Entre bancadas de exposição, conversas cruzadas e mãos que explicavam processos com orgulho, a Semana Todos por Elas Mulheres que Transformam Negócios, promovida pelo Sebrae-SP, revelou muito mais do que oficinas e palestras. Ao longo de cinco dias, entre 23 e 27 de março, a iniciativa percorreu diferentes municípios da região com uma programação gratuita que combinou capacitações, palestras temáticas e encontros de negócios, criando ambientes de troca, aprendizado e fortalecimento do empreendedorismo feminino.
A proposta da ação foi estimular conexões, compartilhar conhecimento e dar visibilidade a mulheres que empreendem em diferentes estágios de suas jornadas, desde aquelas que estão estruturando as primeiras ideias até empresárias com negócios já consolidados. Em cada cidade, os encontros funcionaram como espaços de escuta e construção coletiva, reforçando o empreendedorismo feminino como instrumento de autonomia, geração de renda e desenvolvimento local.
A abertura da semana, em Itapetininga, ocorreu na Secretaria da Mulher e já sinalizou a força da iniciativa. Mais do que marcar o início oficial da programação, o primeiro encontro se transformou em um ambiente de acolhimento e troca genuína, no qual histórias pessoais se misturaram a estratégias de negócio e experiências de vida ganharam valor como conhecimento compartilhado.
Na feira que integrou a programação local, duas trajetórias chamaram a atenção pela profundidade dos relatos e pela forma como o empreendedorismo surge como um processo de reinvenção, não apenas como alternativa econômica, mas como expressão de identidade, território e transformação.
Da terra às mãos: o saber ancestral transformado em biojoias
Sentada atrás de colares, pulseiras e brincos que carregam cores improváveis, texturas orgânicas e brilho natural, Berta Pereira, conhecida como Branca Berta Artesã (@brancaberta), conta sua história com a calma de quem domina cada etapa do processo. Há três anos, ela trabalha com biojoias produzidas artesanalmente a partir de sementes, cocos e madeiras brasileiras, como açaí, guapuruvu, jatobá, jacarandá e bambu.
A entrada nesse universo veio por meio de um curso oferecido pelo Sindicato Rural, em parceria com o Sebrae-SP, no bairro do Gramadinho, onde mora. A bijuteria comum já estava muito batida. A biojoia é natural, sustentável, não se perde. Eu me identifiquei, resume.
Nada ali é comprado pronto. Branca prepara tudo em casa, em um processo que mistura técnica, paciência e conhecimento acumulado ao longo dos anos. O açaí, que antes ela adquiria já tratado, hoje passa por todas as etapas em suas mãos: pintura, secagem, lixamento, polimento e furação.
O coco exige ainda mais cuidado: retirada da casca grossa no esmeril, corte, novo lixamento, tratamento antifúngico e acabamento final. Cada peça recebe atenção minuciosa até chegar ao brilho e à textura desejados.
Parte desse saber vem da prática cotidiana e da relação antiga com a matéria-prima; outra parte foi aprimorada com orientações acessadas em capacitações e encontros promovidos pelo Sebrae-SP, especialmente no que diz respeito à apresentação dos produtos e às informações repassadas às clientes.
O conhecimento sobre sementes não surgiu do nada. Antes de empreender, Branca viveu por dez anos em uma fazenda na região, onde trabalhou como caseira. Ali, conheceu espécies como a juçara parente do açaí, mas com características próprias e construiu uma relação direta com a matéria-prima que hoje sustenta seu negócio.
Todas as sementes passam por tratamento. Depois, podem ser conservadas com óleo mineral ou até óleo corporal. O segredo é guardar bem, longe da umidade, explica, enquanto orienta clientes sobre os cuidados que acompanham cada colar. Essas informações hoje seguem impressas junto às peças, prática adotada após uma capacitação online com consultoras do Sebrae.
Antes das biojoias, Branca já havia empreendido. Em São Paulo, trabalhou por anos com costura de lingerie. A mudança para Itapetininga, após a morte da mãe, somada à transformação do mercado, com a popularização de peças industrializadas, a levou a buscar outro caminho. Eu precisei me reinventar. E foi aqui que me encontrei.
Hoje, além das biojoias, ela também produz tiaras, laços e arranjos com pedras naturais. Vende em feiras e por encomenda, principalmente pelas redes sociais. O que quebra, eu reaproveito. Sempre dá para transformar em outra coisa.
Sabores que contam histórias: tradição, território e identidade
No estande ao lado, garrafas cuidadosamente rotuladas chamam atenção não apenas pelos sabores, mas pelas histórias que carregam. À frente da Cachaças Horizonte (@cachacas_horizonte), negócio de cachaças e licores artesanais, está Maria Izilda Maldonado, empreendedora de Itapetininga que há mais de 15 anos trabalha com produção totalmente natural, sem conservantes, corantes ou aromatizantes artificiais.
Cada licor começa na escolha da matéria-prima e na relação direta com o território. Chocolate, café, coco, amendoim, banana e maracujá entram nas receitas a partir de cachaça de alambique, formando combinações que preservam o sabor original dos ingredientes. Parte deles é cultivada na própria chácara da família; outra parte vem de produtores locais. Esse dinheiro circula aqui na região, destaca, ao explicar que a produção também fortalece a economia do entorno.
A origem do negócio está na memória afetiva. O licor de figo, receita de família herdada dos avós, descendentes de portugueses e espanhóis, foi o ponto de partida. No início, a produção era feita apenas para presentear. Com o tempo, a dificuldade de encontrar licores realmente naturais no mercado despertou o desejo de transformar a tradição em negócio, sem abrir mão da autonomia criativa. Nenhuma fórmula é seguida à risca. Eu adapto tudo. Faço do meu jeito, para o meu paladar. Por isso, não tem igual.
Essa lógica de autoria e pertencimento também se estende às embalagens, pensadas como uma forma de contar histórias junto com o produto. Maria enxergou nos rótulos uma oportunidade de conectar os sabores à memória e à identidade da cidade. Algumas garrafas trazem QR Codes que ampliam a experiência de quem compra: em uma cachaça dedicada aos tropeiros, o código leva a um vídeo de cerca de sete minutos que narra a história do tropeirismo na região; em outro rótulo, o QR Code direciona para a música Sampa, de Caetano Veloso.
Teve pai que comprou e a criança foi direto no QR Code. Acabou aprendendo sobre a cidade onde nasceu, conta. A proposta é fazer com que cada garrafa carregue não apenas um produto artesanal, mas também um fragmento da história local.
O reconhecimento veio também de fora da cidade. Em um festival do setor realizado em Barretos, que reuniu dezenas de cachaçarias, o negócio conquistou o quarto lugar, reforçando a qualidade técnica e o cuidado artesanal da produção.
Quando o microfone muda de mãos
Em Salto de Pirapora, onde o evento foi realizado no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), a edição do Todos por Elas se destacou pela diversidade de atividades e pelo clima de engajamento coletivo. Além da programação de palestras e dinâmicas, o encontro contou com uma feira de empreendedoras locais e uma série de sorteios realizados ao longo do evento. As ações foram viabilizadas pelas próprias expositoras, que contribuíram com brindes e produtos, e por parceiros como o Sicredi. A programação incluiu ainda um momento de acolhimento, com a distribuição de sorvetes para as participantes pela Verão Vivo Sorveteria.
Entre as expositoras, um dos momentos mais marcantes surgiu de forma espontânea. Durante o evento, Melissa Abdala, empreendedora à frente da Lolali Saboneteria Artesanal (@lolalisaboneteriaartesanal), pediu a palavra para compartilhar sua trajetória e agradecer o apoio recebido ao longo do último ano.
Há 11 anos produzindo sabão artesanal, Melissa contou que, por muito tempo, conciliou a atividade com outras rotinas de trabalho. A virada aconteceu após participar de uma feira em São Paulo, experiência viabilizada com apoio do Sebrae-SP, que reuniu empreendedoras da região em uma visita coletiva. Ali eu entendi que precisava dar um passo a mais, fazer algo meu, relatou.
Ela destacou que o processo de empreender envolve medo, insegurança e muito trabalho além da venda final, mas ressaltou o papel do Sebrae no apoio à formalização do negócio e no fortalecimento da autoconfiança. Foi um divisor de águas para mim. As meninas auxiliaram em tudo para abrir minha empresa, afirmou.
Em sua fala, Melissa também reforçou o protagonismo histórico das mulheres no trabalho, muitas vezes invisibilizado. Mesmo quando a mulher não trabalhava fora, sempre trabalhou muito dentro de casa. O meu produto é simples: sabão para lavar louça, roupa, tapete. Algo que sempre sustentou lares. Hoje, eu levo isso para facilitar a vida de outras mulheres, concluiu, sob aplausos do público.
Durante a semana, a iniciativa ainda percorreu municípios como Tietê e Salto, finalizando em Sorocaba, com um evento realizado no escritório regional do Sebrae-SP, que reuniu cerca de 45 participantes e oito expositoras.
O encerramento contou com falas de representantes do Sebrae e do poder público, que destacaram o empreendedorismo feminino como instrumento de autonomia, geração de renda e desenvolvimento local.
Quando uma mulher transforma o que sabe em negócio, ela não gera apenas renda. Ela fortalece sua autonomia, valoriza o território onde vive e cria referências para outras mulheres. O Sebrae-SP acredita que apoiar essas trajetórias é investir em desenvolvimento com identidade, propósito e impacto real na vida das pessoas, afirma Alexandre Martins, gerente regional do Sebrae-SP.
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