Na tarde de 29 de outubro de 2022, véspera do segundo turno das eleições, uma rua dos Jardins, em São Paulo, entrou no noticiário político não por causa de um comício, mas por uma corrida. Carla Zambelli, então deputada federal pelo PL, correu atrás do jornalista Luan Araújo com uma arma em punho. Era uma parlamentar eleita e seu segurança armado atrás de um homem negro.
Quase quatro anos depois desse episódio, e após a fuga e a prisão de Zambelli na Itália, a Justiça italiana autorizou nesta quinta-feira, 16 de abril, a extradição de ex-deputada bolsonarista para o Brasil, agora no processo relativo ao porte ilegal de arma de fogo e ao constrangimento ilegal com emprego de arma. Para Luan Araújo, perseguido por ela na véspera das eleições de 2022, a decisão da justiça italiana é o que ela merece, disse à Agência Pública. Meu desejo é que ela continue na cadeia aqui, pois a minha disputa jurídica com ela me deixa com essa dúvida, afirmou.
Luan se refere ao processo que tenta mover contra Zambelli na Justiça de São Paulo por danos morais, como a Pública mostrou nesta reportagem. Desde dezembro de 2025, Luan pôs no ar uma vaquinha para arrecadar R$ 30 mil e cobrir as custas dessa ação por danos morais contra Zambelli. Ele pede R$ 2 milhões em indenização. A Justiça de São Paulo negou a gratuidade judicial para Araújo. Seu rendimento, inferior a R$ 3,8 mil mensais, foi considerado suficiente para custear o processo. Ele afirma, no entanto, que a conta não fecha no cotidiano de quem está desempregado e tendo de aumentar a medicação para ansiedade e depressão, como consequência do trauma de 2022.
Entenda o caso
A decisão da justiça italiana representa a segunda sentença favorável à extradição da ex-deputada. Desta vez, a Corte de Apelação de Roma tratou especificamente do caso da perseguição armada de 2022, envolvendo Luan Araújo, que foi analisado separadamente do processo da invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2023.
Em maio de 2025, Carla Zambelli foi condenada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF, a dez anos de prisão em regime fechado, por orquestrar a invasão ao sistema do CNJ. A operação, realizada pelo hacker Walter Delgatti Neto, resultou na inserção de documentos falsos, incluindo um mandado de prisão fraudulento contra o ministro Alexandre de Moraes, também do STF. A condenação ainda determinou multa milionária, perda do mandato e inelegibilidade por oito anos.
Após a condenação, Zambelli fugiu do Brasil pela fronteira com a Argentina em maio de 2025, seguindo para os Estados Unidos e, depois, para a Itália, país onde possui cidadania. Seu nome foi incluído na lista vermelha da Interpol, tornando-a procurada internacionalmente. Em 29 de julho de 2025, foi presa na Itália, onde aguardava a decisão sobre sua extradição ao Brasil. Zambelli renunciou ao cargo de deputada federal para não ser cassada em dezembro de 2025.
Agora, o pedido brasileiro de extradição passou a contar com dois pronunciamentos favoráveis a duas condenações distintas sofridas pela ex-deputada no Brasil. No julgamento referente ao episódio da arma, o STF condenou Zambelli por 9 votos a 2, em decisão relatada pelo ministro Gilmar Mendes. A nova manifestação da corte italiana amplia o escopo do pedido extradicional para além do caso do CNJ. Ainda assim, a extradição não é imediata. A defesa de Zambelli ainda pode recorrer à Corte de Cassação, última instância do Judiciário italiano, e, se os entendimentos forem mantidos, a palavra final caberá ao ministro da Justiça da Itália.
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