Era 21 de dezembro de 2025, final da Copa do Brasil, o Corinthians estava na final e eu doidinha para assistir o jogo. Antes de saber da partida, já tinha combinado de fazer trilha até uma cachoeira com alguns amigos, em Paranapiacaba, Santo André, na Grande São Paulo. Tudo certo: o jogo só era à noite, o dia estava ensolarado e ia dar tempo.

Ao menos era o que eu achava. Na volta, faltando a última hora da trilha, fiz a artimanha de tentar atravessar um tronco de árvore sem enxergar que tinha embaixo. Resultado? Torci o tornozelo direito. O sentimento foi exatamente o dos desenhos animados, em que o personagem leva uma marretada e vê estrelinhas! A dor foi tamanha que cheguei a pensar que meus ancestrais estariam vindo me buscar.

Mas não. Respirei fundo e vi que ainda estava com os pés na terra (literalmente) e precisava urgente ir embora. A trilha era estreita, meus amigos carregaram minha mochila e eu, como uma boa guerreira, usei um pedaço de madeira e atravessei o barro, a lama, o mato, o brejo e o que mais tivesse pela frente. Não dava pra esperar o sangue esfriar, não dava para correr o risco de anoitecer.

Rafaela de muletas em frente a Unesp de Bauru @Arquivo pessoal/Divulgação

Saindo de lá o jogo já estava começando e até tentei assistir o primeiro tempo em um boteco, mas a dor e o inchaço aumentaram e fui parar em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Rio Grande da Serra.

Nunca pensei que um dia fosse assistir uma final no hospital, muito menos de cadeira de rodas (dá pra dizer que também dei o sangue pelo Timão?). Vencemos por 2 a 1 e cheguei em casa com o título da Copa do Brasil, uma lesão ligamentar grau 2 e uma série de novos desafios que nem imaginava.

Foram quase dois meses de gesso, muleta e tornozeleira. Agitada como sou, saí de São Mateus, no extremo leste de São Paulo, e fui para Piraporinha, na zona sul, depois para Bauru, no interior do estado, e até para o Rio de Janeiro. E foi só aí que passei a enxergar realmente os problemas de acessibilidade da cidade.

Nas andanças (temporárias) de muleta, me indignei por precisar pegar dois elevadores e atravessar uma imensa plataforma para fazer baldeação da Linha 15 Prata para a Linha 2 Verde, na Vila Prudente. Reparei como o elevador da estação Santo Amaro, na Linha 5 Lilás, só é realmente acessível para quem estiver no primeiro vagão (a plataforma é muito estreita e no meio de uma multidão fica difícil chegar até lá).

Fiquei apreensiva com os motoristas de carros, que raramente têm paciência de esperar alguém com mobilidade reduzida atravessar na faixa de pedestres, e ganhei calos nas mãos ao ter que subir de muletas as escadas das estações de metrô Tatuapé e República, na Linha 3 Vermelha, já que não havia elevadores funcionando.

Somente na estação Pinheiros, da Linha 4 Amarela, recebi ajuda de funcionários do metrô para me locomover – e ainda os assisti discutirem com pessoas que tentavam furar a fila preferencial.

Magno Borges/Agência Mural

Fora do transporte público, subir rampas, ladeiras e morros das quebradas é um desafio enorme de muletas. No meu bairro, no Jardim da Conquista, em São Mateus, as calçadas são quase inexistentes e os morros íngremes e as ruas estreitas me fizeram imaginar: como é possível que um cadeirante tenha garantido seu direito de ir e vir?

Me lembrei do David, um colega que estudou na mesma escola que eu. Ele era cadeirante e passou oito anos do ensino fundamental na mesma sala de aula, porque era a única que se podia acessar sem subir escadas. Ele não chegou nem a conhecer todo espaço da escola.

Sempre fui a favor de políticas de acessibilidade, mas não conhecia a real importância. Sem depender de rampas, elevadores e faróis de pedestre, esses equipamentos fundamentais passavam despercebidos no meio da minha correria paulistana – não mais para mim.

Saí dessa experiência com mais que calos nas mãos e indignação pela falta de infraestrutura para pessoas com deficiência: tenho também uma proposta! E se todo governante que fosse criar uma política pública de deslocamento urbano também passasse dois meses de muletas no transporte público?

Agência Mural

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