O caso envolvendo o Banco Master e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), José Antônio Dias Toffoli, ganhou novos contornos com a análise de aparelhos eletrônicos de Daniel Vorcaro, dono do banco, apreendidos pela Polícia Federal (PF) e revelados pelo UOL.
Segundo a PF, o ministro relator do caso é citado em registro de conversas com o banqueiro. Essas menções teriam levado a PF a solicitar a suspeição de Toffoli na relatoria do processo diretamente ao presidente do STF, Edson Fachin. Em entrevista ao O Globo, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirma que o STF saberá analisar se deve afastar ou não o ministro da relatoria das investigações por suspeita de conflito de interesses.
A suspeição é um instrumento jurídico usado para questionar a imparcialidade de um magistrado. Ela pode ser arguida quando há indícios de vínculo, interesse ou circunstâncias que possam comprometer a isenção do julgador.
O material, cujo conteúdo permanece sob sigilo, apontaria para uma relação de proximidade entre Toffoli e Vorcaro, incluindo uma série de conversas constantes entre os dois nos aparelhos apreendidos. Se encontrarmos pessoas de grande estatura política, social e econômica, vamos em frente, disse o diretor da PF.
Fachin intimou Toffoli para que se manifeste sobre possíveis conflitos de interesse. Em nota, a defesa de Toffoli classificou o pedido de suspeição como ilações e questionou a legitimidade da PF para tanto, argumentando que a instituição não é parte no processo, conforme o artigo 145 do Código de Processo Civil. O ministro afirmou que apresentará sua resposta diretamente a Fachin.
Apesar de Rodrigues afirmar que não há estranhamento nenhum com Toffoli, a condução do caso pelo ministro tem sido marcada por atritos com a PF, que, nos bastidores, aponta uma série de decisões incomuns e interferências diretas na investigação.
Em dezembro de 2025, o ministro avocou para si o inquérito que investiga o esquema de fraudes bilionárias do Master, centralizando as investigações no STF e tomando decisões monocráticas e sigilosas que teriam gerado desconforto na Corte.
Entre as polêmicas, destacam-se ainda a restrição de acesso às provas e a designação nominal de peritos da PF para analisar o material apreendido, práticas que, segundo investigadores, desviam do procedimento padrão da corporação.
Inicialmente, Toffoli determinou que todo o material apreendido na Operação Compliance Zero fosse lacrado e mantido sob custódia do STF, o que, na prática, paralisou as análises. A decisão, classificada por um investigador que falou anonimamente à imprensa como algo que ele nunca viu antes, foi posteriormente revista, mas a centralização do processo no Supremo continuou a gerar críticas.
Além disso, Toffoli teria tentado orientar a PF a buscar omissões e contradições no depoimento de Ailton de Aquino, diretor do Banco Central. Anotações feitas pelo próprio ministro indicariam o objetivo de cada questionamento, configurando uma suposta interferência direta na linha investigatória.
Esses episódios em série agravaram a crise, levando nos bastidores investigadores a classificarem a situação de Toffoli como insustentável. Soma-se a isso, a revelação de que a família do ministro possui um resort que realizou transações milionárias com fundos vinculados ao Banco Master.
A PF apura agora transferências de dinheiro de uma empresa chamada Maridt para o ministro. A Maridt foi sócia de um fundo ligado ao Banco Master no resort Tayayá e está em nome de dois irmãos do magistrado. Toffoli afirmou a interlocutores que recebeu pagamentos por ser sócio da empresa junto a outros familiares, segundo a Folha de S. Paulo.
Além disso, uma viagem de Toffoli ao Peru para a final da Copa Libertadores de 2025, na companhia de um advogado de um dos executivos do Master, um dia após ser sorteado como relator do caso, intensificou os questionamentos sobre sua imparcialidade.
Como mostrou análise da Agência Pública, as controvérsias em torno de Toffoli não são recentes. Desde sua indicação ao STF em 2009, o ministro esteve no centro de diversas polêmicas.
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