As chuvas já começaram a dar as caras no inverno do litoral e da Região Metropolitana do Recife. E, com as mudanças climáticas, seguem fortes e difíceis de prever. Nos últimos anos, o Recife tem adotado algumas estratégias do conceito de “cidade esponja”, desenvolvido pelo arquiteto chinês Kongjian Yu falecido no ano passado em um acidente de avião no Pantanal. Uma das estratégias defendidas por Yu eram os parques alagáveis, que ficam em locais sujeitos a inundações ou alagamentos e que retardam a distribuição da água de volta para o rio ou para ruas vizinhas.

O Recife ocupa a 16ª posição mundial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) no ranking das cidades mais vulneráveis à mudança do clima. Ou seja, a população recifense precisa de toda ajuda possível para conviver com suas águas. Os parques alagáveis não são a solução para os alagamentos, mas fazem parte de um pensamento no urbanismo que tenta lidar com soluções desenvolvidas localmente e minimizar os impactos para os moradores.

Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o arquiteto e urbanista Fabiano Diniz, explica que os parques alagáveis dialogam diretamente com uma crítica que Kongjian Yu fazia às soluções de drenagem convencionais. “Vemos os rios, as águas, sobretudo a chuva, a inundação, o alagamento, como coisas negativas, que vêm para nos maltratar. Tem pessoas que ficam com raiva da chuva, com raiva do rio, mas, na verdade, a gente ocupou o espaço do rio”, reflete Diniz, que também integra o grupo de pesquisa Recife Cidade Parque.

Para Yu, encanar e canalizar rios era uma solução pensada para países de clima temperado, com regimes de chuva moderados e não para cidades tropicais como Recife, submetidas a precipitações torrenciais e concentradas. A ideia da “cidade esponja” era justamente o oposto: trabalhar com as condições naturais que existiam antes da urbanização, criando espaços que retenham, filtrem e devolvam a água lentamente ao solo e aos rios.

“A sacada do Kongjian Yu é pegar isso e dizer que as cidades têm que se estruturar a partir disso. Organizar as cidades a partir dessa capacidade de vários lugares cumprirem esse papel de reter as águas. Não somente de reter as águas, mas trazer o homem para perto da natureza, entrar em contato com a água, sem o medo de quem ouve a chuva cair e não consegue dormir à noite”, diz Diniz.

O Recife tem hoje dois parques alagáveis inaugurados: o primeiro, com aproximadamente 3,9 mil m², foi entregue em novembro de 2024 às margens do rio Tejipió, entre os bairros de Areias e Ipsep, com investimento de R$ 2,5 milhões da Autarquia de Urbanização do Recife (URB). O segundo, o Parque Alagável Campo do Barro, foi inaugurado em janeiro de 2026 no bairro do Barro, com mais de 23 mil m² e R$ 3,4 milhões do programa ProMorar, com capacidade para armazenar temporariamente cerca de 1.510 m³ de água. Um terceiro, o Parque Alagável Umuarama, também no Barro, já teve sua licitação publicada, com investimento previsto de R$ 3,8 milhões.

Tecnicamente, os parques alagáveis funcionam como o que os urbanistas chamam de bacias de retenção. Diferentemente das lagoas com lâmina d’água permanente as chamadas bacias de detenção , os parques alagáveis ficam secos na maior parte do ano e acumulam água apenas nos períodos de chuva intensa. A água retida é depois absorvida gradualmente, infiltrando no lençol freático ou sendo encaminhada por tubulações para os rios ou reservatórios.

A água retida também tem potencial de reuso. Os reservatórios subterrâneos podem servir para irrigação do próprio parque em períodos de estiagem, afirma o professor da UFPE. O Recife já possui reservatórios enterrados sob vias públicas uma ideia que, segundo Diniz, não é nova. Ele cita que nos anos 1990 foram instaladas comportas e pequenos reservatórios ao longo do canal da avenida Agamenon Magalhães e que há reservatórios para água também na rua Cardeal Arcoverde, nas Graças.

A opinião de quem mora perto dos parques

A pedido da Marco Zero, a co-fundadora do Fórum Popular do Rio Tejipió (Forte) Géssica Dias preparou um texto sobre a opinião das pessoas que vivem perto dos dois parques alagáveis inaugurados pela prefeitura do Recife. O Forte é um coletivo que reúne mais de 10 lideranças de comunidades da bacia do Tejipió e que já realizou atividades com mais de 200 pessoas da região.

Sobre o Parque Alagável do Ipsep: Por se tratar do primeiro parque alagável sinalizado para a bacia do rio Tejipió, gerou grande expectativa entre os moradores da localidade. No entanto, a falta de informação e de participação da comunidade durante o processo foi um ponto bastante problematizado pelo fórum e pelos próprios moradores à época.

Em grande medida, não se sabia como as obras seriam conduzidas nem quais seriam os resultados concretos esperados, sendo que as poucas informações disponíveis eram acessadas principalmente por meio de notícias na internet. Segundo relatos de moradores, o local onde o parque foi implantado é uma área que praticamente não alaga, enquanto as ruas do entorno continuam sofrendo com recorrentes inundações. Há também percepções de que não houve uma redução significativa dos alagamentos, mas sim uma diferença no tempo de escoamento das águas, que passou a ocorrer de forma mais rápida.

Sobre o Parque Campo do Barro: Moradores relatam que, embora o equipamento exerça a função de represar a água em dias de chuva, seus efeitos têm beneficiado principalmente as áreas mais próximas, especialmente a comunidade do Umuarama, no Barro. Outros moradores avaliam que ainda é cedo para um parecer mais consistente, mas há percepções de que, diante das últimas chuvas, o parque não tem capacidade para suportar grandes volumes de acúmulo.

No que diz respeito ao processo de mobilização, moradores apontam fragilidades que comprometeram a participação nas oficinas de discussão. Muitas pessoas foram informadas em cima da hora – quando foram – o que dificultou a presença e limitou o debate sobre o projeto. Para parte da população, os equipamentos do parque só se tornaram conhecidos no momento da inauguração.

Solo, plantas e equipamentos específicos

Para que um parque alagável funcione bem, o planejamento começa pelo solo. É preciso estudar a permeabilidade do terreno, a topografia, o regime de chuvas e a dinâmica hídrica do entorno. A arquiteta e urbanista Raquel Menezes, do Inovação e Pesquisa para as Cidades (Inciti), afirma que as plantas desses parques precisam ser de espécies adaptadas a ciclos alternados de encharcamento e seca.

“Normalmente em parques que são projetados para ser inundáveis, bacia de detenção, você tem que ter um tratamento de solo adequado para ampliar a permeabilidade da água no solo e o tipo de vegetação que você usa também tem que ser adequada para isso. Tem vegetação que dificulta mais a infiltração da água no solo e tem outras que potencializam isso. Também tem vegetação que não aguenta ficar muito tempo em solo molhado”, explica Raquel. “Tem que ser um parque projetado para ser alagável. Não é algo como ‘aqui tem uma área livre, vai ser uma área alagável agora’. Não é assim que funciona”, diz.

Também não é todo tipo de solo onde é adequado construir um parque alagável. “Se você tem um solo que seja argiloso, a argila dificulta muito a infiltração da água. Ela faz tipo um bloco. Tem tipo de solo que não é adequado para a infiltração. Tem solo mais arenoso, que aí é mais fácil da água infiltrar. Então, isso também precisa ser pensado”, explica a urbanista.

Parque alagável entre Areias e Ipsep foi o primeiro da cidade

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Os equipamentos de lazer devem ser instalados em espaços mais elevados, com passarelas que permitam o uso do parque mesmo quando parte da área está alagada. E a participação da comunidade, dizem os especialistas, é fundamental: os moradores precisam entender o que é o parque, para que serve e como se apropriar dele. “Precisamos acompanhar com muito cuidado, não a partir dos olhos do acadêmico, dos técnicos, mas a partir dos moradores que vivenciam o espaço que o usam para lazer e que vivenciam, durante a cheia, se houve realmente redução dos danos, dos impactos”, afirma Diniz.

Diniz destaca a importância de que esses parques sejam construídos justamente nas áreas mais vulneráveis da cidade. “Aquela região ali, em Tejipió, em Areias, é uma área, do ponto de vista social e ambiental, muito vulnerável, com condições muito difíceis, com terrenos baixos. É uma população que está muito suscetível a esse processo de inundação, onde se concentra a população pobre”, diz. “O parque alagável, além de qualificar o espaço, funciona para o lazer a maior parte do tempo. E estamos discutindo isso dentro de um contexto que, hoje, é de privatização dos parques. Em que medida essa privatização pode ou não pode restringir o acesso a uma população de mais baixa renda, que precisa, do mesmo jeito que os demais moradores, ter acesso a esse tipo de lazer? Então, é muito importante que esses parques cumpram também a função durante o tempo seco”, afirma o pesquisador.

Tamarineira: alagado, não alagável

Quando as chuvas de abril alagaram parte do Parque da Tamarineira, choveram denúncias sobre a falta de drenagem nas redes sociais. Não ironicamente, a vereadora Cida Pedrosa (PCdoB) publicou um vídeo do parque embaixo dágua em que a legenda dizia que o Parque da Tamarineira funciona como área alagável contra enchentes”. Para Fabiano Diniz, a questão precisa ser dita com clareza: o parque alagou, mas não foi projetado para ser alagável. “Ele é um parque que alaga isso a chuva provou. Mas não vou dizer que ele tem um grande potencial para isso. Aquilo ali não parece ter sido pensado”, afirma.

A arquiteta e urbanista Raquel Menezes concorda. Para ela, o que aconteceu tem ligação com o córrego do Jacaré, curso d’água que passava pela área e foi canalizado ou seja, enfiado em uma tubulação subterrânea. “O córrego provavelmente já era a drenagem daquela área do terreno. A água devia estar acumulando naquela parte e continuou acumulando por causa disso. Não é nada estranho. Mas a gente precisa entender que a natureza e o solo têm uma dinâmica própria, e não é um problema assumir isso”, diz.

A crítica ressoa diretamente com o que Kongjian Yu defendia: canalizar córregos é uma solução de infraestrutura cinza, mais adequada a países de clima temperado, que vai contra a dinâmica natural da água em cidades tropicais. “Se a gente vai contra a dinâmica dos elementos da natureza, a gente se enterra. Se fosse o riacho voltando à tona, se houvesse um tratamento mais natural, com vegetação adequada para a área molhada, o parque teria um potencial muito maior, afirma Fabiano Diniz.

Nenhum dos dois urbanistas chegou a ver o projeto do Parque da Tamarineira. Raquel Menezes chegou a procurar o documento, mas não achou. “Essa informação deveria estar facilmente acessível, qualquer pessoa deveria conseguir consultar”, afirma.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura do Recife, em nota, afirmou que o Parque da Tamarineira “é considerado um equipamento naturalizado e auxilia na drenagem do trecho inicial da bacia do Canal do Jacaré”. Segundo a nota, “o parque incorporou áreas de detenção natural, capazes de armazenar temporariamente os volumes de água durante eventos de chuva mais intensos”, e as passarelas elevadas na chamada área da Matinha “foram executadas para garantir acessibilidade aos principais equipamentos e reduzir as superfícies pavimentadas”.

Drenagem do novo parque deveria garantir que pontos baixos naturais não seriam inundados

A explicação contrasta com o que havia sido divulgado pela própria prefeitura na comunicação da inauguração da segunda etapa do parque, em 26 de março de 2026. No texto oficial, a ênfase recaía sobre a drenagem convencional: a prefeitura informava que “foram construídos dois reservatórios com dispositivos de coleta para o encaminhamento adequado das águas pluviais, garantindo a destinação correta da água superficial e evitando sobrecarga na infraestrutura do entorno.” O então prefeito João Campos (PSB) chegou a declarar que “fizemos uma obra de drenagem e um grande reservatório de água para assegurar um espaço confortável, mesmo em dias de chuvas.” Na época da inauguração, não havia menção à possibilidade de alagamento.

Antes mesmo da inauguração, quando a prefeitura lançou a licitação para a segunda etapa, o projeto já previa, além do reservatório principal sob o passeio central, três bacias de infiltração no interior da Matinha, “estrategicamente localizadas nos pontos de maior risco de alagamento, para promover a absorção da água pluvial no próprio solo“, com o objetivo de “garantir que os pontos baixos naturais do parque, que são mais suscetíveis ao acúmulo de água, não sejam inundados.” Ou seja, a própria prefeitura reconhecia que aquela era uma área propensa ao acúmulo de água mas não comunicou isso com clareza ao público.

“O parque acabou de ser inaugurado. É muito natural que em uma obra você tenha um momento de ajustes. Toda obra é isso: quando você começa a usar, quando vêm os primeiros usos, os primeiros eventos, você começa a perceber o que não funciona e vai ajustando. Não é problema nenhum no parque alagar nas primeiras chuvas, diz Raquel Menezes. “O grande problema que houve nessa questão é tentar defender tudo como se fosse maravilhoso e perfeito. A gente costuma dizer sempre que arquitetura e que urbanismo não são matemática. A gente lida com muitas dinâmicas diferentes e não tem como ter uma previsão definitiva do que vai acontecer, acrescenta.

Nota completa da Prefeitura do Recife

O primeiro parque alagável do Recife, com aproximadamente 3,9 mil m², foi entregue em novembro de 2024, com investimento de R$ 2,5 milhões executados pela Autarquia de Urbanização do Recife (URB), e está situado entre os bairros de Areias e Ipsep, às margens do Rio Tejipió. O segundo da cidade, o Parque Alagável Campo do Barro, foi entregue no começo deste ano, no bairro de mesmo nome, e abrange mais de 23 mil m², com R$ 3,4 milhões investidos pelo ProMorar Recife. O espaço tem capacidade de armazenar temporariamente cerca de 1.510 m³ de água, o equivalente a mais de 1,5 mil caixas d’água de 1 mil litros. Na última semana, a gestão publicou, no Diário Oficial, a licitação para a construção do Parque Alagável Umuarama, também no Barro. Com investimento de R$ 3,8 milhões por meio do programa ProMorar, o novo equipamento será o terceiro do tipo na cidade.

Em relação ao Parque da Tamarineira, ele é considerado um equipamento naturalizado e auxilia na drenagem do trecho inicial da bacia do Canal do Jacaré, que integra a macrobacia do Vasco da Gama (Canal do Arruda), área estratégica para o controle de alagamentos na cidade do Recife. Nesse contexto, áreas verdes urbanas desempenham um papel essencial, funcionando como espaços naturais de retenção e amortecimento das águas. Assim, o Parque Tamarineira incorporou áreas de detenção natural, capazes de armazenar temporariamente os volumes de água durante eventos de chuva mais intensos.

Essa estratégia permite reduzir a sobrecarga no sistema de drenagem urbana e diminuir o risco de alagamentos nas vias do entorno. As passarelas elevadas, dentro da área popularmente chamada de Matinha, foram executadas para garantir acessibilidade aos principais equipamentos da Matinha e reduzir as superfícies pavimentadas. Esta solução aumenta a permeabilidade do solo e, em consequência, facilita a absorção das águas da chuva.

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