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No dia 25 de março, um tribunal do Júri em Los Angeles na Califórnia, condenou a Meta, dona do Facebook e Instagram, e o Google, empresa dona do YouTube, a pagarem indenizações milionárias para uma jovem que sofreu enormes danos mentais e chegou a ter pensamentos suicidas por seu uso de redes sociais. A Meta vai ter que pagar uma indenização de US$ 4,2 milhões, enquanto o Google vai pagar US$ 1,8 milhão. Ambas as empresas dizem que vão recorrer da decisão.

A decisão é histórica porque solidifica um entendimento na Justiça americana a respeito da responsabilidade objetiva de executivos destas empresas sobre decisões de design que levam a uma dependência de jovens e adolescentes em relação às ferramentas que elas oferecem. Mais do que isso, é histórica porque foi decidida por um júri, formado por cidadãos americanos, sete mulheres e cinco homens. O que se pode esperar a partir de agora é uma avalanche de processos semelhantes em todas as cortes americanas e, oxalá, no mundo todo.

Por isso resolvi tomar um tempo mais longo para ler a rica documentação que foi produzida pelo caso, e que prova, além de qualquer dúvida, que executivos destas empresas (e também e Snapchat e TikTok, que fecharam acordos extra-judiciais) sabiam muito bem que suas redes sociais eram viciantes para crianças e adolescentes, e dobraram a aposta.

A leitura destes documentos (você pode lê-los aqui neste compilado do Tech Oversight Project) é chocante, uma demonstração de como se dá na prática as decisões que levam a prejuízos reais na vida de milhões de pessoas, como a moralidade inexiste dentro de debates internos em uma empresa ultra-capitalista. Uma demonstração da banalidade do mal dentro das Big Techs.

Separei para esta coluna alguns documentos que valem a leitura.

Um relatório interno, de novembro de 2018, chamado Retenção de Longo Prazo: Os Mais Jovens São os Melhores e Outros Aprendizados descreve com detalhes como os pré-adolescentes são aqueles que se tornam usuários por mais longo prazo. Pré-adolescentes são especiais. As pessoas que entram no Facebook com 11 ou 12 anos são as que têm mais tempo de retenção dentre todos os grupos. O estudo demonstra que uma pessoa que entrou no Facebook aos 12 anos tem 3x mais chance de permanecer na plataforma por longo tempo do que uma pessoa que entrou aos 32 anos. O relatório recomenda como ações prioritárias: O Facebook como um todo deveria considerar investir mais pesado em trazer adolescentes em maiores números; e para a equipe de juventude, priorizar os pré-adolescentes sobre todos os outros grupos de idade.

Outro documento, do mesmo ano, descreve em detalhes um programa elaborado pela empresa nos EUA que pretendia usar adolescentes como embaixadores da marca em 5 regiões americanas, funcionado como contato em escolas de ensino médio. Esses embaixadores participariam de grupos que receberiam 5 desafios mensais para propagandear novos produtos e ferramentas, e em troca receberiam Gift Cards da Amazon e acesso privilegiado a novos produtos digitais.

Há um terceiro relatório que chamou minha atenção (e embrulhou meu estômago) e que vale a leitura para qualquer um que se interesse a entender como o uso de redes sociais afeta os adolescentes. Trata-se de uma pesquisa encomendada pela própria Meta, com foco em Saúde Mental de adolescentes no Instagram. A pesquisa, de agosto/setembro de 2019, é interna e marcada como altamente confidencial.

A pesquisa foi realizada com adolescentes entre 13 e 18 anos de Los Angeles e Londres, através de grupos focais e ligações posteriores. O que eles descobriram, segundo a própria empresa?

  • O Instagram é um componente inevitável e inescapável da vida de adolescentes. Os adolescentes não conseguem sair do Instagram mesmo se quiserem
  • O Instagram define o padrão não apenas sobre como os adolescentes devem parecer ou agir, mas também como devem pensar e sentir. 
  • Adolescentes veem o Instagram em termos de uma narrativa de viciado: passam tempo demais adotando um comportamento compulsivo, que eles sabem que é negativo mas se sentem impotentes para resistir. 
  • A pressão por estar presente e ser perfeito é uma característica definidora da ansiedade que adolescentes sentem no Instagram. Isso restringe sua habilidade de ser emocionalmente honesto e criar espaços para que possam desligar. 

E por aí vai. Há ainda comunicações internas assustadoras, como uma discussão interna no canal corporativo na qual os funcionários discutem o fato de que eles atuam como traficantes de drogas. Oh meu deus, Instagram é basicamente uma droga. LOL quero dizer, todas as redes sociais. Nós somos basicamente fornecedores, diz um funcionário.

Os documentos relativos ao YouTube, disponibilizados ao longo do processo judicial, vão na mesma toada. Um relatório interno de 2025, celebra o fato de que a plataforma é vista como melhor do que seus concorrentes as outras redes sociais.

Nosso princípio fundamental é que o YouTube deve ser algo positivo na vida dos adolescentes, que deve ser um tempo bem gasto. A boa notícia: em meio ao debate acalorado sobre o impacto das redes sociais no bem-estar dos adolescentes (ex: rótulos de alerta propostos pelo Cirurgião-Geral dos EUA) e com regulamentações em rápida evolução, o YouTube é visto como mais positivo do que os concorrentes pelos adolescentes, pelos pais e outros atores importantes, porque os adolescentes podem se aprofundar para explorar e aprender. Entretanto, diz o estudo, ainda temos trabalho a fazer em relação aos dois maiores desafios para o bem-estar dos adolescentes no YouTube: (1) conteúdo de baixa qualidade e recomendações que podem transmitir e normalizar crenças ou comportamentos não saudáveis; (2) uso prolongado e não intencional que desloca atividades valiosas como tempo com amigos ou sono. O problema é maior em conteúdos curtos, como os shorts, e na experiência de feed infinito.

Não à toa, o feed infinito em redes sociais é uma das tecnologias vedadas pelo ECA digital, que entrou em vigor há apenas duas semanas. As batalhas em torno desta legislação aqui no Brasil que tornou-se inevitável depois do vídeo de denúncia sobre adultização nas redes sociais feito pelo influenciador Felca em agosto do ano passado demonstra que muitos dos aspectos avaliados no julgamento em Los Angeles têm repercussão que ultrapassam os limites norte-americanos. Se a sociedade civil e os cidadãos de diferentes países fizerem a lição de casa e articularem processos judiciais semelhantes fora dos EUA, o julgamento de 25 de março de 2026 pode muito bem ser um marco histórico, denotando o ponto inicial do fim de uma era de faroeste digital.

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