O Sebrae-SP reconheceu, por meio do Prêmio Educador Transformador, uma iniciativa educacional que vem contribuindo para ampliar o acesso de jovens da rede pública ao ensino superior a partir da ciência, do protagonismo juvenil e da educação empreendedora. O professor Fábio de Lima Leite conquistou o 2º lugar na categoria Inovação Pedagógica e Metodologias Ativas com o Programa Futuro Cientista (PFC), desenvolvido em escolas públicas e certificado como tecnologia social de amplo alcance e baixo custo.
Criado em 2010, o Programa Futuro Cientista (@programafuturocientista) tem como objetivo reduzir a desigualdade existente entre os sistemas público e privado de ensino básico e contribuir para que estudantes da rede pública cheguem ao ensino superior. A iniciativa atua de forma continuada, acompanhando alunos a partir do 6º ano do ensino fundamental até a conclusão de sua trajetória educacional, com foco no desenvolvimento científico, na autonomia intelectual e na construção de um projeto de vida.
À frente do PFC está Fábio de Lima Leite, diretor-presidente do programa e docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba. A proposta reconhecida pelo Sebrae-SP está diretamente ligada à sua própria história de vida e às experiências que moldaram sua atuação como educador.
Uma trajetória marcada pela curiosidade e pela escolha da educação
Desde a infância, Fábio demonstrava interesse pela ciência e pela experimentação. Eu acreditava realmente que era possível montar uma máquina do tempo, relembra. Aos 11 anos, reuniu outras 44 crianças do bairro onde morava e criou um clube de ciência chamado Equipe Einstein. Inspirada no filme De Volta para o Futuro, a tentativa de construir uma máquina do tempo terminou em um curto-circuito que queimou os poucos eletrodomésticos da casa da família.
O episódio ganhou um significado ainda mais profundo dentro do contexto familiar. Fábio tinha um irmão mais velho que, sem acesso a oportunidades, acabou se envolvendo com drogas, sendo posteriormente preso. O receio de que o filho mais novo seguisse o mesmo caminho fez com que o pai, mecânico e com apenas a primeira série do ensino fundamental, enxergasse na curiosidade científica do caçula uma alternativa de futuro.
Ele podia ter reagido de forma dura, mas fez exatamente o contrário. Disse: Eu prefiro você aqui tentando fazer alguma coisa do que na rua fazendo besteira, conta. Meu pai é o meu exemplo. Um homem que só estudou até a primeira série conseguiu colocar o filho dentro de uma universidade.
Essa vivência pessoal foi decisiva para o surgimento do Programa Futuro Cientista. Quando você convive com alguém que não teve oportunidades e vê onde isso pode levar, você entende o peso que a educação tem, afirma. Uma das coisas que faz a gente chegar ao fim da vida e pensar valeu a pena? é fazer alguma coisa útil para alguém. Não precisa ser para muita gente. Pode ser para alguém.
Como funciona o Programa Futuro Cientista
O Programa Futuro Cientista é classificado como uma tecnologia social certificada pela Fundação Banco do Brasil e atua em escolas públicas estaduais e municipais, além de unidades de acolhimento institucional. A proposta central é adotar cientificamente estudantes de baixa renda com perfil e potencial para se desenvolver na ciência, investindo em sua formação ao longo de todo o percurso escolar.
O acompanhamento começa no 6º ano do ensino fundamental II e segue até o momento em que o estudante conclui seus estudos ou ingressa no ensino superior. Esse percurso é estruturado a partir do chamado Plano de Vida do PFC, que organiza as atividades pedagógicas e formativas desenvolvidas ao longo do ano letivo.
Entre as principais ações do programa estão:
Clube de Ciências, realizado semestralmente, em que os estudantes desenvolvem projetos científicos em grupo;
Clube do Livro, voltado ao incentivo à leitura e à formação crítica;
Concurso Literário, com produção individual de textos;
Maratona Científica, atividade on-line de caráter individual;
Escola Preparatória de Futuros Cientistas, uma imersão que aproxima os estudantes da rotina acadêmica por meio de minicursos, oficinas, palestras e dinâmicas científicas.
As atividades são acompanhadas por uma equipe formada por cerca de 30 integrantes, entre estagiários, supervisores municipais e docentes da rede pública. No Clube de Ciências, os estudantes apresentam os projetos desenvolvidos no Encontro Regional de Futuros Cientistas, realizado na UFSCar, campus Sorocaba, onde os trabalhos são avaliados por pesquisadores e professores universitários.
O nosso plano inicial se chama cientista empreendedor. Não é só cientista, explica Fábio. O aluno recebe um projeto de ciência e precisa correr atrás, ser autodidata. O supervisor orienta, mas quem faz o projeto é o estudante.
Impacto e alcance
Atualmente, o Programa Futuro Cientista está presente em mais de 50 escolas da rede pública e atua em 11 municípios do estado de São Paulo: Capela do Alto, Cesário Lange, Iperó, Mirassol, Guareí, Salto, São Roque, Tatuí, Corumbataí, Rio Claro e Juquiá. A iniciativa atende mais de mil estudantes e acompanha os alunos desde o 6º ano do ensino fundamental até a conclusão de sua trajetória educacional, com o objetivo central de ampliar as chances de ingresso no ensino superior.
O objetivo central é fazer esse aluno chegar à universidade, afirma. A ciência é o meio, mas o que a gente quer é garantir que ele tenha condições de escolher outro futuro.
Fábio faz questão de destacar o trabalho coletivo por trás da iniciativa. Sem essa equipe eu não faço nada. Esse prêmio não é só meu, é de todo mundo que trabalha comigo, ressalta.
Reconhecimento que impulsiona
Mesmo diante dos resultados alcançados, o professor conta que não esperava chegar ao pódio do Prêmio Educador Transformador.
Eu achei que não ia passar nem para a fase estadual. Sempre vi meu projeto como muito social, relata. A surpresa veio com o anúncio do segundo lugar. Eu fiz uma festa e chamei meus alunos. Foi uma grande conquista.
Para ele, o reconhecimento do Sebrae-SP representa mais do que visibilidade. É uma propulsão, uma motivação para continuar. Mostra que o projeto gera impacto, afirma. Quando vem um prêmio desse, dá mais força para seguir, mesmo com todas as dificuldades.
Segundo o educador, o prêmio também abriu novas possibilidades de expansão. Estou levando o projeto para mais cidades e dialogando com diferentes atores. Se eu encontrar qualquer professor que tenha uma iniciativa, eu digo: participe. Isso motiva.
Para o Sebrae-SP, iniciativas como essa mostram como a educação empreendedora pode transformar trajetórias desde cedo. O trabalho desenvolvido pelo professor Fábio mostra que a educação empreendedora começa muito antes do mercado. Começa quando o estudante passa a enxergar possibilidades, a construir um projeto de vida e a acreditar que pode ir além da realidade em que nasceu. É esse tipo de iniciativa, com impacto concreto e visão de futuro, que o Sebrae-SP busca reconhecer e fortalecer, destaca Alexandre Martins, gerente regional do Sebrae-SP.
A entrega oficial do prêmio ocorrerá no dia 12 de junho, durante o Seminário de Educação Empreendedora, realizado dentro da programação do MOBI, na Universidade de Sorocaba (Uniso). Na ocasião, o professor Fábio de Lima Leite receberá o reconhecimento das mãos de Isabel Janaina Soares, analista de negócios e gestora de Educação Empreendedora do Sebrae-SP em Sorocaba.
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