Por décadas, foi comum ouvir o som do surdo e dos tamborins ressoando pelas ruas do Parque Bristol, no distrito do Sacomã, na zona sul de São Paulo. A resposta era sempre a mesma: é a escola de samba do bairro!. Essa memória, comum a muitos moradores do local, foi reavivada: no último domingo (22) a escola de samba Acadêmicos do Parque Bristol voltou para a avenida.

Após mais de três anos de pausa, a escola retomou a participação nos festejos chamados de Bota Fora de carnaval, realizados pela agremiação desde a fundação, em 1992, sempre na semana seguinte do carnaval. A festa reuniu cerca de 200 pessoas e se espalhou pela rua Manoel José Rodrigues, no Parque Bristol, contando também com público de bairros vizinhos, como Vila Liviero, Vila Moraes e Jardim São Savério, também no distrito do Sacomã.

Integrantes do projeto Vai Quebrada que tocaram na Acadêmicos do Parque Bristol @Bianca Sales/Agência Mural

A tradição do desfile e o convite de uma amiga animaram a estudante Larissa Siqueira Mendes, 15, a participar do evento. Moradora da Vila Liviero, bairro vizinho ao Parque Bristol, ela conta que vivenciar o carnaval próximo de casa é também uma oportunidade de a comunidade descobrir sua cultura.

É muito bom ter esse tipo de iniciativa na periferia, porque ajuda crianças e adultos a terem um divertimento de forma segura. É uma forma de se expressar, comenta.

Com roupas coloridas e fantasias, seis pessoas da família de Ana Paula Viveiros, 54, e Vagner Antônio, 63, acompanharam o desfile, que aconteceu na rua onde moram. Eles e os vizinhos foram informados cerca de um mês antes do desfile sobre o fechamento da via, para que pudessem se planejar.

‘Adoramos curtir o carnaval e nos organizamos para a nossa família participar. Acompanho a escola desde o início, é um acesso à cultura importante’

Ana Paula, moradora do Parque Bristol

O desfile contou com tudo que tinha direito: bateria – na maioria composta por crianças e adolescentes – mestre-sala e porta-bandeira, rainha de bateria e passistas. Os foliões percorreram um quarteirão entre as ruas Manoel José Rodrigues, João José da Silva e Afonso Rodrigues Adorno, onde o público pôde aproveitar o ritmo da escola de samba das janelas e portões de casa.

Família de Ana Paula e Vagner no portão da casa aguardando o início do desfile @Bianca Sales/Agência Mural

No final do percurso, foram prestadas homenagens a ex-integrantes da escola, incluindo a primeira porta-bandeira da escola, Marlene do Carmo, e os foliões Rogério dos Santos, Roberto Gomes da Silva, José Aparecido Jesus e Alexander Ferreira Maciel, que faleceram nos últimos cinco anos. O rufar da bateria e as palavras emocionadas dos organizadores deram o tom da homenagem.

Escola de formação de sambistas

Foram picados pelo samba. É assim que Ademir Mendonça, 59, mais conhecido como Mirão, presidente e um dos fundadores do Acadêmicos do Parque Bristol, se refere aos sambistas que já passaram pela escola. Em 34 anos de história, já foram mais de mil, segundo ele.

Nós não seguramos ninguém. Nossa intenção é formar e mostrar a possibilidade de tocar um instrumento e participar do carnaval, diz.

Fundada em 1992 por um grupo de amigos que já desfilava em outras escolas de samba, a Acadêmicos foi criada sem a intenção de se tornar uma agremiação. A ideia era fazer um samba descontraído e divertido. Mas a comunidade abraçou a brincadeira e moradores se mobilizaram para conseguir uma sede e um pavilhão (bandeira oficial e o símbolo máximo da agremiação).

Ademir Mendonça, presidente e co-fundador do Acadêmicos do Parque Bristol @Bianca Sales/Agência Mural

Até hoje, a rua José Pinto Tavares onde a escola nasceu, ainda é popularmente conhecida como a rua do sambão.

Um dos momentos históricos da escola foi a realização do primeiro desfile fora do bairro, na região da Luz, em 2014. Além de músicos e sambistas, a Acadêmicos levou para a avenida crianças de um projeto social de futebol do Parque Bristol, o Projeto Pereirinha.

Em 2016, outro marco: uma emenda no projeto de lei 14.485, de 2007, incluiu o carnaval de rua do Parque Bristol e região no calendário oficial de eventos da cidade de São Paulo.

LEIA TAMBÉM
O ensaio da escola Leandro de Itaquera acontece em baixo de viaduto na Avenida Jacu-Pêssego Leandro de Itaquera completa 44 anos e relembra trajetória no carnaval de SP

Mesmo com ensaios regulares, desfiles e eventos na comunidade, o objetivo de fundação da escola não era disputar campeonatos. Segundo Ademir, esse posicionamento causou divergência entre organizadores e levou a agremiação a suspender as atividades entre 2022 e 2025.

Estava em um bar e me deparei com uma conversa entre conhecidos que afirmavam que o Acadêmicos tinha acabado. Aquilo foi triste demais. Nessa mesma hora liguei para o mestre Marcelão e decidimos voltar, conta emocionado.

Mestre de bateria, conhecido como Marcelão, formou mais de mil sambistas que já passaram pelo pavilhão em 30 anos @Bianca Sales/Agência Mural

Ele contou com o apoio imediato do co-fundador e mestre de bateria Marcelo Ferreira, 59, conhecido como mestre Marcelão. Juntos começaram a organizar a retomada da escola para o carnaval de 2026, resgatando suas raízes sólidas.

‘O Parque Bristol é um bairro do samba e queremos fomentar isso, porque precisamos ter uma continuidade. [O samba] é um fundamento tão importante que não pode parar. Só precisava de apoio para acontecer’

Marcelo, mestre de bateria

Para a dupla de mestre-sala e porta-bandeira, Alessandra Amorim e Felipe Moraes, foi uma alegria receber o convite para retornar à escola em que receberam o título de mestre-sala e porta-bandeira.

É muito bonito ver um pavilhão girar. É uma responsabilidade enorme carregar tantos anos de história. Estamos muito felizes com essa retomada, comemora Alessandra.

Felipe, mestre-sala e a Alessandra, porta-bandeira encantam os moradores ao longo do desfile @Bianca Sales/Agência Mural

Felipe completa: eu costumo dizer que todo bairro deveria ter uma escola de samba. Ela ensina muitas coisas, o samba traz vida. Então, espero que a volta avive o Bristol, diz.

Vai Quebrada e as novas gerações do samba

Com a intenção de manter o samba vivo na comunidade, a escola idealizou – junto com outras organizações – o projeto gratuito ‘Vai Quebrada’. Iniciada em setembro de 2025, a ação tem como proposta formar novos sambistas, com foco em crianças e adolescentes.

As aulas já reúnem ao menos 30 jovens do bairro e ocorrem na sede do Projeto Pereirinha, no Parque Bristol. O parceiro oferece o espaço e a alimentação para os alunos, com o apoio de outras organizações da região, como a Casa de Cultura Dona Albertina e a produtora Blackout.

Ana Caroline, e os membros da escola no esquenta para o desfile @Bianca Sales/Agência Mural

A ideia de trabalhar com as crianças é mostrar que elas têm potência e são resistentes na nossa comunidade, capazes de passar o que aprendem adiante. Isso é transformador, conta Indianara Baldini, 43, cria do Jardim São Savério, no distrito do Sacomã, e gestora da Casa de Cultura Dona Albertina.

A jovem Ana Caroline, 16, é uma das integrantes do projeto Vai Quebrada. Vinda de uma família de sambistas (sua tataravó foi Madrinha Eunice, fundadora da primeira escola de samba de São Paulo, a Lavapés, em 1937) ela conta que o carnaval sempre fez parte da sua vida.

Minha inspiração sempre foram os mais velhos da minha família. É a minha cultura ancestral, antes mesmo de eu querer aprender a tocar, diz.

O surdo foi o instrumento que a cativou e não deu outra: em menos de três meses, ela evoluiu tanto que passou a apoiar a turma nas aulas. É muito legal ver as crianças menores interagindo, se interessando, tendo esse exemplo e outras referências, comenta a jovem.

Para o futuro a agremiação busca pleitear editais públicos e fomentos a cultura que garantam a continuidade da escola de samba, atividades culturais e projetos sociais, além de ampliar o número de participantes do Vai Quebrada.

O samba não pode parar, queremos que até o final do ano mais de 100 crianças e adolescentes estejam com a gente, finaliza Ademir.

Agência Mural

O post O Parque Bristol é um bairro do samba, diz mestre de bateria  apareceu primeiro em Agência Mural.

Tags:
Cultura | Música | Rolê