel, que também é diretor de fotografia e documentarista.

A partir dali, ele passou a fotografar tudo ao seu redor: a rua, os amigos, as pessoas e o cotidiano da quebrada – e percebeu que a câmera era também uma possibilidade de futuro: desde 2019, Daniel passou a atuar profissionalmente no audiovisual.

Daniel, cofundador do projeto Click Favela, explica para os jovens técnicas de fotografia @Arquivo pessoal/Divulgação

‘A dificuldade de entrar no mercado me fez perceber que não bastava só eu conseguir. Era importante abrir caminho para que outras pessoas também pudessem atravessar a mesma porta’

Daniel, fotógrafo

“Talento sempre existiu nas periferias, o que muitas vezes faltava era acesso”, afirma Daniel. Por isso, no mesmo ano, ele e os também fotógrafos Cássio Andreasi e Diéson fundaram o projeto Click na Favela, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. A proposta eram construir um ecossistema de formação em fotografia e audiovisual na periferia.

O projeto é voltado para jovens a partir de 18 anos e tem duração de quatro meses, com encontros realizados aos sábados. A formação combina aulas teóricas e práticas de fotografia e audiovisual, incluindo saídas fotográficas pela comunidade, onde os alunos exercitam o olhar a partir do território em que vivem.

Equipamento sempre foi caro e a informação não chegava fácil para quem vinha da periferia. Quando você vem de um território como o nosso, muitas vezes entra em lugares onde quase ninguém se parece com você, então existe desigualdade nesse mercado, afirma o fotógrafo, que hoje trabalha para revertê-la.

Construindo pontes

Ao menos 100 jovens já passaram pelo projeto, formando uma rede de conexões e oportunidades. Muitos atuam hoje com fotografia, audiovisual, produção cultural, publicidade e cinema.

Uma delas é Ana Beatriz, 21, aluna da turma de 2025 e hoje fotógrafa freelancer. Para ela, participar do Click na Favela foi uma experiência transformadora.

Nascer na margem da sociedade nos distancia dos nossos sonhos, pela dificuldade em encontrar ao menos um caminho para chegar até eles. E, para mim, o Click Favela foi esse caminho.

Durante a formação, ela teve aulas com profissionais do mercado audiovisual e contato com técnicas que ampliaram o entendimento para as imagens.

Conheci referências, desenvolvi um olhar mais crítico e observador, contei histórias e tive uma troca muito rica com pessoas que têm o mesmo propósito. Saí me sentindo exatamente aquilo que procurava quando me inscrevi: uma fotógrafa capaz. Não há limites para quem corre atrás, diz.

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Além das aulas técnicas, o projeto também atua como ponte para inserção no mercado. Alunos e ex-alunos já participaram de trabalhos como o Prêmio Potências, campanhas para marcas como ON e Champion, e produções no lançamento da Kenner + De Saturno.

Ana Beatriz participou de produções como o videoclipe da rapper AJULIACOSTA, O que a Julia vai ser?, com direção de Fernando Correrua, atuando como fotógrafa de backstage. Além disso, cobriu o encontro de cultura geek PerifaCon, onde trabalhou com fotografia em tempo real.

O projeto conta com o apoio de uma rede profissionais do audiovisual, incluindo ex-alunos, que contribuem com a formação, organização das aulas e gestão das redes sociais.

O Click na Favela também mantém parcerias com marcas. Em 2026, contou com o patrocínio da Kenner por meio da iniciativa Multiplicando Jovens Talentos, que recentemente formou uma turma com 15 jovens fotógrafos na última semana.

Quem quiser participar dos cursos deve acompanhar o Instagram do projeto e ficar de olho na abertura das próximas inscrições. O Click não é só um projeto de fotografia. Ele virou uma rede de formação, pertencimento e possibilidade para jovens das periferias”, afirma.

Ver jovens que passaram pelo projeto hoje trabalhando com audiovisual, fotografia, cinema, publicidade talvez seja uma das coisas que mais me emociona. Isso mostra algo muito simples: quando você cria acesso, o talento aparece.

Agência Mural

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