O Startup Day realizado no último sábado (21), no Escritório Regional do Sebrae-SP, em Sorocaba, reuniu cerca de 180 participantes e evidenciou o papel do município como um polo em expansão no ecossistema de inovação. Com programação distribuída em painéis simultâneos, palestras e espaços de networking, o evento integrou uma mobilização nacional voltada a startups, empreendedores e profissionais interessados em tecnologia e novos modelos de negócio.

Entre os momentos que mais mobilizaram o público esteve o painel Sebrae Delas, dedicado a dar visibilidade às trajetórias de mulheres empreendedoras. Mais do que apresentar soluções ou modelos de negócio, o espaço revelou histórias de vida marcadas por escolhas difíceis, coragem cotidiana e uma compreensão ampliada do que significa empreender.

Foi nesse contexto que as trajetórias de Marília Lara, fundadora da Stattus4, e Janaine Nascimento, CEO da Hoff Analytics, ganharam protagonismo. Atuando em setores tradicionalmente masculinos, como saneamento básico e construção civil, elas mostraram como tecnologia, propósito e coragem podem caminhar juntos.

Eu sempre quis uma empresa que fizesse sentido

Marília costuma brincar que empreende desde criança. Filha de empresário, cresceu entre reuniões, decisões e o cotidiano de uma empresa familiar. Mas foi ainda na infância, durante os debates da Eco 92, que algo se fixou de forma definitiva: a ideia de que empresas poderiam e deveriam gerar impacto positivo. Eu sempre pensava que queria ter um negócio em que, quanto melhor ele fosse, melhor ele faria para o mundo, contou durante o painel.

Essa convicção se tornou a base da startup que ela fundou ao lado do sócio e marido, Antônio Oliveira. A proposta era ambiciosa desde o início: usar inteligência artificial para combater o desperdício de água, um problema estrutural que afeta cidades inteiras e milhões de pessoas. Quando a empresa começou, ainda em meados da década passada, falar em inteligência artificial aplicada ao saneamento parecia algo distante, quase abstrato.

O primeiro grande desafio foi cultural. Explicar o que a empresa fazia exigia quase uma aula introdutória. As pessoas achavam que inteligência artificial era coisa de filme. Ninguém acreditava que um sistema pudesse analisar dados e gerar decisões práticas, relembrou. A dificuldade era ainda maior por atuar em um mercado altamente tradicional, formado majoritariamente por empresas públicas, onde o risco costuma ser evitado.

A tecnologia desenvolvida pela startup funciona a partir da análise de dados de pressão, vazão e ruídos captados diretamente na rede de distribuição de água, permitindo identificar vazamentos invisíveis a olho nu. Marília costuma explicar a solução de forma simples: é como um Shazam de vazamentos, capaz de reconhecer padrões sonoros típicos de perdas antes que elas se tornem grandes problemas. Hoje, estima-se que cerca de 40% da água tratada no Brasil se perca no caminho entre a estação e a torneira.

O sistema, que utiliza sensores instalados nos hidrômetros e um banco com milhões de amostras sonoras, consegue reduzir em até 70% as perdas de água e diminuir drasticamente o tempo de detecção de falhas. Vazamentos que antes poderiam levar meses para serem localizados passam a ser identificados em poucos dias. A tecnologia já é aplicada em cidades do interior paulista, como Votorantim, Jundiaí e Itapetininga, além de estar presente em outros estados e países.

Mas, para Marília, o impacto nunca esteve restrito ao produto. Ao longo da conversa, ela ampliou o conceito, falando sobre cultura organizacional, diversidade e responsabilidade social. Com uma equipe de cerca de 40 pessoas, a empresa busca refletir internamente a sociedade que existe fora dela, com equilíbrio de gênero na liderança, presença significativa de pessoas negras e LGBTQIA+ e políticas de equidade salarial.

Essa visão foi colocada à prova durante a pandemia, quando a empresa perdeu cerca de 70% do faturamento. Tecnicamente, eu fali. Só não contei para ninguém, contou, sem romantizar o período. A travessia foi possível pela relação construída com a equipe, pela confiança mútua e por decisões difíceis tomadas com transparência. Se não fosse o compromisso das pessoas, a empresa não teria atravessado aquele momento.

Em janeiro deste ano, a startup ganhou reconhecimento internacional ao vencer o Prêmio Zayed de Sustentabilidade, em Abu Dhabi, na categoria água, recebendo US$ 1 milhão para ampliar o alcance da solução. Para Marília, o prêmio simboliza mais do que uma conquista financeira: representa a validação de uma trajetória construída com persistência, propósito e impacto concreto.

Ao longo da jornada, ela também falou sobre um desafio menos visível, mas constante: a autossabotagem. Deu nome à voz interna que insiste em questionar, diminuir e cobrar perfeição, a Sandra. Aprender a conviver com essa voz, segundo ela, foi tão importante quanto aprender sobre tecnologia ou mercado. Parte desse processo veio ao se cercar de outras mulheres empreendedoras. Empreender é muito solitário. Ter com quem dividir faz toda a diferença.

Apostar tudo e construir o caminho

A trajetória de Janaine Nascimento começa longe do universo das startups. Com carreira consolidada no mercado imobiliário, ela acumulava experiência e estabilidade quando decidiu, ao lado do marido, mudar completamente de rota. A motivação veio da percepção de um problema recorrente na construção civil: empresas investiam tempo, energia e recursos sem saber exatamente para quem vender.

A decisão de empreender foi radical. Janaine abandonou a segurança de uma carreira estruturada para apostar todas as fichas em um negócio ainda em construção. Não existia plano B. A gente confiou no sonho e foi, relembrou. O risco era alto, especialmente em um setor marcado por ciclos longos, baixa digitalização e resistência à mudança.

Foi a partir dessa dor concreta que nasceu a Hoff Analytics, startup criada para transformar dados públicos, registros de obras e informações dispersas em inteligência de mercado. A plataforma monitora construções, reformas e projetos em todo o país, organizando essas informações para que empresas identifiquem oportunidades, entendam o estágio de cada obra e avaliem o potencial de consumo envolvido.

No início, o desafio não era apenas técnico, mas de credibilidade. Janaine ouviu repetidas vezes que a ideia era inviável. Diziam que era impossível, que se grandes empresas nunca tinham feito aquilo, uma startup também não conseguiria, contou. A virada veio com uma escolha estratégica que exigiu firmeza: a Hoff Analytics nunca ofereceu testes gratuitos. Cada prova de conceito foi paga. Se não paga, não valoriza. E quando testaram, viram que funcionava.

Com o avanço da tecnologia, a plataforma passou a ser utilizada também para projeções de consumo e planejamento industrial, ajudando empresas a tomar decisões mais eficientes, reduzir desperdícios e otimizar investimentos. Aos poucos, a solução se consolidou em um mercado tradicional, mostrando como dados bem organizados podem transformar a lógica de decisão de um setor inteiro.

Durante o painel, Janaine falou de forma aberta sobre algo que raramente verbalizava: nunca havia se enxergado como uma empreendedora de impacto. Para ela, impacto estava associado a causas ambientais ou sociais explícitas, distantes da realidade de uma empresa de dados voltada ao mercado da construção civil. A fala veio sem defesas, quase como uma constatação sincera.

Foi nesse momento que a troca entre as duas ganhou outra dimensão. Marília interveio para apontar aquilo que, muitas vezes, quem está dentro da operação não consegue ver. Falou sobre escolhas, sobre o tipo de empresa construída, sobre as pessoas que Janaine lidera. Mostrou que impacto também está na forma como decisões são tomadas, equipes são estruturadas e relações de trabalho são conduzidas.

A reflexão ressoou. Janaine passou a reconhecer que o alcance da Hoff Analytics ia além da tecnologia e do produto final. Impacto não é só o que a empresa entrega para o mercado. Está nas pessoas, nas escolhas, na forma de liderar, afirmou.

Hoje, a Hoff Analytics conta com uma equipe majoritariamente feminina, com mulheres ocupando posições estratégicas e de liderança. Janaine explicou que essa configuração não nasceu de um plano desenhado desde o início, mas de decisões feitas ao longo do caminho. Foi em espaços de troca como o painel do Startup Day que ela passou a olhar para esse cenário com mais intencionalidade. Às vezes a gente acha que impacto é só ambiental, mas esquece que ele também está nas relações humanas.

Mais do que um painel

A conversa foi marcada por escuta, reconhecimento e generosidade, elementos que só se sustentam em ambientes de confiança. Um espaço onde vulnerabilidade não aparece como fraqueza, mas como ponto de partida para enxergar a própria trajetória com mais clareza.

Para Karen Ajala, analista de negócios do Sebrae-SP e moderadora da conversa, aquele foi um dos momentos mais potentes do painel. Quando uma mulher consegue enxergar o impacto da outra e devolver isso em forma de reconhecimento, algo se transforma. Ali não era sobre convencer, era sobre acolher. Essa troca só acontece quando existe um espaço seguro, onde as mulheres se sentem à vontade para serem honestas sobre suas dúvidas e caminhos, comentou.

Ao integrar o Sebrae Delas à programação do Startup Day, o evento abriu espaço para reflexões que dialogam diretamente com os desafios das startups, sem deslocar o foco central do programa. A troca entre Marília Lara e Janaine Nascimento mostrou, na prática, como conversas desse tipo ampliam repertórios, aprofundam olhares e fortalecem o ecossistema como um todo.

Ao longo da manhã, o Startup Day funcionou como um ponto de encontro entre diferentes perfis do ecossistema, reunindo empreendedores, especialistas e instituições em torno de discussões sobre inovação, crescimento e sustentabilidade dos negócios. A programação evidenciou que o desenvolvimento de startups vai além da tecnologia e do mercado, passando também pelas pessoas, pelas relações e pela forma como essas conexões são construídas.

-

-

Tags:
Cultura Empreendedora

Agência Sebrae - Startup Day em Sorocaba mostra que inovação também é feita de pessoas