A música Águas de Março, de Tom Jobim, fala do fim do verão. Mas o retrato que ela descreve já não parece tão atual para quem vive na Grande São Paulo. Assim como o apelido terra da garoa também parece distante.
Os impactos dessas chuvas recaem principalmente sobre quem vive nas periferias da Grande São Paulo, população que costuma ter menor capacidade de adaptação diante dos eventos climáticos extremos.
No início deste ano, moradores do Capão Redondo, na zona sul da capital, voltaram a enfrentar enchentes mesmo ao lado de um piscinão que está em obras há pelo menos quatro anos. A promessa da prefeitura é de que o reservatório seja entregue em 2026.
Água do piscinão é despejada no córrego Moenda Velha @Cleberson Santos/Agência Mural
O caso não é isolado. Em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, o empresário Marcelio Gonçalves decidiu vender seu ponto comercial por anos lidando com as cheias. Faz 26 anos que eu estou aqui e já passei por mais de 40 enchentes, afirma.
Nos últimos anos, a Agência Mural tem acompanhado os impactos das chuvas intensas na Grande São Paulo, inclusive em regiões onde há piscinões.
Levantamento da reportagem via LAI (Lei de Acesso à Informação) mostra que existem 67 reservatórios na região metropolitana. A maior parte está na capital paulista, com 37 piscinões. Outros três ficam em regiões no limite entre a capital e municípios vizinhos, e 27 estão distribuídos em outras cidades da região.
Na cidade de São Paulo, 27 dos 37 piscinões (72%) ficam em zonas periféricas. Mesmo assim, moradores continuam relatando alagamentos e enxurradas.
O cenário levanta a pergunta: faltam piscinões ou os reservatórios já não são suficientes diante das mudanças climáticas?
O QUE SÃO PISCINÕES?
Reservatórios de detenção, são estruturas que armazenam temporariamente o excesso de água da chuva.
Existem dois tipos principais:
reservatórios que escoam a água por gravidade
reservatórios que dependem de bombeamento, quando construídos abaixo do nível do rio
Enchente ou cheia: elevação temporária do nível do rio ou córrego devido ao aumento do volume de água.
Inundação: quando a água transborda do rio e invade áreas próximas.
Alagamento: acúmulo de água nas ruas por problemas de drenagem.
Fonte: Serviço Geológico do Brasil
Número insuficiente
O levantamento da Agência Mural mostra que os 67 piscinões na Grande São Paulo existem em 10 dos 39 municípios da Grande São Paulo.
Depois da capital paulista, que possui 37 reservatórios, a cidade com maior número é São Bernardo do Campo com 12.
Os demais estão distribuídos entre municípios como Guarulhos, Diadema, Embu das Artes, Francisco Morato, Franco da Rocha, Mauá, Osasco e @São Caetano do Sul@.
Há cidades que enfrentam enchentes frequentes e não possuem nenhum reservatório. É o caso de Poá. No bairro Jardim Nova Poá, o vidraceiro Henrique Souza, 39, mora em frente a um córrego e convive com alagamentos frequentes.
Já aconteceu da água estar em nível tão alto após a chuva que voltou pelo ralo do chuveiro e do vaso sanitário. Não é culpa da natureza, é algo que a gente está vivenciando com os efeitos das mudanças climáticas, aponta.
Na época, estudos apontavam a necessidade de 149 piscinões na Grande São Paulo. Mas, com o passar dos anos, parte das áreas previstas acabou ocupada por construções privadas ou loteamentos irregulares, o que dificultou a implantação das obras.
Se você declara utilidade pública e não executa nada em cinco anos, o decreto caduca. Então a gente tinha que fazer a revisão desse plano e esse número se tornou dinâmico. Estamos agora no Plano Diretor 4 , com previsão de 120, explica o engenheiro.
NOVOS RESERVATÓRIOS
Oito piscinões estão previstos para serem inaugurados entre 2026 e 2027 em São Paulo.
- 2026: Morumbi, Capão Redondo, Brasilândia, Vila Prudente e São Miguel Paulista.
- 2027: Moema, Vila Mariana e Itaquera.
Fonte: Prefeitura de São Paulo
Mudanças climáticas
Na Brasilândia, zona norte da capital paulista, dois reservatórios inaugurados desde 1999 não impediram uma das maiores enchentes recentes no bairro Jardim Vista Alegre, registrada em 2024.
Às 18h começou a chuva e em meia alargou. Foi desesperador, descreve Arliene Rocha da Silva, líder comunitária.
“Sempre teve enchente, mas essa se comparou à pior que vimos em 2010”
Arliene Rocha da Silva, líder comunitária
No dia 6 de março deste ano, a Avenida Cupecê, em Cidade Ademar, zona sul da capital, voltou a inundar após uma tempestade,mesmo próxima a um dos três piscinões da região.
Segundo o engenheiro Silvio Luiz Giudice, a capacidade de um piscinão é calculada com base em estudos hidrológicos que analisam séries históricas de de chuvas. A partir desses dados, é estimado o tempo de retorno, ou seja, a probabilidade de recorrência de tempestades extremas.
Reservatório entre a favela do Vila Clara e a Avenida Cupecê, em Cidade Ademar. Um dos três da região @Jacqueline Maria da Silva/Agência Mural
A capacidade dos piscinões varia bastante. O reservatório Pedreira, em Itaquera, é o maior e pode armazenar até 1,5 bilhão de litros de água, volume equivalente a cerca de 400 a 500 piscinas olímpicas. Já o piscinão Diógenes, no Alto da Lapa, tem capacidade de 2 milhões de litros.
No Brasil, muitos piscinões foram projetados considerando eventos severos com intervalo de retorno de 25 anos.
Em países como na Argentina, obras semelhantes foram planejadas para eventos com intervalo de até 200 anos.
Além disso, a manutenção desses equipamentos também pesa no orçamento público. Segundo especialistas, os custos anuais podem chegar a 20% do valor da obra. Dos 17 piscinões da Grande São Paulo já ultrapassaram 25 anos de construção.
Outro desafio é a manutenção. Com o tempo, lixo, sedimentos e detritos carregados pelos rios podem se acumular no fundo dos reservatórios, reduzindo sua capacidade de armazenamento.
Piscinões que dependem de bombas também são mais vulneráveis, já que podem parar de funcionar em caso de falha elétrica.
Além disso, quando ocorrem chuvas intensas em sequência, pode não haver tempo suficiente para o reservatório esvaziar antes da próxima tempestade.
‘Há 25 anos a gente não tinha como prever que as mudanças climáticas seriam tão aceleradas. A forma como foi pensada [a construção dos piscinões] naquele momento se mantém até hoje’
Silvio Luiz Giudice, engenheiro
Para especialistas, os reservatórios continuam sendo importantes, especialmente para regiões densamente urbanizadas. Mas eles deveriam ser a última etapa de um conjunto mais amplo de estratégias de drenagem urbana.
Entre as alternativas estão soluções baseadas na natureza, como parques lineares, recuperação de rios, preservação de áreas verdes e políticas de uso e ocupação do solo que reduzam a impermeabilização da cidade.