Quando planeja o futuro, Gilcilene Lima de Pontes visualiza caminhões com a logomarca da empresa cortando as rodovias, levando seus produtos a 180 cidades diferentes. Para quem conhece a história da registrense, que cresceu na roça e começou a empreender aos 23 anos, não é difícil acreditar na força de suas palavras. Dona da Gpel Fábrica e Distribuidora, Gilcilene não se dobra frente aos desafios. Hoje com a fábrica instalada dentro do Presídio em Registro, ela tem consciência de sua responsabilidade social e sonha com o crescimento da empresa, mas sempre com os pés no chão e o coração firme na fé.
No dia em que entrei no presídio, passando por um corredor de homens armados, pensei: o que estou fazendo aqui? Mas quando vi aqueles cinco detentos com olhar de esperança, eu compreendi que não era mais sobre mim, que minha empresa tinha um propósito maior, revela a empreendedora – a primeira do Vale do Ribeira a aceitar o convite para instalar a fábrica dentro da penitenciária. Em quatro anos, inúmeras empresas da região recusaram a oferta de mão-de-obra do presídio. Gilcilene não só aceitou a proposta, como conseguiu convencer outro empreendedor a se instalar no espaço ao lado.
No caso de Gilcilene, o convite veio numa fase em que ela enfrentava uma série de dificuldades. Eu não tinha condições financeiras e nem psicológicas para mudar, mas tinha fé. Eu sabia que Deus ia na frente preparando tudo, afirma. O processo de mudança não foi fácil. Foram oito meses até concluir os trâmites burocráticos e a instalação das máquinas no novo espaço. Mas os recursos chegaram na hora certa. Durante a mudança para a penitenciária, o banco liberou a linha de crédito que ela havia solicitado seis anos antes.
Aqui fora eu tinha dois funcionários e produzia 70 fardos de papel higiênico por dia. No presídio, com cinco funcionários, passamos a produzir mil fardos por dia. A matéria-prima que levava quase um ano para acabar, eles usaram em 14 dias, conta Gilcilene. Embora positiva, a expansão também se apresentou como desafio, pois ela não tinha compradores suficientes para escoar a produção.
Aceitei o conselho do diretor do presídio e procurei o Sebrae em busca de orientação. A consultoria me abriu os olhos para rever o valor do produto, já que meus custos haviam diminuído. Foi um divisor de águas, explica. Com preços mais competitivos, ela ampliou o mercado.
A Gilcilene chegou tímida, mas com uma força extraordinária. Já no primeiro atendimento eu percebi o potencial que ela tem como empreendedora, revela a consultora de negócios do Sebrae-SP, Jaqueline Nesthlener. Ela recebeu consultoria, começou a participar dos nossos programas, a investir no marketing e na gestão financeira da empresa. Mais do que isso, a Gilcilene passou a acreditar na própria força e hoje inspira outras mulheres que querem empreender, destaca a consultora.
Formalizada em 2013 e funcionando no presídio desde novembro de 2024, atualmente a Gpel fornece papel higiênico, papel toalha e lençol hospitalar para 49 clientes, entre postos de combustível e restaurantes ao longo da Rodovia Régis Bittencourt entre Miracatu e Curitiba. O objetivo de Gilcilene é expandir a produção e o número de clientes para que seus produtos cheguem às 180 cidades que ela almeja. A curto prazo, a empresária quer construir um depósito com escritório para a fábrica.
A consultora do Sebrae-SP observa que a Gpel apresenta potencial para expansão, desde que esse processo seja conduzido com planejamento, estratégia e organização operacional. A ampliação da operação deve estar alinhada à capacidade produtiva e de entrega da empresa, garantindo qualidade e sustentabilidade no crescimento, afirma Jaqueline.
“A Gilcilene já demonstra um diferencial importante ao desenvolver ações de inclusão socioprodutiva, promovendo oportunidades de ressocialização aos detentos, o que fortalece o posicionamento social da empresa. Há também oportunidades para ampliar práticas de inovação e sustentabilidade, agregando ainda mais valor ao negócio e à marca, ressalta a consultora.
Sebrae Delas
Com uma trajetória marcada por diversas batalhas, Gilcilene acredita que o maior desafio sempre foi conciliar o trabalho com a maternidade. Todo o resto a gente enfrenta, mas deixar os filhos em casa é muito complicado. Mas vejo que tudo o que fiz e ainda faço também é por eles, afirma a empresária, mãe de André e Vitória, hoje com 17 e 9 anos, respectivamente.
No Sebrae-SP, ela encontra oportunidades para networking e consultoria sempre que necessita de orientação, além de ser exemplo de inspiração para outras empreendedoras. No dia 18 de junho, Gilcilene Pontes será uma das convidadas a contar sua história no Encontro Sebrae Delas em Registro.
Com o tema “Antes de empreendedora, mulher: o equilíbrio que sustenta de tudo”, o evento gratuito será realizado no auditório do Senai, a partir das 18h30. As inscrições devem ser feitas pelo link.