Há 15 anos, um grupo de jovens da Paróquia Nossa Aparecida, na Vila Nhocuné, distrito de Artur Alvim, zona leste de São Paulo, encontrou um jeito novo de falar de fé para os jovens. A gente queria trazer os jovens da quebrada pra dentro da igreja, evangelizar através da dança, conta Felipe de Oliveira, 30, um dos fundadores Família S.O.G (Soldiers of God).
O grupo usa a batida e a poesia do hip-hop como um instrumento de evangelização. Composto por David Carvalho, Emanuel Fernandes, Felipe Oliveira e Otávio Henrique, elesdesejam mostrar que a linguagem de resistência das ruas também é uma ferramenta de fé.
O início ocorreu em 2010, durante a preparação para a Crisma (sacramento da igreja católica que confirma o batismo). Depois que fomos em uma balada católica chamada ‘Cristoteca’, na região do Brás, e vimos uma galera dançando break, pensamos em trazer a ideia para nossa paróquia.
Felipe, integrante do grupo Família S.O.G também é Mc, sempre convida o público para o break nas apresentações @Lohe Duarte/Agência Mural
Ao lado de Artur e Cassius, amigos que ganhou durante a preparação do sacramento, eles procuraram por um dos membros da equipe da Crisma e partilharam sobre o desejo de praticar breaking e ensinar quem quisesse se juntar a eles.
Otávio Henrique, 34, conhecido como Tavinho, levou a ideia dos meninos para o pároco responsável pela paróquia, Padre Marco Barbosa, e ele liberou o uso do salão da igreja para a prática de um dos elementos do hip hop, o break.
Quando começaram com o projeto, tudo era improvisado: um salão da igreja, um grupo de jovens e um sonho. O que começou com a dança, foi atraindo jovens com outros talentos, formando MCs, B-oys e DJs.
O grupo fez a primeira apresentação no Erguei-vos, um encontro de jovens da paróquia que falava do amor de Deus, que ocorria duas vezes por ano. Após a divulgação, eles começaram a receber convites para participar de outros eventos parecidos.
Em 2013, Simone de Oliveira, 53, integrante da Pastoral Afro-Brasileira (grupo da igreja que tem o objetivo de valorizar as características e a cultura dos afro-brasileiros) convidou o grupo para se apresentar em um evento no Santuário Nacional de Aparecida.
No dia 9 de novembro de 2013, tornaram-se o primeiro grupo de rap a cantar na Basílica de Aparecida, um marco para o rap católico brasileiro.
Atualmente, eles não vão somente a eventos religiosos. Participam de programações culturais na Grande São Paulo, em saraus, ações em instituições de caridade e escolas.
O grupo foi convidado para se apresentar na escola do bairro, E.E. Profª Maria Augusta de Ávila, no projeto Qual é o seu talento?, do professor Igor Pop. Lá conheceram CJ (Hebert Costa), do grupo Afro Black. Tínhamos o mesmo propósito: usar o rap pra mudar vidas, conta. A parceria se fortaleceu ao longo dos anos.
Grupo Família S.O.G se apresentando na Vila Nhocuné, zona leste de SP @Lohe Duarte/Agência Mural
Tive momentos de desânimo, mas CJ foi peça-chave para eu não desistir, diz Tavinho. Em 2016, juntos, se apresentaram em um grande evento da região, ampliando a visibilidade do trabalho.
As músicas do S.O.G falam sobre o amor de Jesus, a intercessão de Maria, fé e o cotidiano das periferias. As canções alcançaram mais de 30 países através das plataformas digitais Spotify, Deezer, Apple Music e Youtube.
O trabalho da Família SOG também já revelou artistas para mundo. Gustavo Fagundes, 24, conheceu o grupo ao receber um convite na catequese (aulas preparatórias para receberem a eucaristia) e começou a participar das oficinas de dança.
‘Era muito ligado ao hip hop, nunca tinha frequentado muito menos visto na minha frente o movimento, a cultura, porém sempre assistia a DVDs do Michael Jackson e o Chris brown.
Gustavo, integrante do grupo Família SOG
Ele entrou ao lado de primos e amigos. Aquilo foi mágico para mim, porque eu já era apaixonado pelo universo mas nunca vivenciei, de perto, ali na minha frente.
Conheça o terreiro de candomblé que é patrimônio imaterial da quebrada Atualmente, ele é dançarino e modelo na Universal Studios, na China, somando grandes trabalhos como apresentações no Faustão, no Teatro Municipal em São Paulo e contratos internacionais na Turquia e no Egito. Antes de ser um artista internacional, ele era o B-Boy Capoeira apelido que ganhou durante as oficinas. “O S.O.G me ajudou a transformar o sonho em caminho”, diz.
Vidas e famílias
Para os integrantes, o grupo é mais do que rap. A minha vida tem dois momentos: antes e depois da Família S.O.G. O grupo me ensinou a ser honesto, a buscar o que eu queria de forma justa, ele me salvou, relata Tavinho, um dos membros mais antigos.
Ele reforça, assim como Gustavo, a potência do grupo na auto-estima dele. Comecei a entender mais meu papel como jovem negro, como jovem periférico, entender o meu lugar no mundo.
Tavinho com a família no Santuário de Aparecida @Arquivo pessoal/Divulgação
Hoje, ele é casado, pai e viu a importância do grupo se manifestar na próxima geração quando a filha, Maria Helena, 5, subiu ao palco de forma espontânea e disse: Pai quero cantar com você. Meu coração explodiu de felicidade. Partiu dela, relata o rapper.
David Carvalho, 28, que entrou na Família aos 16 anos, comenta que foi uma das vidas evangelizadas por eles. Conheci os meninos na Crisma, e aquilo virou a chave na minha vida.
O ponto de virada foi quando o pai, Henrique Ferreira, o viu no palco pela primeira vez: Tínhamos uma relação difícil, ele não deixava eu cantar, achava que eu ia me tornar um vagabundo, recorda David. Até o dia que ele viu o filho se apresentando, não, esse aí é meu filho? Não, cara, esse moleque é sensacional, olha o que ele tá fazendo no palco!
A partir dali, o pai, que era aquele cara chato, tornou-se o maior incentivador. Ele virou o motorista da Familia S.O.G, levava o grupo para as apresentações, passava madrugadas esperando o grupo durante os shows em outras cidades.
Henrique montou um estúdio na casa da família, com aparelhos arrecadados por ele, e fazia café para os ensaios. Eu acho que, em tese, o S.O.G. também mudou a vida do meu pai, também foi o hobby dele, diz David, emocionado.
Emanuel, filho de Regina, usou do rap para se aproximar da irmã e vencer a dor do luto @Lohe Duarte/Agência Mural
A força do S.O.G. também se manifestou na vida de Regina Fernandes, que perdeu a filha Sthéfany para o câncer, aos 17 anos. A filha amava o grupo e se identificava com a história de um dos integrantes da época, Felipe Moura, conhecido na Família S.O.G como Morsa. Os integrantes foram força e presença na vida de Regina para enfrentar o luto.
Eles me sustentaram no luto, no processo de sair da depressão, síndrome do pânico e me deram força para viver, lembra Regina, chamada de mãe pelos integrantes.
Esse laço se renovou 10 anos depois quando o filho de Regina, Emanuel, curioso para saber mais sobre a irmã, buscou histórias e momentos, chegando até ao grupo, e hoje é um dos MCs.
Tenho muito orgulho de falar pra todo mundo, que são da minha igreja, que tem uma grande missão, como soldados de Deus, diz Regina.
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