É uma tarde de sábado. Usando crachá no peito, jaleco branco de mangas cumpridas, sapato fechado e máscara, Maria do Carmo da Silva Santos, 60, entra no Hospital Geral de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Ela se identifica na recepção, assina a presença, guarda seus pertences. Com autorização prévia e livre acesso, ela inicia o plantão do dia, no qual percorre o corredor da enfermaria e entra em um dos quartos, com sua parceira de trabalho.

Mas o cuidado que ela oferece é diferente daquele que tradicionalmente ocorre nos hospitais: depois de se apresentar para o paciente, ela pergunta como ele está, se gostaria conversar e se deseja desabafar. Com carinho, o convida para orar, ouvir um trecho bíblico ou um louvor.

Foi ali pela fé que meus olhos abriram e agora me alegro em sua luz, canta trecho de uma das músicas mais pedidas pelos pacientes.

São 10 minutos de conversa e acolhimento que, para quem compartilha da fé, valem como uma injeção de esperança, ânimo e paz.

Carmem faz o voluntariado como capelã aos sábados, mas o plantão de capelania funciona diariamente no Hospital de Guarulhos @Divulgação

Essa rotina não é uma visita médica e sim um encontro de capelania. Uma conduta que caminha com a medicina convencional, com foco no conforto espiritual de quem sofre de enfermidade do corpo.

Essas pessoas se sentem apoiadas, protegidas, amparadas. Vemos a alegria deles no semblante. Isso também nos torna felizes, pois no momento mais difícil da vida, a gente está ali para poder ajudar com aquilo que podemos levar: a fé nos corações através da palavra de Deus, descreve com emoção Maria do Carmo, conhecida como Carminha.

A Capelania é uma assistência religiosa prestada a pessoas que estão amparadas em entidades prisionais civil e hospitalares públicas e privadas. Ela está prevista pela Lei Estadual de São Paulo 10.066/1998Lei Federal 9.982/ 2000, que  assegura que pacientes e internos tenham acesso a atendimento religioso, desde que em comum acordo com doente e seus familiares.

Formando capelães voluntários

Moradora do bairro do Cabuçu, em Guarulhos, Carminha é um dos 100 capelães voluntários ligados ao Ministério de Madureira da Assembleia de Deus – uma vertente das igrejas protestante no Brasil.

O projeto de Capelania foi desenvolvido e é coordenado pelo Pastor Paulo Kharlakian, 62, desde agosto de 2023. Uma iniciativa que começou por meio de uma revelação em sonho.

Ele conta que, durante o sono, contemplou do alto uma unidade prisional de Guarulhos, o aeroporto internacional e o Hospital Geral da cidade. Um dia, ao final do culto em uma congregação parceira, ele contou o sonho para os fiéis.

Fui procurado pelo evangelista Adão Santos Macedo que já fazia o trabalho no Hospital Geral. Ele disse para mim: venha comigo e vão te dar um andar do hospital para você fazer o trabalho

Era justamente o mesmo hospital do sonho. Paulo entendeu esse encontro como um chamado, que se transformou em ação concreta a partir do interesse dos fiéis em visitarem quem estava no hospital. Com isso, o Paulo viu a necessidade de desenvolver um curso que pudesse preparar os voluntários adequadamente.

O curso, que tem duração de 12 horas teóricas e 3 meses de prática, treina os alunos simulando as visitas ao hospital Módulos que qualificam o acolhimento respeitoso e ético, sem atravessar a fé, a doutrina e a autonomia do paciente.

Os participantes são instruídos a atender às regras do hospital, incluindo usar jaleco e crachá e respeitar a rotina das equipes de saúde.

Carminha mostra o manual criado pelo coordenador do curso de capelania da congregação e que direciona o serviço voluntário dos capelães @Divulgação

Todas as regras e diretrizes estão compiladas no Manual do Visitador Hospitalar, usado na formação oferecida gratuitamente na igreja. Ao menos 200 pessoas já foram capacitadas, transformando o sonho daquela noite, cada vez mais, em uma realidade presente.

Estamos iniciando o trabalho no Hospital Estadual Padre Bento e atendendo em duas unidades de pronto atendimento em Guarulhos. Além da capelania hospitalar, temos a carcerária e aeroportuária. Esta última é direcionada para imigrantes, em um dos terminais do no aeroporto de Guarulhos, acrescenta.

Representatividade nas instituições de saúde

Independente da crença ou religião, Carminha conta que são raros os casos de pessoas internadas que negam o cuidado prestado pela capelania hospitalar.

É comum encontrar pacientes que professam religiões e que, por motivo de doença, estão afastados das igrejas e templos. Seu papel, então, é ajudar a trazer uma conexão real e uma identificação, como se a igreja fosse até eles.

Não há distinções de religiões: todas as pessoas que querem receber os cuidados da capelania são bem vindas. Ainda assim, o número de evangélicos tem sido um dos mais representativos nas periferias da Grande São Paulo.

A alma deles está sedenta por cuidado. Mesmo aquele que está ao lado ouvindo, fica atento. A gente vê que muitos choram, se lamentam, agradecem, e ficam muito felizes quando a gente chega.

Carminha 

Dados do Censo 2022 mostram que o número de igrejas evangélicas em bairros periféricos da cidade de São Paulo vêm aumentando. De acordo com IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a cada 100 brasileiros que moram em comunidades urbanas ou favelas, 27 se declaram evangélicas.

De acordo com o psicólogo Luís Paulo Ladeia Maisa, pessoas periféricas ou em maior vulnerabilidade social nem sempre têm acesso facilitado ao atendimento de saúde mental ou à escuta qualificada. Isso torna a abordagem da capelania anda mais importante no contexto de adoecimento.

A maioria dos outros profissionais de saúde [do hospital] não tem tempo para ter essa conversa. Para as pessoas com condição social prejudicada, muitas das vezes é a única figura que ela tem diante de si para ser ouvida e acolhida, aponta o Luís Paulo, que atua no Hospital das Clínicas de São Bernardo do Campo.

O poder da fé na vida dos doentes 

Estive doente, fostes ver-me. Estive preso e visitaste-me. Jesus se coloca no lugar do ser humano que sofre, porque ele nos enxerga como um todo, não em partes. E a capelania é o exercício do amor ao próximo em ações, define o pastor Paulo.

Quem vivencia a realidade dos atendimentos hospitalares garante que eles são permeados de encontros emocionantes. Carminha nunca se esquece de um dos seus plantões, quando encontrou uma jovem que havia passado por uma cirurgia, e estava preocupada em como cuidaria dos filhos durante a recuperação. Sem acompanhante no hospital, encontrou na capelania companhia e escuta.

Ela começou contar um pouco da história dela e foi muito difícil, me impactou muito. Eu senti, porque é como se a gente tomasse [a história] para nós. Eu sempre lembro dela nas orações.

As igrejas estão em segundo lugar entre as instituições que mais contribuem para melhorar a qualidade de vida dos paulistanos. Desse total, a maioria dos entrevistados eram evangélicos (38%)

Fonte: Rede Nossa São Paulo

Grupos religiosos que atuam com capelania, em especial católicos, evangélicos e espíritas, acabam sendo um ponto de apoio para os pacientes, levando conforto, inspiração e motivação por meio da liturgia – já que a espiritualidade é um aspecto importante da vida.

Ela traz o olhar a partir da pessoa e o conduz para além dela, para perceber outros aspectos da própria existência. É aquilo que proporciona significado ao atravessar o momento de dor, de sofrimento e morte, diz o psicólogo Luís Paulo. Por isso, segundo o especialista, as religiões podem ajudar pacientes a lidar com períodos de internação e com enfrentamento em situações difíceis.

Embora seja difícil avaliar os benefícios das ações da capelania, a experiência de Luís Paulo demonstra que quando há mais pessoas espiritualizadas à frente dos cuidados em saúde, há um maior nível de diálogo e maturidade nas discussões à respeito da vida.

Ainda assim, é importante não romantizar essas abordagens, que em alguns casos podem ser inadequadas e até arbitrárias. No seu dia a dia no hospital, Luís Paulo já identificou situações em que a ação dos capelães, ao invés de acolher e confortar, tomou um rumo de doutrinação religiosa.

Por isso, ele reforça a importância das formações em capelania, para garantir que a atuação do capelão seja conduzida de forma neutra, sem imposição. Atualmente, existem o Núcleo de Saúde e Espiritualidade (NUSE) da Unifesp, em 2006, e a Comissão de Saúde e Espiritualidade do Conselho Federal de Medicina, criada em 2025. São iniciativas que tentam aprofundar o debate e sistematizar pesquisas em relação ao tema.

Eu acho que o futuro da saúde no Brasil passa pela  integração da espiritualidade dentro das demandas e dos cuidados. A gente tem muito a ganhar. A saúde é multidisciplinar, e excluir a espiritualidade é excluir uma dimensão da vida da pessoa. 

O governo do estado de São Paulo e o Ministério da Cidadania afirmaram que não possuem dados sobre o número de capelães que visitam instituições de saúde e prisionais, em São Paulo e no Brasil, conforme previsto pelas legislações. Os órgãos não fiscalizam, regularizam ou sistematizam dados sobre quantidade de pessoas que atuam como capelães.

Agência Mural

O post Injeção de esperança: voluntários levam conforto espiritual para pacientes internados em hospital de Guarulhos apareceu primeiro em Agência Mural.

Tags:
Saúde | Sobre-Viver