Em 2021, Hemerson Morais, 52, morador de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, conheceu uma artista da quebrada que havia ganhado destaque na mídia por trabalhar na área da construção civil. A narrativa construída pela imprensa deixou de lado um detalhe importante: as obras de arte eram feitas com restos de materiais de construção, durante o intervalo de almoço no trabalho.

Lembro dela construir esculturas com restos de materiais das construções. Eram peças lindas, mas a mídia não deu atenção para isso na época, relata Hemerson. A abordagem da imprensa focou no fato de ela ser uma mulher trabalhando em uma área dominada por homens. Jornais e blogs deram a ela a alcunha de pedreira gata.

Hemerson criou na laje de onde mora a galeria Favelarte Suburbana @Arquivo pessoal/Divulgação

Segundo Hemerson, a situação acabou afetando a artista. Ser reconhecida pelas características físicas e não pelo seu trabalho, fez com que ela entrasse em um processo de tristeza profunda. Não teve reconhecimento da obra, e isso fez com que quebrasse todas as artes. Não sobrou nenhuma, conta.

Foi aí que ele teve um insight: criar um espaço onde ela pudesse expor seus trabalhos. Foi daí que nasceu a ideia da Favelarte Galeria Suburbana, conta.  

Apesar de o espaço ter sido inspirado na artista, ela não chegou a expor as obras. Com o tempo, se afastou da produção artística e acabou destruindo tudo o que havia criado. Fiquei triste e não consegui convencê-la a voltar a produzir, relembra.

Espaço da galeria Favelarte Suburbana com obras de vários artistas @Glória Maria/Agência Mural

Antes da criação da galeria e de se dedicar diretamente à arte, Hemerson, formado em contabilidade e em análise e desenvolvimento de sistemas, juntou dinheiro para construir uma laje em sua casa, onde mora com a mãe, Odete Santana, 72. Ela também mantém uma relação com a arte por meio da costura.

Ele já imaginava que o novo espaço da casa pudesse se tornar um local voltado para expor trabalhos de artistas da região.

O segundo passo rumo à criação da galeria foi o lançamento, em agosto de 2023, do ‘Favela Podcast’, onde passou a entrevistar lideranças locais, artistas e outros moradores do território. Nesse processo, conheceu artistas e encontrou quem abraçasse a ideia.

‘Fui montando a galeria no boca a boca. Falei com um artista, ele falou com outro, e assim foram chegando mais artistas’

Hemerson, morador de Paraisópolis

Quando o espaço foi inaugurado, em dezembro de 2024, já contava com 40 parceiros e quase 200 obras.

Inicialmente, a galeria reunia apenas artistas de São Paulo. Hoje, conta também com nomes de outros estados, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás. A ‘Favelarte’ também passou a circular internacionalmente.

Já fizemos cinco exposições de artistas periféricos de países de língua espanhola, incluindo México, Chile, Argentina, Colômbia e Espanha. Nessas exposições recebemos certificações internacionais, o que ajuda muito no portfólio dos artistas.

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O acervo de 2026 é composto por ao menos 180 obras, produzidas por 36 artistas. Há pinturas que retratam Nossa Senhora da Favela, representações de Jesus negro, pinturas psicodélicas e obras feitas com linhas que formam figuras geométricas e mandalas.

As peças – incluindo roupas e figurinos artísticos – ficam expostas nas paredes da laje, um espaço amplo que contrasta com partes ainda sem reboco e com estruturas de madeira. O local também conta com um banheiro, onde há sprays disponíveis para quem quiser deixar uma arte na parede.

‘Nosso espaço atua na valorização da arte produzida por artistas periféricos, criando pontes entre artistas da favela e o circuito artístico nacional e internacional’

Parcerias e trabalho social

Atualmente, a galeria conta com parcerias, como a do Instituto Gabriel Wickbold, que apoia na profissionalização de artistas, oferecendo workshops e ajudando-os a compreender o mercado da arte. Diferente de outras galerias, que expõem por 15 ou 20 dias ou um mês, aqui o artista fica pelo tempo que achar interessante ou até vender a obra.

A frente da casa do Hemerson com diversos grafites @Glória Maria/Agência Mural

Além das exposições e do espaço cultural aberto e gratuito para a comunidade, o local também se tornou um ponto de encontro cultural e recebe shows de hip hop, rock e saraus, além de oficinas de arte para crianças de escolas da região. As atividades já atenderam cerca de 200 crianças.

Fechamos recentemente uma parceria com uma instituição da Igreja Católica que atende mais de 1.200 crianças em situação de vulnerabilidade. Vamos oferecer oficinas de pintura, colagem, recorte de papel e também atividades sensoriais, música e meditação, afirma.

Algumas obras expostas são de artistas internacionais @Glória Maria/Agência Mural

Uma experiência marcante reforçou para ele a importância do projeto. Uma vez uma criança olhou para um quadro e perguntou: tio, isso aqui é de rico? Aí tive ainda mais vontade de trabalhar para mostrar que arte também pertence à quebrada.

Hemerson diz ser apaixonado por viver a arte todos os dias e por manter um ponto cultural dentro da comunidade. Às vezes fico triste, porque somos humanos, mas quando subo aqui e vejo tudo isso, penso que sou rico. Trabalhar com artistas é uma riqueza espiritual. A arte é uma linguagem infinita, que conversa com o mundo inteiro.

Hoje, ele mantém o espaço com recursos próprios. Meu sonho é ampliar, construir mais dois salões e transformar todo o prédio em uma galeria e centro cultural.

Agência Mural

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