725 5th Ave, Nova Iorque.

O escritório da FIFA no Trump Tower é apenas a parte mais visível de uma conexão muito mais profunda.

De um lado está a responsável pela organização da Copa do Mundo. Do outro, o presidente do principal anfitrião.

Entre as duas partes, existe um jogo de milhões de dólares.

Por onde navegam os grandes beneficiários dos negócios ligados ao Mundial: empresários MAGA (Make America Great Again), doadores de campanha, financiadores da tentativa de golpe do 6 de janeiro de 2021, frequentadores de Mar-a-Lago e velhos conhecidos, cúmplices de histórias vividas juntos desde os tempos das festas de Jeffrey Epstein.

Em resumo: os amigos do rei. Desde já, os grandes vencedores da Copa do Mundo de 2026. Sem precisar entrar em campo, lucrando ou em negócios com o estado americano ou diretamente com a FIFA.

Gente como Timothy Unes e Justin Caporale, da Event Strategies, uma empresa de produção de eventos da Virgínia, que no último 2 de janeiro assinou contrato de US$ 4,4 milhões, o equivalente a cerca de R$ 22.156.200,00 (vinte e dois milhões, cento e cinquenta e seis mil e duzentos reais) com o Transportation Security Administration (TSA), subordinado ao Department of Homeland Security (Departamento de Segurança Interna – DHS), órgão do governo federal, tendo como objeto criar e operar toda a comunicação digital nos aeroportos americanos durante a Copa FIFA 2026 e os eventos do America 250.”

O contrato relacionado à Copa do Mundo é apenas mais um entre os tantos milhões de dólares que Unes e Caporales já faturaram no atual governo Trump.

Tim Unes é o presidente da Event Strategies. Justin Caporales é o CEO.

A dupla e a empresa, que já haviam trabalhado na campanha presidencial de Trump em 2016, são apontados em investigações parlamentares como peças fundamentais na estrutura da tentativa de golpe de estado no ataque ao Capitólio, em Washington, no 6 de janeiro de 2021.

O coração do evento era o comício “Stop the Steal” (Pare o Roubo) de Donald Trump. Justin Caporale era o “Project Manager” (Gerente de Projeto) do comício e Tim Unes atuou como “Stage Manager” (Gerente de Palco).

Ambos foram interrogados no Comitê Seleto da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos (House Select Committee to Investigate the January 6th Attack on the United States Capitol), que apurou os atos golpistas. De acordo com o relatório do comitê, a empresa foi a responsável por planejar, produzir e executar a logística do comício no Ellipse, o gramado ao sul da Casa Branca.

Documentos do comitê do congresso mostram que o CEO da Event Strategies recebeu previamente mensagens que informavam as intenções de Donald Trump em incitar o ataque violento, ordenando uma marcha ao Capitólio. As expectativas do Potus (Trump) são de ter algo íntimo e depois mandar todos para o Capitólio, dizia a mensagem recebida por Justin Caporale.

Intimado a entregar os documentos relativos ao evento do 6/1/2021, Caporale removeu esta mensagem, que só foi revelada posteriormente, entregue por outras testemunhas.

Após a atuação na logística do evento do Capitólio, a empresa dos dois passou a conquistar significativos contratos no governo significativos contratos depois da eleição de Trump. Somente em 2025 foram US$ 11 milhões. Um aumento de 1.700 % em relação ao ano anterior, antes de Trump.

A gratidão presidencial pela empresa vai além dos milhões em contratos. Em 29 de abril de 2025, em um comício no Michigan para marcar os 100 dias de mandato, Trump citou Justin Caporales em seu discurso: Justin Caporale, Justin, muito obrigado, onde quer que você esteja. Ele provavelmente está aí nos bastidores. O CEO da Event Strategies também foi nomeado como Produtor Executivo dos Grandes Eventos da Casa Branca. Unes e Caporales não foram indiciados.

FIGURA CENTRAL DO GOVERNO TRUMP NA RELAÇÃO COM A FIFA FOI PROTAGONISTA DA LISTA DE EPSTEIN

Em março de 2025, Donald Trump nomeou oficialmente seu escolhido para ser o rosto do seu governo junto a FIFA e ao Comitê Olímpico Internacional (COI).

Com o cargo de “Enviado Especial Para Parcerias Globais”, Paolo Zampolli percorre o mundo na condição de embaixador do presidente para os dois megaeventos que serão sediados nos Estados Unidos: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos de 2028, com sede em Los Angeles, realizando o que ambos classificam como a diplomacia do esporte.

É nessa condição que aproveita o cartão de visitas dos eventos para realizar grandes negócios e difundir o discurso MAGA. Em janeiro, no Fórum de Davos, Suíça, foi o representante do governo Trump e comandou a Casa dos Estados Unidos em Davos, um centro de reuniões da extrema-direita mundial. Em abril, levou o tema da Sports Economy para o Spring Meetings do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Nas redes sociais de Zampolli, a figura mais presente e repetida é Gianni Infantino. O embaixador que representa Trump não usa meias palavras para falar sobre o presidente da FIFA: o rei do esporte, grudado ao nome sempre que se refere a Infantino.

Nem mesmo o escândalo em ter como embaixador do país junto a FIFA e COI um protagonista da chamada Lista de Epstein fez com que Donald Trump afastasse o ítalo-americano, de 55 anos, das funções.

Jeffrey Epstein era um financista americano que morreu em 2019 em uma cadeia nova-iorquina, depois de ter se suicidado, conforme autópsia divulgada pelo Departamento de Estado americano. Preso pelos crimes sexuais cometidos desde os anos 90, inclusive contra meninas menores de idade e por comandar um esquema de tráfico sexual, que funcionava como uma rede de poder, influência e troca de favores com algumas das pessoas mais poderosas do mundo inteiro e de diferentes áreas.

Paolo Zampolli, Jeffrey Epstein e Donald Trump estiveram juntos nos anos 90 no mesmo ramo de negócios, ambientes e festas.

Enquanto Zampolli era dono da ID Model Management, Trump tinha a Trump Model Management.

Já Epstein, apesar de ter financiado a MC2 Model Management, de Jean-Luc Brunel, (também preso por crimes sexuais e que também consta ter se enforcado na cadeia), não tinha uma agência própria, apenas circulava por elas.

Sob diferentes grafias: Zampolli, Zampoli, Zempoli, o nome de Paolo Zampolli aparece pelo menos 51 vezes na Lista de Epstein e ainda através da antiga agência de modelos da propriedade dele, a ID Models.

DOCUMENTO DO FBI MOSTRA INTERMEDIAÇÃO DE ZAMPOLLI EM CONTATO DE EPSTEIN COM MODELO

As ligações de Zampolli e Epstein são detalhadas em um documento do Federal Bureau of Investigation (FBI) de 26 de novembro de 2019.

Os manuscritos com o depoimento que subsidiaram a peça do FBI também estão nos arquivos do Departamento de Estado Americano que compõem a Lista de Epstein. Os nomes das vítimas não aparecem nos registros.

Epstein é descrito como alguém que frequentava a agência de Zampolli, participava dos castings (os recrutamentos) e avaliava os portfólios das modelos.

Em frases curtas, a vítima conta sobre a ida a uma boate com Zampolli e Epstein. E uma ida à casa na Rua 71 (Epstein morava em East 71st street, rua no Upper East Side, um dos bairros mais tradicionais e elegantes de Manhattan, Nova Iorque).

“Ele (JE) folheou fotos de portfólios.” (JE: Jeffrey Epstein).

“JE olhou para a minha quando [eu estava] usando apenas partes de baixo (biquíni).

Posteriormente, após Epstein analisar e escolher a modelo no portfólio da agência de Zampolli, ocorreu um encontro entre ela e Epstein na casa do financista onde, segundo o depoimento da vítima ao FBI, ocorreu o abuso sexual.

O relato é semelhante ao de várias outras vítimas, seguindo o padrão de conduta descrito por várias vítimas nos arquivos da investigação, que apontam que Epstein costumava tocar piano para as meninas antes do jantar. Ao fim do encontro, levou para a sala de massagem e esfregou uma espécie de vibrador, para então mandar que um motorista levasse embora.

De acordo com o relato, Zampolli e Epstein tentaram comprar a Elite Models juntos: ele tentou comprar a Elite Models com JE”.

A modelo lembra ainda no depoimento que Zampolli serviu de cupido e apresentou Melanie a Trump.

ZAMPOLLI ERA DESPREZÍVEL

Em outro documento do FBI, com data de 23 de abril de 2020, uma modelo vítima de Epstein e que assinou com a agência de Zampolli aos 18 anos, descreve assim o agora todo-poderoso homem dos esportes nos Estados Unidos junto à FIFA e COI:

Zampolli era desprezível. A palavra usada no depoimento é sleazy, que pode ter distintas traduções, entre elas, além de desprezível, sórdido, canalha.

A vítima conta que o empresário se relacionava com as modelos. Em determinado momento, obrigou-a a cortar o cabelo bem curto e depois a dispensou.

Outros registros na lista corroboram um mesmo modus operandi da relação, relatando Epstein como alguém que frequentava a agência de Zampolli constantemente e tinha acessos aos portfólios das modelos.

ZAMPOLLI É ACUSADO POR CRIMES SEXUAIS PELA EX-MULHER, A BRASILEIRA AMANDA UNGARO

Paolo Zampolli foi denunciado em carta que consta ser assinada por Amanda Ungaro, a brasileira com quem Zampolli viveu por 19 anos e com quem tem um filho.

No texto, a ex-modelo afirma que foi testemunha, de acordo com o texto, de vários crimes cometidos pelo ex-marido. Eu testemunhei muitas coisas desde que eu era uma adolescente que se envolveu neste pesadelo. Tenho fotos para provar o

abuso físico que experimentei nas mãos de Paolo. Eu tenho provas de que Paolo começou a tentar namorar comigo quando eu tinha 15 anos de idade, e é verdade que eu estava no avião de Jeffrey Epstein quando adolescente. Tinha apenas 16 anos na primeira vez que fui colocada no avião dele, afirma Amanda Ungaro, que, entre outras acusações, publicou a cópia de uma lista em vôo que afirma ser do avião de Epstein onde consta o nome dela.

A recente entrevista do embaixador de Trump para a RAI, rede italiana, também não resultou em seu afastamento, apesar do teor ofensivo em relação às mulheres brasileiras.

“As mulheres brasileiras causam confusão com todo mundo, certo? Não é que essa foi a primeira, asmulheres brasileiras são programadas”. E foi além ao falar sobre a mãe do seu filho: É uma dessas putas brasileiras, essa raça maldita de brasileiras, são todas iguais. Aquela vaca, estávamos juntos, trepava com ela, depois ela também ficou louca”, afirmou o embaixador.

Contra Paolo Zampolli não há nada na justiça. O empresário não foi indiciado em momento algum como parte das acusações dos crimes cometidos por Epstein.

O UFC NO QUINTAL DE TRUMP E O PRESENTE PARA O PRÓPRIO AGENTE

O grande evento que simboliza as relações entre os empresários próximos a Donald Trump tem data: no próximo dia 14 de junho, o UFC será realizado no gramado da Casa Branca, como parte das comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos.

Desde o início da preparação, Trump tem se movimentado para tomar a data nacional como um festejo MAGA, tendo articulado inclusive a criação de uma agência, a Freedom 250, integrada a Força-Tarefa 250, da Casa Branca, para a promoção das comemorações. Tomando espaço da America 250, criada em 2016 pelo congresso e de caráter bipartidário, sob a coordenação da Comissão do Semiquincentenário dos Estados Unidos.

Muito além dos festejos de independência, a data do UFC na Casa Branca tem algo particular: aniversário de Donald Trump. Assim, com dinheiro do contribuinte americano e instalações do estado, Donald Trump prepara um evento 100% MAGA para se autocelebrar na data de aniversário.

O presente não é apenas para Trump. Milhões em dólares esperam Ari Emanuel, empresário muito próximo ao presidente tendo, inclusive, sido agente do presidente quando ele era estrela da série de TV O Aprendiz.

O UFC é propriedade do TKO Group, que, por sua vez, é parte do Endeavor Group, ambos tendo Ari Emanuel como sócio majoritário.

Milhões arrecadados com patrocinadores são estimados para o evento. Pacotes para marcas incluindo assentos ao lado do ringue são especulados a preços estratosféricos.

De acordo com reportagem do Wall Street Journal, recentemente o presidente Donald Trump chegou a ligar para juízes federais em socorro a Ari Emanuel, em um caso que a justiça combatia o monopólio na venda de ingressos por parte de empresa ligada ao amigo.

Ari Emanuel também é um dos grandes personagens da Copa do Mundo.

Sua empresa On Location, também do grupo Endeavor, ganhou, em julho de 2024, a concorrência para comercialização dos pacotes de hospitalidade da Copa do Mundo que se aproxima, derrubando décadas de supremacia da Match Hospitality, que por anos deteve esse direito junto à FIFA.

Pacotes de hospitalidade são um dos mais valiosos ativos de comercialização de um Mundial, juntamente com direitos de transmissão.

Apenas mais um negócio MAGA na ação entre amigos em que se transformou a Copa do Mundo marcada desde já pelas relações íntimas e pouco transparentes entre Gianni Infantino e Donald Trump.

OUTRO LADO:

GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS:

Graças à liderança do Presidente Trump, a Copa do Mundo da FIFA de 2026 será, sem dúvida, um dos maiores e mais espetaculares eventos da história da humanidade, atraindo milhões de fãs de todo o mundo para onze cidades-sede nos Estados Unidos. Este será um evento monumental que exige estreita coordenação entre o governo Trump, a FIFA e todos os nossos importantes parceiros federais, estaduais e locais. O Presidente Trump está empenhado em garantir que esta seja não apenas uma experiência incrível para todos os fãs e visitantes, mas também a mais segura da história.

Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca

FIFA:

A reportagem enviou pedido de outro lado através da diretoria de comunicação da entidade, sem obter resposta.

PAOLO ZAMPOLLI:

 Muito obrigado pela sua solicitação. Antes de mais nada, Amanda é a mãe biológica do meu filho; nunca fomos casados. Desejo-lhe tudo de bom em seus projetos e atividades futuras. Não estamos juntos desde 2017. De qualquer forma, em relação ao arquivo de Jeffrey Epstein, meu nome consta lá, assim como o de muitos outros- não há nada mais a acrescentar.

ON LOCATION:

A reportagem enviou pedido de outro lado para a empresa, sem obter resposta.

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Sportlight - COMO TRUMP E INFANTINO TRANSFORMARAM A COPA EM AÇÃO MILIONÁRIA ENTRE AMIGOS