Tiro, porrada, bomba e emissão de carbono. Com veículos blindados, aviões de combate e navios de guerra, transporte de tropas e toda uma cadeia de produção de armamentos, a guerra deixa um rastro de horror também para o clima.
Não bastasse devastar vidas e ecossistemas, ao consumir grandes quantidades de energia, a atividade militar também emite grandes volumes dos gases responsáveis pela crise climática que assola o planeta. Se fossem um país, as forças armadas seriam o quarto maior emissor do mundo, com mais emissões do que o Brasil, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia, segundo estimativa das organizações Cientistas por Responsabilidade Global e Observatório sobre Conflito e Meio Ambiente.
Por que isso importa?
- Com mais de trinta conflitos envolvendo forças militares nacionais pelo mundo e emissões de 2,75 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente, a caixa-preta do impacto ambiental das ações de guerra precisa ser aberta, para que custos humano e ambiental influenciem decisões políticas que muitas vezes os ignoram.
Ainda assim, quando firmaram os acordos globais para frear o aquecimento global, os países optaram por deixar essas emissões de fora de qualquer controle ou contabilização e a pegada de carbono militar segue sendo quase um mistério.
Isso é profundamente preocupante. As forças armadas do mundo contribuem mais [para o aquecimento global] do que o continente africano inteiro, diz a britânica Ellie Kinney, do Observatório sobre Conflito e Meio Ambiente. Porém nós ainda não estamos vendo compromissos abrangentes para a redução dessas emissões, e a contribuição militar para as emissões globais continua ausente das negociações climáticas internacionais.
Kinney cita as ameaças do presidente americano Donald Trump contra a Groenlândia, rica em minerais estratégicos para a indústria de defesa e para o setor de energia limpa, a agressão dele contra a Venezuela, país com a maior reserva de petróleo do mundo, e os ataques russos contra a infraestrutura energética da Ucrânia. Ainda assim, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e os estados da União Europeia (UE) estão intensificando seus gastos militares, o que pode causar até US$ 298 bilhões de danos climáticos por ano, afirma ela.
Enquanto os países em desenvolvimento seguem cobrando que os países mais industrializados honrem seus compromissos de financiamento climático, os 32 países da Otan se comprometeram a investir 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa. Já o plano de rearmamento europeu prevê mobilizar mais de 800 bilhões de euros [cerca de R$ 5 trilhões] até 2030.
Efeito dominó que só cresce
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), as nações com mais recursos econômicos gastam 30 vezes mais em atividades militares do que investem em países vulneráveis. Um relatório de setembro do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, apontou que cerca de 15% do total dos gastos militares em 2024 seriam suficientes para financiar as medidas de adaptação à crise climática necessárias nos países em desenvolvimento. Enquanto isso, a ONG Oil Change International estima que US$ 5 trilhões [R$ 26 trilhões] poderiam ser levantados a partir de uma taxa no comércio de armas entre países ricos.
Principal fonte de pressão por mais gastos militares, Donald Trump quer elevar em 60% o orçamento em defesa dos EUA dos atuais US$ 901 bilhões previstos para 2026 para US$ 1,5 trilhão em 2027, o equivalente a R$ 7,9 trilhões.
Um levantamento do Instituto de Pesquisa para Paz Internacional de Estocolmo mostrou que, em 2024, ano em que foram registrados conflitos em 36 países, o gasto militar cresceu em todas as regiões do mundo. Apenas Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Índia somaram juntos 60% de um total de US$ 2,7 trilhões [R$ 14,1 trilhões] investidos no setor o maior valor desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Além de sugar recursos que poderiam estar indo para outras frentes, cada dólar investido nas forças armadas significa mais emissões militares de carbono, o que contribui para o cenário de tempestades, secas e incêndios cada vez mais intensos e frequentes. Cada US$ 100 bilhões de aumento em gastos militares implica na emissão adicional de 32 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, de acordo com relatório da ONG Cientistas por Responsabilidade Global de setembro de 2025, que revisou uma série de pesquisas sobre essa relação.
Menos paz, mais gastos militares
Os países gastam mais com suas forças armadas. Segundo o Instituto de Pesquisa para Paz Internacional de Estocolmo, em 2024, o investimento foi de US$ 2,7 trilhões, o equivalente a R$ 14 trilhões, o maior valor desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Quer saber a quanto esse número equivale?
PIB
2,5% do PIB mundial em 2024
ou mesmo que todos os países africanos
Contribuição
US$ 334 ou R$ 1737
por cada pessoa do planeta
ONU
750 vezes o orçamento anual
da Organização das Nações Unidas
Covid-19
17 vezes o total
do gasto global em vacinas
Mais dinheiro investido em forças armadas pode implicar em mais treinamentos e missões (como a da Otan no Ártico), alistamento de mais indivíduos, maior consumo de combustível para veículos de transporte, mais uso de energia nas bases militares e maior demanda para as indústrias bélica e de infraestrutura. Cada consequência do investimento, por sua vez, provoca mais emissões de gases do efeito estufa.
O relatório recente da ONU projeta que o gasto militar global vai aumentar de US$ 2,7 trilhões em 2024 para algo entre US$ 4,4 e US$ 6,6 trilhões em 2035. Como as emissões de carbono tendem a crescer com o aumento do gasto, ainda que essa relação seja complexa, isso deve levar a um aumento imenso na pegada de carbono militar, afirma o pesquisador Stuart Parkinson, especialista em ciência da mudança do clima e diretor-executivo da Cientistas por Responsabilidade Global.
Caixa de Pandora moderna
A incapacidade dos países de cortar suas emissões deve elevar, já nos próximos anos, a temperatura média da Terra para além da meta mais ambiciosa estabelecida no principal tratado global contra a crise climática, o Acordo de Paris, que definiu que os países precisam agir para evitar um aquecimento maior do que 1,5ºC na comparação com a temperatura global antes dos processos de industrialização. Considerando as dificuldades de reduzir emissões militares e de conflitos, isso implica que as metas de cortes das emissões civis precisam ser ainda mais fortes, diz Parkinson.
Pelo Acordo de Paris, os países precisam estabelecer metas para reduzir suas emissões e informar o quanto emitem. A contabilização das emissões militares, porém, é voluntária um pequeno avanço diante do acordo anterior, o Protocolo de Kyoto, que graças ao lobby americano, excluiu totalmente essas emissões.
Em 2025, apenas seis países informaram dados desagregados de suas emissões militares: Alemanha, Hungria, Noruega, Eslováquia, Bulgária e Ciprus, conforme levantamento do projeto Military Emissions Gap, do Observatório sobre Conflito e Meio Ambiente.
Outras potências militares ou não informaram nenhum dado (caso de EUA, Rússia, China, Japão, Polônia e Turquia) ou apresentaram números agregados (como Reino Unido e França), o que dificulta uma análise mais precisa.
Na prática, isso significa que praticamente não há dados disponíveis sobre o assunto. A maioria das Forças Armadas não mapeia as emissões das cadeias de suprimentos. Além disso, há pouco investimento em pesquisa para desenvolver metodologias para contabilizar as emissões em conflitos.
O maior problema com as estimativas oficiais de emissões militares é que elas não incluem as emissões das cadeias produtivas. Segundo a nossa pesquisa, isso pode significar que o total de emissões é cinco vezes maior do que as emissões diretas, explica Parkinson.
Ainda que faltem metodologias científicas revisadas e acordadas para medir as emissões em conflitos, alguns pesquisadores trabalharam para estimá-las na Guerra na Ucrânia e na Guerra em Gaza.
Maior conflito armado na Europa desde a 2ª Guerra Mundial, a invasão russa na Ucrânia já produziu 237 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente (medida usada para padronizar as emissões) ao longo dos primeiros três anos de conflito. O volume é comparável às emissões anuais de países desenvolvidos como Bélgica e Áustria.
Pesquisadores estimaram que um terço dessas emissões foi causada pela guerra, com consumo de combustíveis, uso de munições, mísseis e explosivos, construção de fortificações e trincheiras, além da destruição de equipamentos. A reconstrução da infraestrutura destruída responde por outro terço, enquanto outros 21% teriam sido decorrentes de incêndios florestais, muitos iniciados por bombardeios.
Uma fonte de emissão mais surpreendente (9% do total) é aviação comercial, obrigada a alterar várias rotas por conta do fechamento do espaço aéreo da Ucrânia e da Rússia, que proibiu companhias aéreas de 16 países. As mudanças de rotas aumentaram a duração dos voos e, portanto, o consumo de combustível. Segundo a pesquisa, antes da guerra, um voo de Tóquio até Londres levava quase 12h, passando pela Rússia. Agora, o mesmo voo precisa passar pelo Canadá, com quase 15h de duração.
Em Gaza, onde 67 mil palestinos já foram mortos por Israel, os primeiros 15 meses de guerra resultaram em 1,9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente pelo uso de artilharia, bombas e mísseis e pelo gasto de combustível com deslocamento de tropas, segundo pesquisa de universidades britânicas. Ao se considerar as emissões das reconstruções, após cerca de 92% dos imóveis residenciais e cem hospitais serem destruídos, o volume salta para 32 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente superior às emissões anuais de 102 países.
O jeito mais rápido de reduzir as emissões das guerras e das forças armadas é diminuir o tamanho e a atividade militar e o jeito mais rápido de fazer isso é pela construção da paz, controle de armas e desarmamento mas isso vai exigir ações corajosas de líderes políticos, conclui Parkinson.
Houve tentativas. Há alguns anos, países europeus deram passos tímidos em direção a uma maior transparência das emissões militares. Em 2023, o Parlamento Europeu defendeu que os países do continente incluam as emissões militares em suas metas nacionais de redução. No mesmo ano, a Otan publicou uma metodologia para mapear e analisar suas emissões. Não tem como chegarmos à neutralidade de carbono sem reduzir também as emissões do setor militar, chegou a dizer o então secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.
O ano era 2023, mas era outro mundo. Desde então, após a eleição de Trump, não apenas os gastos militares cresceram, mas também as ameaças e os conflitos em nível global. Mas, para mudar o estado de guerra já instaurado, especialistas como Parkinson e Kinney só apontam uma saída: pressão social.
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