Na última sexta-feira (16), uma forte chuva causou estragos na Avenida Ellis Maas, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. A enchente, ao lado de um piscinão em construção há quatro anos, não só trouxe prejuízos aos comerciantes da região como deixou a via instransitável e arrastou carros.
A avenida Ellis Maas é uma importante via de acesso para bairros da região do Capão Redondo, como o Jardim Jangadeiro, a Cohab Adventista, o Parque Independência, e também à região do Jardim Ângela.
Márcio Ferreira Feitosa, 49, foi um dos comerciantes que mais foi afetado pela enchente. Ele possui uma loja de distribuição de água, gás e produtos de limpeza ao lado da obra e em frente ao córrego. Ele abriu as portas da loja discretamente, fazendo atendimentos pontuais e ainda reorganizando o espaço.
Estou com funcionário em casa, perdemos muitos produtos, maquinário, geladeira, computador, sistema de internet fora do ar, estou dispensando pedidos da minha clientela, minhas motos de trabalho estão na oficina, detalha Márcio.
Márcio Ferreira Feitosa precisou consertar porta que foi arrancada pela força da água no último dia 16 @Cleberson Santos/Agência Mural
Ele mostrou à reportagem da Agência Mural alguns dos danos causados ao estabelecimento. O refrigerador, agora vazio, foi empurrado diversas vezes para dentro da loja enquanto a enxurrada tentava levá-lo. O papelão que protege as mercadorias segue molhado mesmo três dias após a chuva.
Nas paredes, há marcas tanto do quanto a água subiu quanto dos danos causados pela obra ao lado. Até a porta foi arrancada pela força da água. Não teria nem como fechar no dia que aconteceu, relata.
‘Não tive nem tempo de chorar, a vontade veio, mas via minha esposa desesperada, sem conseguir se controlar, tive que vestir a máscara da coragem e enfrentar o problema. Mas estamos de pé, graças a Deus’
Ao mesmo tempo que precisava cuidar da loja neste primeiro dia útil após a enchente, Márcio teve outra preocupação para tentar resolver. O comerciante contou que logo pela manhã de segunda-feira (19), os funcionários da construção estavam erguendo um novo muro, no lugar onde a água foi represada.
Segundo ele, isso traria novos problemas em caso de uma nova chuva: A gente já tinha falado, se vocês levantassem [o muro], a gente vai derrubar na mesma hora.
Mancha mostra nível da água nos fundos da loja de Márcio; segundo ele, rachaduras foram causadas pela construção do piscinão ao lado @Cleberson Santos/Agência Mural
Márcio possui a loja dele desde 2013 e sempre enfrentou alagamentos, mas não com a mesma força do que foi testemunhado no dia 16 de janeiro. Para ele, a construção de uma ponte no local agravou o problema.
Antes a água não ficava alagada aqui. Qualquer chuvinha, qualquer garoa já deixa alagado aqui na frente da loja, os carros param, não conseguem passar.
Por volta das 13h, o Chefe de Gabinete da Subprefeitura do Campo Limpo, Heron Viana, e a Coordenadora de Projetos e Obras, Márcia de Souza Dias estiveram na Ellis Maas e fizeram uma reunião informal com comerciantes e moradores. A conversa aconteceu na calçada mesmo, debaixo de garoa. Ficou definido a colocação de contenções de concretos ao invés de erguer o muro.
Desaparecimento
Erick Silva, 24, desapareceu após o carro dele ser arrastado pela chuva em 7 de fevereiro de 2025, há pouco mais de 11 meses. O veículo foi encontrado no dia seguinte, no córrego Moenda Velha, na Cohab Adventista, mas o corpo do jovem segue desaparecido e o caso sem respostas.
Um pouco mais à frente na Avenida Ellis Maas, já em direção à Avenida Carlos Caldeira Filho – onde um casal foi levado pela enchente também na sexta-feira -, a comerciante Solange Rosa Macedo, 48, também teve prejuízos em sua loja de moda íntima, que está na avenida há 20 anos.
Nossos móveis foram destruídos, porque é madeira, molha tudo. A mercadoria não teve problema porque consegui levantar rapidamente, mas os móveis não tinham como. Estão perdidos, não só por essa chuva, mas pelos anos e anos que sempre alaga, mesmo com comporta na loja, relata a proprietária da loja.
A esperança dela é que a Prefeitura consiga finalizar logo a obra do piscinão e que ele dê os resultados esperados: Tinha dois anos que não alagava aqui, não daquela forma. Se pelo menos colocarem pessoas para limpar os esgotos, as bocas de lobo, tirar a sujeira, acredito que não virá a água daquela forma.
Danos nos móveis da loja de moda íntima gerido por Solange Rosa Macedo no Capão Redondo @Cleberson Santos/Agência Mural
Danos estruturais
Além de ainda não resolver as enchentes e da interdição da avenida no começo de 2025, o piscinão foi responsável por rachaduras, como as que Márcio mostrou para a reportagem, nos imóveis vizinhos.
No final de 2024, o projeto causou um afundamento do solo deste mesmo trecho da Avenida Ellis Maas. A via ficou interditada por cerca de dois meses, causando perda de movimentação e prejuízo para o comércio local. Foi construída uma ponte, deixando o trecho sobre o córrego mais elevado que o restante da via.
O morador Flávio Dias do Nascimento, 42, vê erros na execução do projeto. Ele trabalha como coordenador de obras e é morador do condomínio Parque das Árvores.
Reunião de representantes da Subprefeitura do Campo Limpo com moradores e comerciantes da Avenida Ellis Maas @Cleberson Santos/Agência Mural
O empreendimento fica entre os dois córregos que passam pela região da Cohab Adventista e terá o piscinão como vizinho de fundos. A água chegou a entrar na casa de Flávio, causando danos ao sofá. Outros moradores foram mais afetados.
A gente sabe que o piscinão tem sérios erros, desde a origem, comenta o morador. Em duas atas de reuniões do conselho da subprefeitura há informações sobre problemas na realização da obra. Foi identificado a necessidade de aprofundar ainda mais, isso significa que não foi feito de fato uma análise de risco, critica Flavio.
Você chega na metade da obra e entende que tem que aprofundar ainda mais, qual foi a avaliação que foi feita?, questiona o morador.
Segundo ele, o futuro reservatório é o principal problema da vizinhança do condomínio onde ele mora.
Embora digam que é para ajudar, um piscinão a céu aberto, mal cuidado, ele não ajuda, você vai ter problemas com alguns tipos de doença, afirma.
O reservatório na Avenida Ellis Maas começou a ser construído em 2022, com custo inicial de R$ 179 milhões e previsão de entrega para 2025.
De acordo com a SPObras, em nota enviada à Agência Mural no fim do ano passado, a construção do piscinão do Capão Redondo e a canalização do Córrego Água dos Brancos estão em andamento, com aproximadamente 70% dos serviços executados.
A pasta afirma ainda que a previsão de conclusão é para o primeiro semestre de 2026. O valor contratual atualizado é de R$ 460,6 milhões, montante que abrange a elaboração dos projetos, a construção do reservatório, a canalização de 3 quilômetros do córrego e o prolongamento da Avenida Carlos Caldeira Filho.
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