No final de 2023, Bruno Magno, 32, morador de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, se inscreveu em um projeto voltado à criação de jogos socioeducativos. Naquele momento, ele não imaginava que anos depois estaria ajudando a fortalecer o ensino de história afro-brasileira e africana, a valorizar heróis negros e a combater preconceitos. O melhor? Ele faz tudo isso brincando.

A atividade foi o pontapé inicial para a criação de Minhas Raízes, um jogo de tabuleiro que apresenta a trajetória da população negra de forma afirmativa. Lançado em abril do ano passado, as cartas trazem mini biografias de personalidades do movimento negro brasileiro, além de curiosidades sobre o continente africano, cultura, instituições e fatos históricos.

Gabriela, Bruno e Gleiziele são os organizadores do coletivo Nós Raízes @Arquivo pessoal/Divulgação

A ideia é falar da nossa história de forma positiva. Não só sobre dor ou escravidão, mas mostrar cientistas, pesquisadoras e líderes negros, afirma Gleiziele Oliveira, 31, multiartista, produtora cultural e jornalista. Ela também é companheira de Bruno.

O jogo é alinhado à Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas.

A África do Sul, por exemplo, é o único país com três capitais e teve dois ganhadores do Nobel da Paz morando na mesma rua

Gleiziele, produtora cultural

Quando começaram a formação, a ideia era criar algo voltado à participação escolar, alinhada aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).

Juntos, eles realizaram pesquisas, organizaram a proposta e estruturaram a ideia inicial. No começo, pensaram em desenvolver um jogo sobre reciclagem, projeto que chegou a ser aprovado. Porém, após encontros formativos, eles começaram a se questionar sobre a ideia e perceberam outro incômodo: eram a única dupla formada por pessoas negras.

Crianças com o jogo educativo Minhas Raízes, no Pró-Saber SP @Glória Maria/Agência Mural

Somos os únicos negros aqui e estamos criando um jogo que foge do ambiente corporativo. Será que era isso mesmo que queríamos fazer? Foi uma virada de chave, conta Gleiziele.

A partir dessa reflexão, repensaram completamente a proposta e começou a nascer o Minhas Raízes, que também deu outros frutos.

Ainda em 2023, o casal criou o ‘Coletivo Nós Raízes’, já com o protótipo do jogo desenvolvido, com o objetivo de pensar ferramentas pedagógicas afirmativas para professores e escolas, além de disseminar a riqueza das histórias e contribuições da população afro-brasileira e africana.

Para fortalecer a identidade visual e a comunicação do projeto, juntou-se à equipe Gabriela de Souza, designer gráfica e social media.

Ainda como protótipo, feito em papel machê e papelão, o jogo ‘Minhas Raízes’ foi testado em 2023 em instituições locais como o PECP (Programa Einstein na Comunidade Paraisópolis), a Casa da Amizade e o Pró-Saber SP.

Com a consolidação da proposta, o Coletivo Nós Raízes, foi contemplado pelo Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) 2024. No ano de 2025, o apoio viabilizou a produção de 120 exemplares, sendo 75 distribuídos gratuitamente a escolas públicas e organizações sem fins lucrativos.

Tabuleiro do jogo educativo criado pelo coletivo Nós Raízes @Letícia Vieira/Divulgação

Além da distribuição, o grupo realizou ações pedagógicas com crianças, adolescentes e idosos que consistiram em aplicações do jogo com mediação do coletivo. Em algumas dessas atividades, também foi desenvolvida a dinâmica complementar Chave-amuleto, na qual os participantes montavam um amuleto Adinkra inspirado no jogo para levar para casa.

Já nas formações voltadas a professores e educadores, as atividades incluíam uma aplicação mediada do jogo, seguida de uma conversa sobre as possibilidades de uso do material em sala de aula.

A Biblioteca do Pró-Saber SP, possui o jogo oficial. Para o assistente de biblioteca Guilherme Mendes, graduando de história, o tabuleiro cumpre o papel de aprendizado coletivo e questionamento.

Pude perceber que com passar das rodadas, o que antes era desconhecido torna-se familiar. É emocionante ver uma criança apontar para uma carta e dizer com propriedade: Esse aqui é o Luiz Gama, Maria Firmina dos Reis, Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo, afirma Guilherme.

Essas personalidades deixam de ser apenas nomes em um jogo e passam a se tornar referências, de quem elas são e da importância que o seu povo tem na construção do mundo

Guilherme Mendes, assistente da Pró-Saber-SP

Bora brincar?

O jogo pode ser disputado em duplas. O objetivo é atravessar um portal simbólico, representado por um Baobá, rumo ao continente africano.

Para isso, é preciso conquistar uma chave dividida em três partes, adquiridas com búzios. Os búzios são obtidos ao responder perguntas sobre personalidades negras, cultura e história africana, além de casas especiais do tabuleiro.

Manual do Tabuleiro com algumas peças do jogo @Letícia Vieira/Divulgação

Vence quem completa a chave primeiro, mas o objetivo principal é o aprendizado coletivo e a troca de saberes.

Com a presença em organizações de educação, o coletivo sonha em ampliar o projeto, captar recursos para produzir uma nova edição e estruturar um modelo que una distribuição gratuita e comercialização, garantindo sustentabilidade ao Nós Raízes.

Agência Mural

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