por Carina Barros*

Imagine morar em um bairro onde o acesso à moradia digna é prejudicado por frequentes alagamentos e enchentes de um rio. Essa é a realidade dos moradores da parte mais baixa do bairro de Cajueiro, na zona norte do Recife. Com 59 hectares, o bairro é dividido em duas partes, a alta, com ruas asfaltadas, ladeiras e casarões elegantes, e a parte mais baixa, formada por casas próximas ao rio Beberibe, na divisa entre Recife e Olinda. Nessa área, quando chove, o medo aflora junto com as águas das enchentes.

Desde a década de 1980, o rio Beberibe já passou por muitas intervenções por parte do poder público, amplos foram os programas do Governo do Estado em parceria com as prefeituras dos municípios (Recife e Olinda) e iniciativas do Governo Federal para realizar obras de revitalização. O mais recente projeto é o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 2007 pelo Governo Federal, que estava voltado para os investimentos em infraestrutura para todas as regiões do Brasil.

Segundo o Ministério das Cidades, o programa, dividido em duas fases – PAC 1 (2007-2010) e PAC 2 (2011-2014) -, totalizou mais de 600 bilhões de reais em investimentos. Contudo, foi interrompido por causa de crises econômicas e políticas.

O bairro de Cajueiro, no entanto, foi deixado de lado e muitos moradores tiveram que deixar suas casas para morar de aluguel em outros lugares, pois as enchentes continuaram a ser um transtorno rotineiro. Atualmente, os poucos moradores que ficaram continuam porque o acesso à moradia digna na Região Metropolitana do Recife custa caro.

Alagamentos constantes nas ruas do bairro expulsam moradores

Crédito: Carina Barros

Quem fica sempre é o mais preto, pobre e periférico

De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Pólis, em 2022, na Região Metropolitana do Recife, a população periférica e negra é a que mais sofre com os riscos de enchentes, que afetam 59% das pessoas com renda domiciliar de R$ 2,1 mil. Os dados da pesquisa também apontam que cerca de 22% dos lares atingidos são chefiados por mulheres que ganham até um salário mínimo. Além de ser difícil ter uma boa qualidade de vida recebendo esse valor, as famílias ficam ainda mais vulnerável a doenças ocasionadas pela falta de saneamento básico.

Segundo a bióloga, professora e pesquisadora Paula Fortunato, a população circunvizinha do Beberibe sofre com a fragilidade do meio ambiente e, como o rio é muito canalizado, o uso da água para consumo se torna inapropriado. “Na recente pesquisa, realizada pelos meus alunos do Curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário da UniFafire, no ano de 2024, encontramos cianobactérias e microorganismos que têm potencial tóxico que podem ocasionar graves doenças, relata.

A falta de oportunidade de viver em um lugar seguro se reflete na história de Laudicéia Silva, de 68 anos, moradora do bairro há 40. Ela lembra bem das noites mal dormidas em períodos de fortes chuvas em que sempre teve a casa inundada. Atualmente, a casa dela está em reforma, pois as chuvas extremas de 2022 que afetaram a Região Metropolitana do Recife e matou 134 pessoas nos municípios de Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes e Olinda. Na pior tragédia do século no Recife, ela ficou desabrigada.

A dona de casa não conseguiu mais voltar para a residência e, até o momento, mora num local alugado na mesma região. “Quando chove muito aqui, também alaga. Já tive que sair com água no peito e tive uma doença bacteriana nas pernas. Meu sonho é sair daqui,” disse.

Com a temporada das chuvas prestes a começar, Laudiceia perde o sono

Crédito: Carina Barros

Débora Silva, de 63 anos, irmã e vizinha de Laudicéia, também compartilha do mesmo sentimento. A dona de casa relata que nem guarda-roupa tem mais, porque já perdeu a maioria dos móveis com as enchentes. É tanta desilusão que ela não acredita que algum dia o poder público possa olhar para a comunidade. “Há 30 anos que moro aqui e sempre alagou, meu sonho é viver em uma casa digna e sair daqui, para a gente já deu”, afirmou.

Se as enchentes recorrentes trazem desesperança para a comunidade, ainda é mais difícil para quem vive na casa que é sempre a primeira a alagar. Essa é a realidade de Iraci Silva, de 62 anos. Na casa em que a doméstica mora com o marido, não tem muitos móveis e a situação é de extrema pobreza.

Há 36 anos morando na região, ela desabafa: “quando enche, não tenho para onde ir, às vezes vou para um abrigo, mas não gosto muito, porque não há nada melhor do que a nossa casa. Então, fico na rua esperando secar e nesse tempo todo não temos nada concreto, só temos promessas da prefeitura, até já cadastraram a gente, mas disseram que não tem lugar para fazer a casa.”

Nivaldo Belmiro, de 57 anos, autônomo e morador há 40 anos da região, lembra que viu a favela ser construída ao longo dos anos e presenciou a chegada das enchentes recorrentes que atravessam a vida dos vizinhos ao redor. Na foto que abre esta reportagem, ele mostra as marcas da água na parede.

Na casa em que mora com a esposa, Nivaldo já mantém os móveis suspensos, pois tem medo de perdê-los durante as enxurradas. Quando a enchente chega ao bairro, além da marca da lama que segue o percurso até o leito do rio, as paredes ficam úmidas e mofadas. Para o morador, o desastre de 2022 marcou toda a comunidade. “As águas do rio cobriram o portão da minha casa, não saímos daqui, era impossível passar. Logo depois veio assistência de bombeiros, psicólogos, Defesa Civil, mas a maioria daqui não recebeu auxílio, e era para todo mundo receber diante da nossa condição social”, disse.

Entre os anos 2023 e 2024, Nivaldo passou por um momento delicado de saúde, pois depois do contato com a água poluída do rio, contraiu leptospirose e quase morreu. Dentre tantas vulnerabilidades que o morador enfrenta com a família, ele percebe que a cor da pele influencia na forma como as pessoas vivem na sociedade.

“Dói ver como algumas pessoas são simplesmente esquecidas e marginalizadas por sua cor de pele e pela idade, como se não servissem mais ao Estado. É doloroso presenciar a relutância de quem vem de fora em pisar em nossas casas. Morando aqui, vejo pessoas constantemente ficarem doentes. E a gente vê que pessoas com mais recursos hesitam em entrar em um lar onde há um enfermo. Julgam a nossa moradia, por mais que sejamos limpos e, quando oferecemos algo, nunca querem nada”, desabafou.

O surrealismo dos móveis suspensos é a cena normal para quem vive em Cajueiro

Crédito: Carina Barros

O racismo ambiental presente

Entender o racismo ambiental ajuda a explicar como as consequências de um mesmo evento podem variar drasticamente conforme o CEP, a cor da pele e os acessos de cada indivíduo. O termo se originou na década de 1980 nos Estados Unidos, por meio de pesquisas realizadas pelo químico Robert Bullard, que percebeu que comunidades brancas eram mais privilegiadas do que as comunidades negras e pobres na forma como o governo norte-americano limpava os aterros de lixos tóxicos e punia os poluidores.

Uma experiência concreta para esse estudo foi em Afton, no Condado de Warren, na Carolina do Norte, em que o fator raça e classe social estavam interligados. Diante de tanta injustiça ambiental, foi a partir dessa pesquisa que o reverendo Benjamin Chavis Jr. cunhou a expressão racismo ambiental. Esse conceito se aplica às regiões brasileiras em que as vulnerabilidades socioambientais estão cada vez mais escancaradas devido à negligência do Estado.

Nas comunidades ribeirinhas do rio Beberibe, esse racismo se concretiza quando o avanço das mudanças climáticas sobressai na parcela da população mais negra da sociedade. Nesse contexto socioambiental, segundo a cientista social, pesquisadora e presidente da Associação Gris, Joice Paixão, a segurança na moradia não é um direito de todos.

“Nos bairros de classe média, rios são locais de lazer. Já para quem vive nas margens do Beberibe, o rio se transforma em fonte de tragédia. Isso não é culpa da natureza, mas reflexo direto do racismo estrutural e ambiental que molda a cidade. Precisamos de uma governança que coloque os territórios no centro, não só para opinar, mas sim para planejar, executar e avaliar, pois uma política pública que não conversa com a comunidade não funciona”, afirmou Paixão.

Salve o Beberibe!

Com o objetivo de denunciar as mazelas que assolam o rio Beberibe, em 2020 surgiu o coletivo Salve o Beberibe. A iniciativa é tocada por nove integrantes e conta com mais de 50 voluntários. Ações de limpeza e o trabalho com o diálogo sobre educação ambiental nas escolas e no território são o carro chefe dessa instituição que atua sem sede e sem fins lucrativos.

O coordenador do projeto e estudante de Ciências Biológicas com ênfase em ciências ambientais, Victor Santana, também entende que a população negra e periférica vive às margens do Beberibe por falta de acesso a oportunidades a lugares melhores e, por consequência disso, são empurradas para áreas vulneráveis devido à especulação imobiliária.

“As pessoas que residem em áreas mais sensíveis sofrem mais intensamente com enchentes. É muito importante falar também sobre a especulação imobiliária desenfreada, pois quando as cidades crescem, elas crescem, de uma maneira característica aqui e em toda a América Latina, de maneira horizontal, elas crescem em área e crescem em população. Então, conforme as cidades vão crescendo, a pobreza é destinada para a periferia. É tudo proposital”, afirmou.

Apesar de ser tão degradado, o rio Beberibe já foi fonte de renda e sustentou diversas famílias que moram às suas margens. É por isso que o coletivo leva em consideração que é preciso defender e resistir no território. “Temos o sentimento de pertencimento por saber que o rio já foi limpo e que sustentou diversas famílias no passado. Apesar de degradado, ainda vemos vidas no rio Beberibe. A gente também enxerga que há a possibilidade de continuar lutando para preservá-lo e reutilizá-lo um dia”, concluiu.

  • Conheça mais sobre o Salve Beberibe
  • O que os órgãos Públicos têm a dizer?

Nota da Prefeitura do Recife

A prefeitura informa que captou R$ 57,5 milhões, junto ao Governo Federal, para realizar obras de urbanização nas comunidades vulneráveis do bairro de Cajueiro. Os recursos vêm do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Seleções e o projeto executivo está sendo elaborado. A intervenção inclui ações de Saneamento Integrado e melhoria da mobilidade, com a construção de mais um trecho da via marginal do Rio Beberibe, conectando as partes já existentes e criando uma ligação entre o Arruda e a BR-101.

A Prefeitura do Recife esclarece que, constitucionalmente, rios que têm nascente e foz no território do Estado são de responsabilidade dos governos estaduais, o que restringe a atuação da gestão municipal no tocante à dragagem, alargamento de calha ou de limpeza, enquanto atua diretamente na autuação de ligações clandestinas na rede de esgotamento sanitário na cidade do Recife. O Beberibe nasce no município de Camaragibe, passando ainda pela cidade de Olinda para convergir com o rio Capibaribe na cidade do Recife.

Coletivos como o Salve Beberibe mobilizam voluntários para reduzir danos das cheias

Crédito: Carina Barros

Nota do Governo do Estado de Pernambuco

Em nota, o governo do Estado, através da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado (Seduh), informou que o governo investe R$ 113 milhões nas obras de desassoreamento do Rio Beberibe, em Peixinhos, Olinda. O projeto executivo está em fase final para que a licitação seja aberta. Além disso, o Governo já está realizando obras de saneamento e pavimentação da área.

Essas intervenções são complementares às ações previstas pelo governo do Estado no programa Periferia Viva, do governo federal, uma parceria que prevê investimentos de mais de R$ 291 milhões, sendo R$ 130 milhões do governo do Estado e R$ 161 milhões do governo federal. Essas iniciativas do Estado contribuíram para que o Governo Federal se sentisse motivado a selecionar a iniciativa do Periferia Viva para ser implantada em Pernambuco.

A parceria com o governo federal já garantiu a instalação do Posto Territorial em Peixinhos. O espaço é base das equipes técnicas e ponto de atendimento à população, promovendo diálogo, reuniões e ações para fortalecer a participação comunitária nas melhorias do território.

O trecho do Cajueiro localizado na faixa ribeirinha do Rio Beberibe está inserido na área de intervenção do Periferia Viva. Nas proximidades da Rua Alice Tibiriçá, estão em andamento estudos técnicos para definir as obras necessárias e avaliar possíveis remoções de moradias em áreas de risco ou interferência direta com a intervenção.

Caso haja necessidade de remoção, os moradores impactados serão contemplados com aluguel social e, posteriormente, com unidades habitacionais, conforme as diretrizes do programa. O projeto do Periferia Viva prevê a construção de mais de 1.000 unidades habitacionais que serão destinadas às famílias ribeirinhas da região.

A Seduh reafirma seu compromisso com o desenvolvimento urbano sustentável, a segurança das populações ribeirinhas e a condução de políticas públicas que promovam transformação social com responsabilidade e diálogo.

*Carina Barros é é jornalista pela Universidade Federal de Pernambuco e mestranda em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFPE) com enfoque em jornalismo ambiental, racismo ambiental e análise em cobertura jornalística televisiva e Técnica em Artes Visuais, formada pela Instituição Federal de Pernambuco – (IFPE)

Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil

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