Você acredita que os Racionais MCs poderiam inspirar a criação de um coletivo de forró? Pois é verdade. Lançada em 2002, a música Da Ponte Pra Cá inspirou, duas décadas depois, a criação de um grupo de apaixonados pelo ritmo nordestino.
Foi em janeiro de 2023, na periferia sul de São Paulo, especificamente no Jardim São Luís, que nasceu o coletivo ‘Da Ponte pro Roots’. A origem do nome, inspirada na letra do grupo de rap, vem da insatisfação e do incômodo com a falta de reconhecimento da importância cultural do forró.
Da ponte pra lá, tudo é muito caro, pouco acessível. Aí pensamos: por que não criar um projeto que seja acessível e gratuito na periferia, para todos que queiram conhecer ainda mais a cultura nordestina?, explica um dos fundadores do grupo, Carlos Roberto, 40, conhecido popularmente como Beto.
Beto, fundador do coletivo Da Ponte pro Roots em um evento de forró na Fábrica de Cultura @Arquivo pessoal/Divulgação
Além de ser um dos fundadores do coletivo, Beto também é professor de dança.
O projeto organiza apresentações, concursos e oferece aulas gratuitas de forró, aos sábados (das 15h às 17h), na Fábrica de Cultura do Jardim São Luís. Em média, cada aula reúne de 30 a 50 alunos, de jovens a idosos. Cerca de 600 pessoas já participaram das aulas e das demais atividades organizadas pelo coletivo nos seus três anos de trabalho, incentivando a inclusão e a valorização do gênero musical.
Da esquerda para direita, Letícia, Beto, Claudete, Thiago e Rafael, alguns dos organizadores coletivo @Daniel Santana/Agência Mural
Além de Beto, outros seis integrantes (ou melhor, amigos) ajudam a tocar as atividades do coletivo.
‘A gente conecta não só os jovens, mas também o pessoal, acima dos 50 anos, que busca essa conexão com o passado, com o forró pé-de-serra, algo que estava sendo esquecido pelo público mais jovem’
Beto, fundador do coletivo
Arrasta pé
A animação e o carisma do forró também estão presentes nos eventos promovidos pelo Da Ponte Pro Roots. Desde 2024, o coletivo promove um concurso de dança, sempre em um sábado nos meses de janeiro ou fevereiro. Em 31 de janeiro deste ano, foi realizada a terceira edição, também na Fábrica de Cultura do Jardim São Luís.
As duplas se apresentaram em dois ritmos diferentes, xote e forró @Daniel Santana/Agência Mural
Neste ano, cerca de 40 pessoas concorreram, em duplas, nas três categorias: Brincante – os recém chegada na dança – (5 duplas), Amador (8 duplas) e Profissional (8 duplas).
Na disputa, cada par sorteava um xote e um forró para se apresentar em cinco minutos, sendo dois minutos e trinta segundos para cada ritmo. As duplas eram avaliadas por três juradas.
A principal diferença entre o xote e o forró é a cadência: o primeiro é mais lento, romântico e dançado coladinho. Já o forró (também chamado baião) é mais rápido, animado e agitado.
Dois dos participantes do concurso foram André Cunha, 27, e Marília Gonzalez, 38. A dupla estreou na competição na edição de 2026, na categoria Brincante, levando à pista sintonia e a dinâmica própria do forró.
André e Marília durante a apresentação de xote @Daniel Santana/Agência Mural
O ritmo entrou na vida de Marília depois de ela topar fazer uma aula experimental no projeto, despretensiosamente. A partir daí, passou a frequentar bailes e aulas de duas a três vezes por semana e – afirma – a prática vem transformando sua rotina e suas relações pessoais.
‘Começou com a sensação de que precisava de mais trocas, de atividades a dois, de compartilhar [vivências] com outras pessoas. Acabei conhecendo um grupo, que me acolheu muito. Tem sido maravilhoso’
Marília, dançarina de forró
Para André, dançar forró constantemente o ajuda a sair da zona de conforto e fortalecer a autoconfiança, além de ampliar a escuta e a troca na dança.
André e Marília, uma das duplas que participaram do concurso de forró @Daniel Santana/Agência Mural
A gente aprende muito com estilos diferentes de dança. Embarcamos nessa aventura de experimentar algo novo. É muito sobre aprender sobre si e sobre o outro nessa relação da dança.
Mesmo já dançando juntos há um ano e meio, a parceria segue aberta a novas experiências. A cada música, aparecem ajustes, novos passos e formas diferentes de conduzir, reforçando o forró como um espaço de encontro.
É sempre uma surpresa. Com cada parceiro ou parceira, a dança é completamente diferente. São relações diferentes, trocas inesperadas, cada dança é única, complementa Marília.
No concurso, a sintonia funcionou: André e Marília conquistaram o segundo lugar na categoria Brincante, encerrando bem a primeira participação no concurso.
Além deles, esbanjaram talento, criatividade e animação as demais duplas vencedoras: Erikson e Karla (Brincante); Iara e Thais (Amadores); e Lidja e Ivo (Profissionais).
Erikson e Karla, 1° lugar na categoria Brincante @Daniel Santana/Agência Mural
Os vencedores nas categorias Amador e Profissional receberam R$200 e foram contemplados com prêmios oferecidos por apoiadores do evento, como bebidas, roupas e acessórios artesanais.
A Adega do Baguinho [localizada na Vila das Belezas, na zona sul], é um dos nossos parceiros e também o polo do forró e da cultura nordestina. Toda quinta-feira estamos lá, com nossos alunos, fomentando o forró pé-de-serra, destaca Beto.
Além das premiações aos vencedores, os patrocinadores sortearam prêmios entre o público, incluindo bolsas de estudo para aulas de danças em escolas parceiras e uma viagem para Itaúnas, no Espírito Santo, onde ocorre o Festival Nacional de Forró em julho.
Passado e futuro na dança
A dança é tudo, tira a gente de situações ruins e aproxima as pessoas, os amigos, a música. É assim, com essa afirmação forte, que Claudete Oliveira, 55, define sua relação com o forró.
Filha de nordestinos, com toda a família oriunda da Paraíba, ela conta que o forró atravessa a vida desde a infância, no cotidiano e nas memórias familiares. O ritmo se tornou para ela uma forma de enfrentar as dificuldades do dia a dia, por isso se tornou uma das organizadoras do coletivo Da Ponte Pro Roots.
Sempre convido e trago outras pessoas que estão com algum problema familiar ou de saúde para o forró, para esquecer os problemas. É aqui que acontece a cura.
Os participantes do concurso dançando forró @Daniel Santana/Agência Mural
Para Beto, a relação com o forró também é atravessada pela própria história. Filho de baianos e casado com uma paraibana, ele carrega desde cedo a mistura que marca o ritmo nordestino e que, segundo ele, ajuda a explicar a força de acolhimento e transformação presente na dança.
Como uma das lideranças do coletivo, ele destaca que o forró ocupa também um papel emocional na vida de muitas pessoas que passaram e ainda passam pelo projeto.
Receber o retorno de um aluno que conseguiu sair de um quadro de depressão ou de outros problemas por conta da dança é algo que não tem preço. O forró, Da Ponte Pra Cá, transforma.
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